Kate.
— Você está despedida. Não volte.
Minha testa se franze.
O quê? Depois do que acabamos de fazer, é isso que ele me diz? Será que está demitida, significa que vamos t*****r? O tom definitivamente não convida a isso.
— Oliver?
— Seu irlandês é bom demais para falar só de vez em quando com sua avó. Você se encontrou com dois russos basicamente no meio da noite. Você não vai me dizer o porquê quando sabe quem eu sou. Eu quero você mais do que qualquer mulher que já conheci. Já vi isso. Mas não confio em você. Isso significa que não quero você nem perto da minha família nem dos meus negócios. Não volte, Kate.
Não consigo parar de encará-lo. Tremo enquanto todo o calor que geramos vaza do meu corpo. Ele definitivamente não fez isso para me coagir a dar informações. Ele não está me dando ultimatos. Enquanto ajeita o suéter e passa a mão pelo cabelo, não acho que ele esteja esperando que eu me ofereça ou implore.
Não consigo me mover enquanto ele me observa. Ele torce o lábio em desgosto e se vira. Seu passo longo o leva de volta para a sala de estar. Estou congelando depois de algo que parecia sufocante. Fazer eu ir atrás dele? Posso me desculpar, mas… para quê? Sinto muito por ter me apaixonado por ele? Sinto muito por não ser quem ele esperava? Sinto muito por isso não poder dar em nada? Essas são coisas pelas quais eu poderia — e pediria — desculpas. Mas ele quer que eu me desculpe por guardar segredos. Não farei isso, porque não estou arrependida.
Quando ele chega à sala de estar, olha para mim. Ele pega meu moletom e a parte de cima do meu sutiã e os coloca no sofá.
Pego meu robe e o enrolo em volta de mim. Eu o sigo enquanto ele chega à porta. Ele pega meu casaco e o pendura no cabide. Veste o dele de costas para mim. Abre a porta e dá meio passo para fora. Ele se vira para olhar para mim, e a angústia é praticamente palpável. Não consigo conter as lágrimas que escorrem pelo meu rosto. Mesmo se eu dissesse a ele o que estou fazendo, isso não teria futuro. É uma lembrança feliz que azeda no final.
Ele tranca a maçaneta — ainda me protegendo — antes de fechar a porta. Corro até ela e olho pelo olho mágico enquanto giro a trava e deslizo a corrente. Ele ainda está do lado de fora da minha porta, mas no momento em que ouve a fechadura, caminha até as escadas. Então ele se vai.
Chorei até dormir ontem à noite. Nenhum soluço. Eu estava muito entorpecida. Apenas um rastro constante de lágrimas. Tive que colocar o dobro de gotas de anti-histamínico do que deveria para conter meus olhos de ficarem tão vermelhos e inchados.. Gelo sob cada olho ajudou a me livrar do inchaço. Eu me recompus para o meu primeiro dia de volta ao escritório.
Despejo minhas coisas na minha mesa e vou direto à porta do meu editor. Está aberta, então não preciso bater.
— Kate, eu não esperava você de volta tão cedo. Você já pegou tudo?
Você disse que precisaria de pelo menos dois meses.
— Fui descoberta. Nenhum deles sabe o que eu sei ou onde trabalho. Mas um deles me seguiu ontem à noite e me viu saindo de uma reunião com meus informantes.
Quando apresentei a história ao editor-chefe do maior jornal de Nova Iorque, ele torceu o nariz para uma história sobre a máfia. Disse que as pessoas passam por cima deles desde os anos 90. Eu o lembrei: se sangra, lidera. Ele ainda não estava convencido.
Desci a escada até o editor do National Desk. Meu supervisor direto. Fui mais fundo na minha proposta do que com o chefão. Disse que tinha informações confiáveis.
Claro, ele perguntou quem eram meus informantes confidenciais. Claro, eu me recusei a contar. Mas prometi que eles estavam em posição de não apenas saber muita coisa — não foi a palavra que realmente usei — como também estavam motivados a contar. Disse a verdade: eles me abordaram.
