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JADE NARRANDO
Vou contar um pouco da minha história para vocês. Me chamo Jade, tenho vinte e dois anos, pele clara e cabelos castanhos, longos e lisos, que vão até a altura da cintura. Sou baixinha, tenho apenas um metro e cinquenta e oito de altura, o que sempre me fez parecer mais indefesa do que eu realmente gostaria.
Eu nunca conheci meus pais biológicos. As cuidadoras do orfanato me contaram que fui deixada ainda bebê na porta da instituição. Desde então, elas cuidaram de mim. Aquele lugar se tornou o meu lar, e aquelas pessoas, a minha única família. Eu via crianças serem adotadas rapidamente, enquanto outras viviam ali até completarem dezoito anos, sendo obrigadas a partir para o mundo para viver por conta própria.
Quando eu tinha apenas seis anos, fui adotada. Num primeiro momento, meu coração transbordou de felicidade. Achei que finalmente teria um lar de verdade, o amor de um pai e de uma mãe.
Mas a realidade foi um soco no estômago.
Nos primeiros dias, eles até me trataram bem. Eu estava encantada por morar em uma mansão luxuosa e ter um quarto só meu. Só que o encanto durou pouco. Logo depois, eles me escorraçaram dali e me colocaram no quartinho de empregada, nos fundos da casa. Minha rotina virou um inferno: eu só podia comer após fazer todas as tarefas do lar. Eu tinha que limpar toda aquela mansão, cozinhar todos os dias, lavar e passar montanhas de roupas para, no fim da jornada, ganhar um prato de comida. Aquilo não era adoção; era escravidão disfarçada.
Viver daquele jeito era insuportável, mas aguentei até os meus vinte anos. A gota d'água aconteceu em uma noite fria. Eu estava passando muito m*l, com o corpo fraco, e não consegui fazer a janta. Dona Iolanda — a mulher que tinha a audácia de se dizer minha mãe — teve um surto de raiva e me deu uma surra violenta, que deixou o meu corpo todo marcado.
Naquele dia, olhando para as marcas na minha pele, decidi que não dava mais. Saí na calada da noite, com apenas uma mochila de roupas nas costas e a certeza de que, se eu continuasse ali, não duraria muito tempo viva.
Mas o mundo aqui fora não tem pena de ninguém. Sem dinheiro, tudo fica infinitamente mais difícil. Tentei arrumar emprego em todos os cantos, mas a resposta era sempre a mesma: "Não estamos contratando", "Volta amanhã" ou "Deixa o seu número que entraremos em contato". Essa ligação nunca vinha. E a fome não espera.
No início, eu ainda sobrevivia revirando o lixo de restaurantes ou conseguindo alguma esmola que pagava um lanche rápido. Mas o tempo foi passando e nem isso eu conseguia mais. Foi aí que cometi o meu primeiro furto. Lembro perfeitamente daquele dia: minha barriga doía tanto que me dava ânsia de vômito. Eu não tive escolha. Entrei em um mercado e guardei um pacote de biscoitos. No dia seguinte, em outro estabelecimento, peguei um saco de pão. Foi assim que passei a matar a minha fome durante os dois anos em que vivi nas ruas. Eu tinha me tornado um fantasma que ninguém enxergava.
Hoje estou em mais um mercado, tentando parecer natural com a minha jaqueta enorme, que uso justamente para esconder o que pego. Já escondi alguns pacotes de biscoito dentro dela e sigo calmamente em direção à saída, até que, de repente, um segurança enorme parou bem na minha frente.
— Abre a mochila, garota.
Senti meu sangue congelar nas veias.
— Por... Por quê? — gaguejei, tentando manter a postura.
— Anda, garota, abre logo essa mochila! — ele ordenou, a voz grossa chamando a atenção de quem passava.
Olhei desesperada para os lados. O coração parecia que ia rasgar o meu peito. Não pensei duas vezes: dei meia-volta e saí correndo como nunca corri na minha vida. Escutei os gritos dele atrás de mim, os passos pesados ecoando. Dobrei a esquina da rua em alta velocidade e avistei uma picape começando a arrancar. Em um ato de puro desespero, me joguei na traseira dela, me enfiando embaixo de uma lona grossa que cobria a caçamba.
A picape arrancou de vez. Eu estava quase sem fôlego de tanto correr, com o peito subindo e descendo descompassado, enquanto tentava sufocar o som da minha respiração para não ser descoberta.
Não sei quanto tempo se passou. A picape subiu, fez curvas fechadas e, finalmente, parou. Quando o silêncio do motor se fez presente, resolvi colocar a cabeça para fora com cuidado para entender onde estava.
Meu mundo caiu.
Ao redor da picape, havia vários homens armados até os dentes, com fuzis atravessados no peito e rádios transmissores na cintura. Voltei a me esconder imediatamente sob a lona, encolhendo meu corpo até virar uma bola, tremendo da cabeça aos pés.
Meu Deus... aqueles homens eram traficantes. Eu tinha vindo parar em um morro.
Enquanto o terror tomava conta de mim, uma única pergunta martelava na minha cabeça: o que era pior? Ser pega pelo segurança do mercado... ou acabar bem no coração do Morro da Babilônia?
De um jeito ou de outro, eu tinha a sensação de que a minha vida estava prestes a mudar para sempre.