Katherine.
Kate.
Eu não esperava uma resposta imediata, mas isso acabou de chegar.
Ele não deveria estar no telefone agora.
Ele está online
Oliver.
Diga.
Kate.
Então por que o seu motorista está me seguindo?
Oliver.
Eu não sei. Eu não mandei o Tommy fazer isso.
Kate.
Então manda ele parar.
Meus amigos ainda não perceberam, mas vão perceber.
E eu não quero ter que explicar por que estou sendo vigiada como se tivesse feito algo errado.
Oliver.
Se ele estiver aí, diga isso a ele.
Kate.
— Que diabos, Oliver?
Oliver.
Ele não vai fazer nada com você. Seja qual for o motivo, ele não é burro. Ele não vai te tocar.
Kate.
Isso não é o ponto.
O ponto é que eu estou sendo seguida.
Sem aviso. Sem explicação.
Isso é assustador.
Oliver.
Ele não vai te tocar.
Kate.
Por quê?
Porque todo mundo acha que a gente está transando?
Oliver.
Claro.
Kate.
Eu entendo que você esteja bravo comigo, mas como você passa de superprotetor para completamente indiferente se eu morrer?
É assim que você me vê?
Que o seu homem pode me seguir, me assustar pra caramba, e eu tenho que simplesmente lidar com isso sozinha?
Oliver.
Ele não vai te tocar.
Kate.
Então o quê?
Ele se ofereceu pra me vigiar e te reportar cada passo meu?
Oliver.
Eu já disse que não sei por que ele está te seguindo.
KATHERINE
Tudo bem.
Tanto faz.
Boa noite.
Oliver
Boa noite, Katherine Mcdonell.
Eu apenas encaro a tela do meu telefone, o coração batendo forte demais para alguém que passou a vida aprendendo a não reagir.
Katherine.
Ele usou Katherine.
Não Kate.
Não o nome simples, fácil, americano. Não o nome que eu ofereço ao mundo como uma versão diluída de mim mesma.
Katherine.
O único lugar onde esse nome existe é na minha certidão de nascimento… e no passaporte que eu tinha antes de me tornar cidadã americana. Documentos que não circulam. Documentos que não aparecem em buscas comuns. Documentos que exigem acesso.
Meus pais mudaram para Kate assim que puderam. Era mais simples. Mais seguro. Em algum momento da primeira série, as crianças começaram a me chamar de Kate, e ficou. Eu deixei ficar. Era conveniente.
Mac Dhòmhnaill é a grafia gaélica original de McDonnell. Nunca foi oficialmente meu sobrenome por muito tempo — mas encaixava. Meus pais queriam que eu carregasse algo da Irlanda comigo. Um primeiro nome irlandês. Um eco da origem.
Metade das vezes eu deixo o fada — o acento sobre o “a” — de Katharine de fora. As pessoas nunca lembram. Dois acentos em um nome já eram demais para professores, formulários e sistemas digitais. Meus pais perceberam cedo que meu nome seria massacrado para sempre.
É fácil de pronunciar se você souber.
Mas quase ninguém sabe.
Kate faz com que façam menos perguntas.
Kate não chama atenção.
Kate não levanta suspeitas.
Katherine levanta.
E ele usou Katherine.
Isso não é um erro. Não é acaso. Não é charme.
É pesquisa.
Ele me procurou.
Ele cavou.
A pergunta não é como ele sabe meu verdadeiro nome.
A pergunta é até onde ele foi para descobri-lo.
Se ele encontrou Katherine, ele encontrou o passado. Se encontrou o passado… encontrou as lacunas. As inconsistências. As mudanças de endereço. As identidades sobrepostas.
Será que ele cruzou registros? Arquivos antigos? Bancos de dados que não deveriam estar acessíveis?
Será que ele descobriu?
Será que ele sabe que eu não sou apenas Kate?
Minha respiração fica mais lenta — controlada, treinada.
Espiãs sobrevivem porque não são descobertas.
Ele enviou aquela última mensagem como quem gira a lâmina depois de cravá-la.
Katherine.
O próximo movimento não será inocente.
Será um teste.
E agora eu preciso decidir se continuo fingindo ser Kate…
ou se começo a me preparar para o momento em que ele provar que sabe exatamente quem eu realmente sou.
Oliver.
Obrigado por fazer uma pesquisa sobre mim. Muito útil. Nascido em Ballycastle, condado de Antrim, Irlanda do Norte
Kate.
Estamos bem então?
Oliver.
Nem perto, pequena espiã.
Isso não deveria me afetar do jeito que afeta. Eu deveria tê-lo exorcizado do meu sistema ontem à noite. Escrever esses artigos iniciais deveria me lembrar — me lembrou, mas, aparentemente, tenho memória curta — de quão errado ele é para mim.
Kate.
Você é sério demais
Oliver.
Você está brincando com o perigo!
Não posso mais continuar falando com Oliver.
Meus amigos vão começar a se perguntar o que aconteceu comigo, por que desapareci de repente. Saio do banheiro decidida e deixo o telefone dentro da bolsa. Se eu tiver que lidar com Oliver, isso vai ser mais tarde. No meu tempo. No meu ritmo.
Que ele se pergunte por que não atendi. Inferno, que ele pense que levou a melhor sobre mim.
Deslizo para dentro da cabine e volto para a mesa no mesmo instante em que coloco a bolsa ao lado de Mackenzie.
— Era o cara maluco? — ela pergunta, arqueando a sobrancelha.
— Não. Desculpa. Recebi uma mensagem sobre umas coisas de família. Nada sério, mas me distraí. Você já pediu?
Mackenzie acena com a cabeça antes mesmo de eu olhar o cardápio.
— Já resolvi tudo. Pedi a brisa da baía, a salada da casa e a torta de carneiro pra você.
— Obrigada.
Porra.
Mencionei uma única vez que gostava daquele prato. Uma vez. Agora, em qualquer lugar, todos assumem que, por eu ser irlandesa, torta de carneiro é automaticamente meu prato favorito. Quando comecei no jornal, em uma reunião qualquer, saiu que eu tinha nascido na Irlanda do Norte. Um cara percebeu e perguntou “que tipo de irlandesa” eu era. Eu só encarei. Ele explicou que queria dizer irlandesa da Irlanda ou irlandesa-americana. Respondi a primeira opção. Então ele insistiu: Irlanda do Norte ou “Irlanda de verdade”.
Eu disse apenas:
— Sou irlandesa.
Ele tentou continuar, mas mudei de assunto. Não vou entrar nisso. Não preciso dar aulas de geopolítica, história ou conflitos religiosos a colegas de trabalho.
Mackenzie sorri para mim. Ela é genuinamente simpática, embora um pouco egocêntrica. Pergunta como você está mais por educação do que por real interesse — logo depois, o assunto sempre volta para ela. Ainda assim, tem boas intenções, e isso conta.
— Você ficou tão na sua esse tempo todo que nem cheguei a perguntar: como foi seu Natal?
— Foi bom. Meus pais e eu passamos o dia com minha avó no centro de tratamento de memória. Ela esteve lúcida a maior parte do tempo. Ainda tem uma voz linda… cantamos músicas de Natal, como quando eu era criança.
— Que fofo. Meus pais arrastaram James e eu pra missa de novo. Longa, entediante… e aquele incenso. Parece febre do feno. Você sabe como é, Kate. Missas católicas duram uma eternidade.
— Mmm.
Dou um gole na bebida que acabou de chegar. Como sou irlandesa, todos presumem que sou católica. Não sou. Sou protestante da Irlanda do Norte. Igreja da Irlanda, mais especificamente — basicamente primos próximos da Igreja da Inglaterra. Episcopais na América. Anglicanos no resto do mundo.
Sempre lembro de uma frase do Robin Williams:
“Sou episcopal. É o catolicismo light. Mesma religião, metade da culpa.”
É a forma mais simples de explicar.
Mas, de novo, não estou aqui para ensinar história ou religião. É mais fácil desviar. Não é a colina em que quero morrer — pelo menos, não com eles.
A conversa continua ao meu redor. Eu participo o suficiente para não parecer distante. Tommy está no bar agora, acompanhado. Dois caras que conheço bem demais: Alessandro e Otávio. Trabalham na Crystal Lake como ele.
Tommy é tranquilo. Mas Alessandro e Otávio sempre me deixaram desconfortável. Conor já precisou mandá-los recuar mais de uma vez quando tentaram me encurralar. Sei que eles ficam com mulheres aqui e ali, então provavelmente acham que eu também estaria “disponível”.
Não estou.
Encerramos o jantar e seguimos para o metrô. Moramos em direções diferentes, então nos despedimos rapidamente. Caminho mais três quarteirões até a estação que preciso pegar. O vento está brutal. Chapéu baixo, cachecol quase cobrindo o rosto, mãos enluvadas enfiadas nos bolsos.
Ainda é cedo o bastante para as calçadas estarem cheias. Desço os degraus da estação e sinto o alívio imediato de sair do vento — ainda que o frio continue cortante. Passo o cartão e desço para a plataforma.
Então percebo.
Três sombras.
Todos moram em Staten Island. Eu moro no Harlem. Eles não estão indo na direção certa para casa — nem para o trabalho.
Caminho ao longo da plataforma, tentando me afastar dois vagões do ponto onde estava. Não posso ir mais longe. Eles param exatamente na segunda porta do mesmo vagão em que eu entraria.
Quando o trem chega, avanço, observando os três entrarem… e, no último segundo, me movo para o lado quando as portas se fecham. Corro escada acima enquanto procuro meu telefone. Olho para trás. Eles estão no trem. Vejo os três pela janela.
Eu contei. Mais de uma vez.
— Oliver, para. Isso não tem graça.
Nem espero ele dizer “alô”.
— Do que você está falando?
— Tommy, Otávio e Alessandro. Você sabe que Otávio e Alessandro me deixam desconfortável. Faça eles pararem.
— Onde você está? Quão perto eles chegaram de você?
— Tentaram me seguir até o metrô. Parecia que iam entrar no mesmo vagão. As portas fecharam, mas eu saí correndo. Eles estão presos indo para o Harlem. Estou na rua agora. Estação da 50th com a 8th. Tem uma cafeteria na esquina da 49th com a 9th. Vou entrar lá até ter certeza de que não estão mais por perto. Depois vou para a casa dos meus pais.
— Não. Fica aí, pequena. Estou indo te buscar. Estou no East Side. Chego em minutos. Tenho motorista. Vou estar num carro preto. Fique na cafeteria até eu chegar. Entendeu?
— Sim.
— