Semente da dúvida

505 Palavras
O sol nascia preguiçosamente sobre Maricá, tingindo o horizonte com um tom dourado que parecia mentir sobre a tranquilidade daquela manhã. Aurora preparava o café, tentando manter o semblante sereno enquanto o barulho do relógio na parede marcava o peso das horas após a noite anterior.Matteo ainda dormia no quarto de hóspedes. As lembranças do que haviam vivido pairavam sobre ela como névoa: intensas, proibidas, difíceis de nomear.No portão, o som do carro interrompeu seus pensamentos. Aurora olhou pela janela e viu Bia descer. O movimento era natural, cotidiano até, mas o que havia no olhar dela a fez gelar. Bia trazia um sorriso aberto, mas vazio — aquele tipo de sorriso que não alcança os olhos.— Bom dia! — disse Bia animada, entrando com uma sacola de pães e frutas. — Achei que poderia ajudar você hoje. E também... senti saudades da Ana Liz.Aurora forçou um sorriso. — Que bom, Bia. Ela vai gostar de te ver quando acordar.Bia pousou as sacolas sobre a mesa e caminhou pela cozinha com familiaridade. Seus olhos pararam por um instante no corredor — o mesmo que levava até o quarto onde Matteo dormia. Quase imperceptível, o canto da boca dela se curvou levemente.— Matteo ficou por aqui ontem? — perguntou de maneira casual, pegando uma xícara. — Eu achei o carro dele lá fora.Aurora manteve o olhar no café, disfarçando o nervosismo. — Sim. Ele... ficou preocupado com a Ana Liz. Achamos melhor que ele dormisse aqui.— Claro — respondeu Bia, com naturalidade ensaiada. — Ele é mesmo um homem responsável, né? Sempre tão protetor.O silêncio que seguiu foi denso e pontuado apenas pelo som do café pingando. Bia se encostou no balcão, observando Aurora com um olhar demorado, quase curioso demais.— Aurora, eu queria te agradecer — ela continuou. — Por cuidar tão bem da Ana Liz... e por estar sempre por perto. Não deve ser fácil pra você.— Eu faço o que precisa ser feito — respondeu Aurora, seca.Bia riu baixinho, abaixando o olhar para esconder algo. — Sim… imagino.Naquele instante, Aurora sentiu — algo em Bia havia mudado. A doçura forçada escondia uma ponta cortante. E por trás das palavras calmas, havia uma tensão quase imperceptível, como se cada gesto fosse calculado.Mais tarde, quando Matteo desceu e cruzou o olhar com Bia, o clima ficou visivelmente diferente. Ela sorriu para ele, mas os olhos dele evitaram os dela, num reflexo involuntário.E Bia percebeu.A partir dali, bastou um olhar, um detalhe, para que ela começasse a montar o próprio quebra-cabeça. Algo havia acontecido — e ela descobriria. Não com gritos, não com escândalos, mas com o mesmo silêncio venenoso com que o veneno se espalha em um copo de vinho.Enquanto Aurora tentava parecer tranquila, Bia serviu o café, observando cada expressão, cada respiração. Seu sorriso era doce, mas dentro dele já nascia algo novo: o prazer da descoberta, o frio controle de quem decide quando e como atacar.E naquele instante, sem que ninguém notasse, Bia começou a mover suas peças.
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