Quando apresentei a história, expliquei que consegui um emprego como garçonete em um clube de striptease, já que é onde as pessoas menos respeitáveis se encontram para fazer negócios. Eu não estava errada.
Ele queria que eu trabalhasse normalmente todos os dias. Tive que apontar que não havia como trabalhar das oito às cinco no jornal e depois das oito às quatro da manhã no clube. Três horas de folga. Quando e onde eu dormiria?
Ele concordou em me infiltrar por três meses, desde que eu relatasse algo novo regularmente. Eu relatei. Ele me liberou por mais dois meses, mas isso foi por água abaixo.
— Você está segura?
Aprecio que essa seja a primeira pergunta dele. Ele é um mestre de tarefas, se é que já houve um. Mas é gentil.
— Sim. Eles não sabem o quanto eu sei. E não sabem por que eu estava lá. Só sabem que eu não estava lá para uma noite de trabalho honesto.
— E você não acredita que eles vão atrás de você?
— Não. Tenho certeza de que estou a salvo deles.
O que mais poderia acontecer? Eu me machucar. Acabar morta. Possibilidades reais. Mas o que dói muito mais é que eu parti meu próprio coração ao me deixar apaixonar por Oliver. O olhar no rosto dele quando foi embora… isso vai me assombrar.
— Você tem o suficiente para seu primeiro artigo de destaque?
— Sim. Vou começar agora. Só queria avisar que estou de volta.
— Você tem o suficiente para a série que queria publicar?
— Acho que sim. Pelo menos o suficiente para dois. Posso conseguir mais por meio dos meus Informantes, já que não consigo nada em primeira mão.
— Vá buscá-los, biscoito.
Ele chama todos os repórteres de “Biscoito”. Não sei como isso começou — provavelmente antes de eu nascer. Você sabe que tem segurança no emprego quando passa do seu nome para o apelido. É um rito de passagem. Se não acontecer em seis meses, há uma boa chance de você ser mandado embora. Ele começou a me chamar assim depois de dois meses. Estou aqui há quase dois anos.
— Ah. Mais uma coisa.
— Quando isso for ao ar, não quero meu nome na linha de crédito.
— Você disse que estava segura.
— Estou. Mas não quero que nada aconteça com meus Informantes depois que os O’Rourkes juntarem dois mais dois. Ver meu nome só vai acelerar isso.
— Tudo bem. Usaremos uma assinatura da equipe.
— Obrigada. Vou organizar minhas anotações e te entregar algo preliminar até o fim do dia.
Volto para minha mesa e penduro meu casaco nas costas da cadeira. Tranco minha bolsa na gaveta e coloco meu laptop na estação de encaixe segura. Quando o computador liga, olho para a foto de família na parede frontal do meu escritório: minha mãe, meu pai, minha avó e meu avô, quando eu tinha cinco anos. Eles morreram naquele dia. Saímos da Irlanda do Norte um mês depois.
Tive uma boa vida na América. Aproveitei oportunidades que provavelmente não teria se tivéssemos ficado na Irlanda do Norte. Mas nada tão grandioso aconteceu aqui que compensasse os O’Rourkes assassinando meu avô bem diante dos meus olhos.
Inclino-me para trás na cadeira, alongando-me e apreciando o som da minha coluna estalando. A tensão se dissipa quando me sento e inclino a cabeça de um lado para o outro, o pescoço estalando também. Estou na mesa há seis horas sem me levantar. Minha amiga Anna trouxe o almoço, que está meio comido. Dou uma mordida no sanduíche enquanto releio o que escrevi.
Levei horas para organizar as anotações, digitá-las, checar fatos e escrever os dois artigos. A escrita foi a parte mais fácil. Até agora.
