Seguiu Ayla para dentro de casa, realmente não precisava de ajuda, um corte no braço não chegava nem mesmo perto do que cresceu sentindo. Havia sido treinado para matar, desde pequeno foi levado a acreditar que a dor precisava ser controlada, que ceder a ela o levaria a uma morte humilhante. No entanto, a dor emocional, aquela que vinha de perder o controle ou se ver fraco, era outra história.
Entraram juntos no casarão, o silêncio no ambiente dava ao lugar uma sensação de abandono que ela estranho. O ar estava denso, e ela sentiu falta das mulheres que costumavam ocupar aquele lugar, havia conhecido tanto a mãe de criação de Elijah quanto a governanta, mas agora pareciam estar sozinhos.
Os passos deixavam ecos pelo corredor. Passou os olhos no ambiente, tentando localizar os filhos, mas não viu Joshuá nem Eva. Sabia que Joshuá faria qualquer coisa para proteger a irmã, ainda assim se preocupou, provavelmente a filha estava assustada com a forma que ela saiu.
Os pensamentos de Ayla estavam bagunçados, misturando o passado e o presente. Foi com Elijah para o escritório, olhou aquele espaço com saudade. Quando conheceu aquele homem, quando esteve naquela casa pela primeira vez, também foi a única em que se permitiu olhar para si mesma desde a morte do marido. Os livros a faziam pensar na dualidade que enxergava em Elijah. A mente de Ayla vagava entre os dois homens, como se estivesse presa em um conflito só dela. Lembrava da pergunta que Elijah fez... "Você gosta de peões, linda?"
A pergunta ecoava em sua mente. Não gostava, achava que não. Porém, a forma como Elijah mexia com suas emoções a fazia questionar tudo o que pensava saber sobre si mesma. Acreditava que, se um dia se apaixonasse novamente, seria por um homem como Marco, alguém gentil e erudito, um empresário, talvez um advogado. Alguém nobre e protetor. Nunca se imaginou com alguém tão rústico quanto Elijah, mas foi ele quem fez seu coração pulsar forte no peito, outra vez.
— Veio estudar, linda? A maioria desses livros é sobre veterinária, não vai gostar, mas preciso de uma ajudinha aqui.
Ele tirou a camisa e Ayla perdeu o fôlego. Elijah era bonito, os músculos delineavam seu tórax e abdômen, mesmo sentado se mantinha reto. O calor subiu pelo corpo da contadora, uma mistura de curiosidade e vergonha. O homem estava sentado com uma postura despojada, diferente de como Marco se sentaria. Achava que nunca tinha visto o marido curvado; mesmo quando estava doente, ele se mantinha firme e elegante. Só relaxava depois de fazerem amor; eram apenas naqueles momentos, ainda assim, parecia um ritual, como ele a segurava, a forma como desfrutava do seu corpo...
Ayla balançou a cabeça, tentando afastar a lembrança de Marco.
Elijah tinha outra forma de viver, crua, intensa e direta. Não havia espaço para cerimônias ou contenções. Olhar para ele daquela forma a fez se perguntar como seria fazer amor com outro homem. Seria tão diferente quanto parecia? Marco foi o único em sua vida... em seu coração... e o único que o seu corpo conhecia. Seria possível viver o amor, duas vezes?
— Deixa eu te ajudar
Ela falou, interrompendo o próprio pensamento. O rosto de Ayla estava quente, e ela sentiu a cor subir às bochechas. Elijah estranhou o fato de ela ter ficado vermelha, mas imaginou que o rosto de Ayla devia ficar ainda mais corado na hora do sеxο.
Deixou que ela limpasse sua ferida, mas ele mesmo passou a agulha curva fechando o corte, pediu ajuda com os nós.
— É só dar o nó e cortar, linda. Eu faria, mas...
Explicou olhando para a própria mão, mas quando a israelense cortou a linha logo depois de fechar o último nó, ele a puxou para o seu colo. Beijou os lábios da israelense como se ela tivesse algo que sempre lhe faltou. O toque foi intenso, carregado de meses de desejos reprimidos e confissões veladas. Sentia o sangue ferver quando estava perto de Ayla. Foram meses conversando, muitas ligações, confissões... Gestos velados e perguntas pessoais, conhecia cada detalhe da história que ela desejαva manter e que ele queria encerrar. Agora, naquele beijo, ele finalmente podia viver o que queria.
Chegou a falar sobre isso com o irmão...
— Quero enterrar esse contador de uma vez! Porrα, ele está mais vivo que a gente. Ela só fala dele.
— O espanhol foi um dos caras mais leais que eu conheci, e se quer mesmo conquistar o coração de Ayla vai precisar aprender a respeitar a memória dele. Não se entra na casa de outra pessoa sem pedir licença.
Espanhol era a forma como o irmão de Elijah tratava o amigo, uma história cheia de altos e baixos, por fim se tornaram próximos.
Não foi diferente com o peão que agora tomava a boca da contadora da organização com sede de desejο. Cresceu acreditando que não tinha família, que havia sido abandonado pelos pais, isso até descobrir que sua história podia ser ainda pior do que cresceu ouvindo. Porém, com a descoberta do pesadelo que tinha sido sua concepção e nascimento, ganhou um irmão.
Ele e Ethan tinham uma diferença de idade de quase dez anos, ainda assim, Elijah cresceu idealizando a figura do rapaz. Queria ser como ele, conquistar sua amizade, respeito... Conseguiu se tornar o homem de confiança de Ethan que assumiu como subchefe da organização. Também foi algo que quase perdeu com o casamento fracassado e cheio de erros. Um cárcere de promessas que acreditou e seguiu como verdades. Estava, finalmente, livre de tudo aquilo, mas a sombra de Marco ainda pairava sobre Elijah, como uma barreira invisível entre ele e Ayla.
Elijah puxou o lenço que cobria os cabelos da israelense, lentamente, com a mesma curiosidade que sentia ao desvendar um segredo oculto. Queria conhecer o que aquela seda escondia, era como se precisasse desvendar os segredos daquele corpo totalmente coberto e da alma que gritava mistérios entre a feminilidade extrema e a força de uma guerreira asteca.