Os dias que se seguiram ao seu voo caótico de volta a Londres se desenrolaram em fios emaranhados.
Aurora e Lucian voltaram às suas vidas como se nada tivesse acontecido, como se seus breves e estranhos encontros não tivessem deixado marcas em seus pensamentos... mas... deixaram. Nenhum dos dois conseguia se livrar do outro. Algo persistia. Um pensamento. Um cheiro. Um momento. E embora nenhum dos dois ousasse dizer em voz alta, algo dentro de ambos lamentava silenciosamente a impossibilidade de algo mais.
Aurora tentou retomar seu ritmo habitual, mas Londres estava mais fria do que ela se lembrava. Céus cinzentos se estendiam pela cidade e tudo se movia rápido demais. A universidade a sufocava novamente, salas de aula lotadas e longos e infelizes trabalhos para entregar.
Entre as aulas, Aurora vestiu seu casaco fino demais e se arrastou até seu trabalho de garçonete no mesmo pequeno restaurante italiano. A gerente era uma aberração ambulante de RH, vestindo um avental surrado, os turnos eram longos e as gorjetas m*l davam para pagar a passagem de ônibus. E então chegou o e-mail: o aluguel ia aumentar. De novo... O valor no rodapé fez seu estômago revirar. Como uma piada c***l, a conta da faculdade veio dois dias depois.
Ela riu quando viu. Por que o que ela esperava dos preços em Londres? Maravilhosos? Deu uma daquelas risadas secas e amargas que faziam seus colegas olharem de soslaio, como se estivessem se perguntando se ela estava bem. Ela não estava. Mas sorriu mesmo assim, porque Aurora sempre sorria. Era o jeito dela.
Aurora mandava mensagens para as meninas no grupo caótico de bate-papo, atualizando-as sobre os clientes m*l-educados. Ela ria com elas, enviava mensagens de voz no banheiro do trabalho, gravava vlogs engraçados com as amigas durante os intervalos de estudo. Mas entre as mesas e as aulas, no metrô a caminho de casa ou enquanto esperava o macarrão ferver em sua minúscula cozinha, sua mente divagava.
Para ele.
O Sr. Sério. O homem de olhar frio, e com peito e mãos quentes que a haviam amparado com tanto cuidado. Ela não sabia o seu nome. Não sabia nada sobre ele.
Mas, meu Deus, ela se lembrava de como ele a olhava como se ela fosse uma interrupção que ele não odiava. Ela se lembrava de como ele não a afastou. De como a deixou ficar. De como seus braços a envolveram protetoramente como se nem fosse uma decisão.
E ela se lembrava de como adormecera em seus braços como se fosse a coisa mais natural do mundo.
Aurora balançou a cabeça uma noite enquanto esfregava molho seco de um prato, murmurando "Se controla" baixinho.
Ela nunca mais o veria. Esse era o objetivo dos homens misteriosos em aviões, certo?
Ela tentava não procurá-lo. Nas estações. Em cafeterias. Em ruas movimentadas. Mas às vezes, quando passava por alguém alto com um casaco elegante demais para o metrô, sua respiração falhava. Só por um segundo.
Enquanto isso, do outro lado da cidade, Lucian estava falhando... em esquecer.
Ele era bom em esquecer quase tudo. Sentimentos. Rostos. Nomes. A bagunça de sempre, coisas que não envolviam reuniões, prazos ou dinheiro, coisas para as quais ele nunca tinha tempo. Mas ela não era como a maioria das coisas.
Não, ela era... diferente. Ela irrompeu em sua vida como um raio de sol, um pouco ridícula, um pouco caótica e absolutamente impossível de ignorar.
Lucian retomou seu compromisso com o trabalho assim que pousou, com reuniões empilhadas, salas de diretoria cheias de idiotas de olhar vidrado assentindo a cada palavra. Ele fechou três negócios em cinco dias, comprou uma startup só porque o irritava e ainda assim não conseguia parar de ouvir a voz dela em sua cabeça.
"Tente não se apaixonar por mim ou algo assim", ela dissera.
Ele repetiu a frase mais vezes do que admitiria. Até mesmo durante negociações de contratos de alto risco.
Seus amigos também perceberam. Claro que perceberam. — Você está mais pensativo do que o normal — disse Matteo certa noite, enquanto estavam sentados na casa de Lucian, bebendo uísque caro que descia como água.
Lucian apenas encarava as chamas dançando na lareira. — Estou bem.
— Mentiroso.
A mansão parecia mais fria ultimamente... maior. Como se o silêncio estivesse se estendendo para algo mais. Ele trabalhava até as 2 da manhã na maioria das noites só para evitá-lo. Só para evitar pensar nela.
Mas ela ainda voltava, em lampejos. Seu sorriso. Seus devaneios sem sentido sobre flores, comida e destino. Aquela risadinha alegre, como se o mundo ainda não a tivesse desgastado.
Lucian expirou, massageando a têmpora. Ele nem sabia o nome dela. Tudo o que tinha era uma lembrança. E o mais tênue aroma do perfume dela que, de alguma forma, ainda impregnava seu paletó, guardado no armário.
Ele não o levou à lavanderia.
Ambos pensaram em se encontrar. Por um breve instante. De forma tola. Aurora chegou a pairar sobre uma postagem do Reddit intitulada "Como encontrar uma pessoa sem saber o nome dela" antes de fechar a página, com o rosto corado de vergonha.
E então, inevitavelmente, ambos deixaram para lá.
Porque relacionamentos entre estranhos não eram para durar.
E talvez, só talvez, eles tivessem imaginado que significava mais do que realmente significava.
Então ela voltou a fingir que estava bem. Repassando dias de doenças, cafeína, provas e pés doloridos.
E ele se enterrou no trabalho e no uísque, cercado por assistentes, telas e nada de real.
Supondo, com uma dolorosa certeza, que nunca mais se veriam.
Até que se viram.