SETE

1325 Palavras
"É..." Essa foi a mensagem que recebi de volta depois do áudio extremamente convidativo. E, se tem uma coisa que aprendi ao longo dos tempos e com todos os livros que li, é que, se tem uma possibilidade de interesse, existe uma maior ainda de desinteresse. Poxa, se eu tô quase fazendo polichinelos com uma plaquinha escrito "eu gosto de você" — como disse o maravilhoso Gabito Nunes — faça o favor de responder à altura. Não quero jogar minha força, expectativas ou qualquer outra coisas para o nada. Não nasci para ser brisa fraca, eu sou furacão devastador. E, extremamente irritada, resolvi colocar — talvez, pela última vez? — os devidos pingos nos is. Apertei e segurei o iconezinho do microfone, começando a falar: "Olha, Marcel. Acho que essa é a última vez, ou a primeira de muitas... Não sei, que vou te falar isso e esperar uma resposta direta. Eu não gosto de arrodeios ou joguinhos, então... Eu quero isso. Você quer? Se não quiser, me diga. Não vou pôr minha intensidade em algo que, no fim, vai acabar me fodendo. E, infelizmente, não de um jeito bom". Apertei o botão de enviar. A ansiedade me corroía e, parece que justo no momento que resolvo ser mais do quê direta, aquela criatura resolve trabalhar e não olhar o celular por vários minutos — o que me rendeu duas unhas roídas. Até que, depois de tanto pelejar e morrer de esperar, meu celular vibrou. Minhas mãos tremeram de leve e, por ironia do destino, parece que eu já sabia o que viria a seguir. "É, Joyce... Eu vou ser sincero com você e peço que não fique com raiva de mim. Eu até pensei, — várias vezes, que fique claro — em ficar com você, te beijar e até fazer outras coisas. Te acho legal, bonita e extremamente inteligente... — ele suspirou baixinho, como se estivesse tomando coragem — Tem um sorriso lindo e encantador, mas... Eu sai de um relacionamento pesado e não quero nada casual ou muito menos sério. Estou de férias aqui. Quem sabe ano que vem ou quando eu voltar da marinha... E... Eu não quero. — outro suspiro — Só me desculpa por não ter dito antes, certo? Obrigado pelo açaí, estava ótimo... Apesar de eu ter errado a freezer e ele ter virado um mexido no lugar de sorvete." "Morreu foi?" Revirei os olhos para a mensagem e teclei outra extremamente ríspida: "Já estão me enterrando, não te disseram?" Dizer que eu não esperava isso seria mentir descaradamente. Mas, mesmo sabendo por antecipação, sempre é difícil ser rejeitada. Lágrimas tomaram os meus olhos e eu respirei fundo, sem entender muito porque estava prestes a abrir o berreiro. Ele foi apenas um "crush", como os jovens de hoje falam. Era óbvio que não iria me querer ou... Não sei. Meu cérebro não conseguia processar nada além do dolorido "eu não quero". Respirei e inspirei algumas vezes, mas não adiantou prender muito, o choro veio. Depois de alguns minutos imersa na minha solidão e nos vários questionamentos internos, solucei, percebendo que, com todas as lágrimas, ganhei outra coisa: Uma maldita enxaqueca. Enxugando o rosto, andei até o banheiro principal do apartamento. E, assim que abri a porta dos utilitários, esperando achar analgésicos ou aspirina, tive vontade de rir com toda a ironia. Não tinha nenhum. E, o único canto que vende remédios básicos — para dor muscular e esse tipo de coisa —, sem que eu precise dirigir ou andar muito e, em plena às 19h:15m, é a padaria. Olhei para o Nick, aproveitando um bom soninho e o invejei. Em cima da camisola vermelha, deixei o sobretudo cair e calcei os chinelos. Não me importava se estava sem maquiagem, ou se a escova estava saindo e, muito menos, se meu rosto mostrava que chorei litros. Só queria o meu remédio para que eu pudesse dormir em paz, excluir as mensagens que troquei com ele e voltar a minha rotina normal. Sob o vento frio do iminente inverno, suspirei. Estava mais tranquila em saber que ele fica na área dos frios e os remédios são pedidos no caixa. Mas, como o destino não é justo, assim que deslizei, de cabeça baixa, os pés para dentro do estabelecimento, escutei uma respiração ser contida. E, com certeza, não foi a minha. Bem, não naquela hora. Levantei os olhos e dei de cara com duas órbitas verdes. Os fios molhados denunciavam o banho recém tomado e tive vontade de inspirar aquele cheiro bom de homem limpo. Mas, tudo que aconteceu uma hora atrás me arrebatou e a vontade de chorar apareceu de novo. Vítor, a parte de tudo, me encarou com descrença. — Você tá bem? — perguntou e eu dei de ombros, pegando a carteira no bolso do casaco. No movimento, o nó se desfez, exibindo o contorno de renda da camisola vinho. Os dois olharam e cansada demais para fechar, ignorei. — Quero um envelope de aspirinas. — depositei uma nota de vinte e soltei o ar. Ele provavelmente estava conversando com o Vítor como sempre faz. Que burra! Teria sido melhor comprar na farmácia. — Só venda três à ela, Vítor. — a voz dele não tinha o tom brincalhão de sempre, estava séria. Ele quer melar o meu plano de tomar umas cinco e pifar até amanhã à noite? Finalmente todo mundo teria o que quer. Eu, uma noite de sono. Guilherme, um dia livre de mim. E ele, bem, nada. Até porque ele não me quer. — Eu quero um envelope e você não manda nas coisas que eu compro. — tentei indagar com imponência na voz, porém o máximo que consegui foi um murmurar rouco e meio falho. É f**a. Marcel meneou a cabeça quando o primo pousou o envelope inteiro. — Só três, Vítor. Faça o que estou pedindo! — exclamou baixo, mas com força. Os olhos verdes encontraram os meus por alguns segundos e eu desviei. Não tinha forças para fazer piada ou brincar com toda a situação. Queria dormir e esquecer essa bendita rejeição. — Três. Bufando, Vítor cortou, me dando três dos comprimidos. — Empatando as vendas agora... — resmungou, reclamando por causa da interferência do primo. Peguei o remédio e sai o mais rápido possível daquele lugar. Precisava respirar, organizar a minha cabeça. Andei e, quando estava próxima de casa, ouvi alguém chamar meu nome. É... Agora dei para ouvir assombrações! É melhor apertar o passo e... — JOYCE!— essa voz é bem conhecida. Estacionei na frente do condomínio, me virando para ver um Marcel meio esbaforido. — O que foi? — forcei minha voz. — Já não basta querer controlar a quantidade de remédios que compro, vai me seguir até em casa também? Para uma pessoa que não quer nada, você está muito empenhado em ficar perto de mim! — rosnei, semicerrando os olhos. Ele estendeu a mão, enrugando a testa. — Você esqueceu o troco.... Bufei, puxando as notas da mão dele. — Era só isso? — empinei o queixo, rezando para não desmoronar na frente dele — Então, obrigada e tchau! — me virei, no entanto, fui impedida de continuar andando. Marcel segurou firmemente meu braço, me girando. Por poucos, não cai em seus braços. — Me desculpa, Joyce... — os olhos verdes passavam um arrependimento e culpa quase palpáveis. Revirando os olhos, me desvencilhei. — Tá bom, desgruda! — murmurei. — Você não é obrigado a me querer. — mentira, é sim... — Não existe uma lei sobre isso — mas deveria existir... — E não me deve nenhuma satisfação. Tchau, Marcel. — me virei e dessa vez, ele não me impediu. — Só não fica andando de camisola por aí... — o escutei sussurrar. Meu coração batia mais forte do quê a bateria de uma Escola de Samba animada. Naquela noite, dormi como um anjo. Mas, só depois de tomar as três aspirinas.
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