Fecho os olhos enquanto mastigo. Há muito mais que eu poderia colocar aqui. Não quero despejar tudo no primeiro artigo, então rascunhei dois. Quero provocar os leitores o suficiente para que voltem para mais. Mas não é só isso. Foi muito difícil incluir detalhes que colocariam Oliver e sua família em perigo.
Se eles fossem os monstros que presumi, teria sido tão fácil quanto eu esperava. Mas não são. Longe disso. Eles são tão absurdamente normais que poderiam muito bem trabalhar em uma mercearia.
Quando comecei a bisbilhotar, tentando descobrir o acordo com os O’Rourkes, tropecei na bratva. Acontece que escolhi o mesmo lugar para observar Sean e Conor. Quando ficou claro que estávamos ali pelo mesmo motivo, começamos a trocar perguntas veladas. Quando fiz o mesmo com Sergei, revelamos um pouco mais.
Não revelei todos os meus planos, e eles certamente não revelaram os deles. Mas concordamos em trocar informações conforme surgissem. Eles também prometeram me fornecer proteção contra os O’Rourkes.
Não disseram nada sobre mais ninguém e, quando insinuei isso, deixaram claro que eu estava sozinha. Sei que tinham homens vigiando meu prédio para garantir que eu chegasse em casa em segurança todas as manhãs. Mas era só isso. Não me surpreenderia se também estivessem me observando para garantir que eu não os traísse — ou, como os sindicatos chamam, um narc.
Não contei a Oliver que mandei mensagem para Sergei perguntando se tinham alguém do outro lado da rua me vigiando. Ele disse que não. Foi isso que me assustou o suficiente para contar a Oliver. Não só pelo medo, mas porque eu não precisava de ninguém interferindo.
— Kate, você está pronta para ir? Ainda está almoçando? Pensei que fôssemos jantar.
Olho para cima. Anna e Mackenzie estão paradas ao lado da divisória. Salvo meu trabalho rapidamente e fecho o programa. Terminei de reler os dois rascunhos, mas não quero que mais ninguém leia isso. Não quero que roubem a história. Não quero vazamentos. Não quero responder a perguntas. Não quero contar essa história afinal.
Isso é chocante. Mas, quando olho para o laptop, sei que é verdade. Sinto-me melhor por ter escrito tudo. Apesar de ainda ser difícil, talvez seja um dos meus melhores trabalhos. E é exatamente por isso que sinto uma necessidade esmagadora de não publicá-lo.
— Esperei tanto para terminar meu sanduíche que estou morrendo de fome. Isso não vai resolver. Estou pronta.
Desbloqueio o laptop e o coloco na bolsa antes de pegar minha bolsa da gaveta da mesa. Coloco o casaco enquanto caminhamos para o elevador. Quando saímos, um vento gelado nos atinge. Viro o rosto contra o vento enquanto puxo o cachecol mais alto sobre o nariz.
Há um cara no final do prédio, olhando para o celular como se estivesse mandando mensagem. Daqui, parece o Tommy. Ele é da segurança do Crystal Lake. Por que estaria aqui em Midtown agora?
Provavelmente não é ele. Mas ele não começa a trabalhar antes das dez. São cinco e meia agora. Quem sabe?
Mackenzie, Anna e eu seguimos para o metrô. Quando viramos a esquina, percebo o cara descendo as escadas, de gorro, olhando para baixo. Não consigo dizer se é o Tommy. Mas está claro pra c*****o que ele estava ali. Ele se mistura à multidão, então não consigo vê-lo enquanto espera por um carro que para um pouco abaixo de onde estamos.
Isso me deixa nervosa pra c*****o quando o cara desce no mesmo ponto que nós e segue na mesma direção, com o mesmo ritmo. Não digo nada. Finjo que está tudo normal.
Quando finalmente chegamos ao restaurante, sigo direto para o banheiro. Digo a mim mesma que é apenas para lavar as mãos, mas o telefone já está na minha mão — e o número de Oliver, aquele que Conor me deu quando os albaneses passaram a ser uma ameaça real, brilha na tela como uma decisão da qual não há mais volta.