A manhã em Maricá parecia calma na superfície, com o sol filtrando pelas nuvens e o tráfego leve na RJ-106, mas para Bia, cada passo era carregado de inquietação crescente. Ela não conseguia tirar da cabeça o que Matteo andava fazendo na casa da irmã — as visitas frequentes, os olhares demorados, a desculpa constante da "responsabilidade" com Ana Liz. A dúvida latejava a cada ligação ignorada, a cada conversa truncada. Até que, finalmente, resolveu confrontar.Na cozinha da casa deles, Bia cruzou os braços, tentando manter a voz firme apesar do nó na garganta.
— Matteo… por que você passa tanto tempo na casa da minha irmã?Matteo parou de mexer no café, surpreso com a intensidade na pergunta, mas respirou fundo e decidiu ser honesto — sem revelar mais do que o necessário.
— Porque… — ele hesitou, escolhendo as palavras — por ela ser a doador para Ana Liz na crise. Me sinto responsável pela menina. Só eu posso ajudá-la se algo acontecesse de novo.Bia franziu o cenho, processando.
— Só você poderia? — repetiu, a desconfiança acendendo como faísca.— Sim — respondeu Matteo, sério, sustentando o olhar. — O tipo sanguíneo dela é igual ao meu. Na apendicite, só eu era compatível total. Owen e Aurora não batiam.O coração de Bia disparou como um tambor. Cada palavra era um choque elétrico. A menina, que todos assumiam como filha de Owen sem questionar, tinha sangue compatível somente com Matteo. Não era achismo, não havia teste de DNA formal — mas a evidência médica da emergência era irrefutável, uma prova concreta que ligava pai e filha de forma inescapável.Sem conseguir mais se conter, Bia pegou as chaves do carro com mãos trêmulas e dirigiu até a casa da irmã. A tensão aumentava a cada quilômetro pelas ruas familiares de Maricá, o peito apertado como se carregasse uma bomba. Ao chegar, encontrou Aurora cuidando de Ana Liz no jardim, a menina rindo enquanto regava flores.— Aurora… — começou Bia na varanda, tentando manter a voz firme, mas sentindo um m*l-estar subir do estômago. — A menina… é mesmo filha do Owen?Aurora parou o que fazia, o olhar imediatamente percebendo a seriedade afiada na pergunta da irmã. Antes que pudesse formular uma resposta controlada, Bia se apoiou no parapeito da varanda, o mundo girando. O que começara como encenação para testar a reação de Aurora virou real: náusea, tontura, mãos frias — o início da gravidez dela cobrando o preço inesperado.— Bia! Respira, calma… — Aurora correu para ajudá-la, genuína preocupação misturada ao pânico, apoiando a irmã que escorregava para o chão. — Vamos chamar alguém! Ambulância, sirene, correria — Bia foi levada às pressas para o hospital. Matteo, alertado por Aurora, seguiu logo atrás, o rosto endurecido pela mistura de culpa e estratégia.No hospital de Maricá, acomodada numa maca com soro pingando, Bia ainda estava pálida, os olhos semicerrados. A tensão subiu a outro nível quando Renan — o pai secreto do bebê que ela carregava — irrompeu pela porta da emergência, ofegante, tendo corrido assim que soube do internamento.— Bia! — disse ele, sério, correndo para o lado da maca e avaliando a situação com olhos protetores. — O que aconteceu? Fala comigo.Ela respirou fundo, mantendo o olhar firme nele apesar da fraqueza, consciente de que só eles dois conheciam toda a extensão da gravidez secreta. Mas por dentro, o pânico crescia: o plano perfeito que traçara após a descoberta dos olhos azuis de Ana Liz —preparar o terreno devagar, manipular sem pressa — agora ruía. O m*l-estar inesperado forçava um recalculo total da rota. Não era mais só sobre expor Aurora e Matteo; agora era sobre proteger a si mesma e o bebê, antes que tudo desabasse.Enquanto os médicos estabilizavam Bia, sua mente girava em loops frenéticos. A descoberta do tipo sanguíneo de Ana Liz era uma bomba que confirmava tudo: Matteo era o pai biológico, Owen uma fachada legal, Aurora cúmplice de anos de mentiras. E com Renan ali, olhos atentos, mais peças entravam no tabuleiro — mas o controle escapava.O clima no quarto do hospital era sufocante, carregado de possibilidades e segredos semi-enterrados. Cada respiração de Bia lembrava que as verdades não poderiam mais ser escondidas por completo — e que sua máscara calculada teria que enfrentar uma realidade implacável, com rota inteiramente recalculada.
Bia piscou algumas vezes, tentando organizar os pensamentos enquanto o soro pingava lentamente. Mesmo estabilizada, o olhar dela não desgrudava da porta do quarto, como se cada passo de Matteo e Aurora estivesse gravado na mente. Um frio percorria a espinha: agora ela sabia a verdade, e ninguém mais ali tinha ideia do que carregava nas mãos.
E, por um instante, só por um instante, Bia fechou os olhos e respirou fundo, sabendo que o jogo acabara de mudar — mas que o próximo movimento ainda seria dela.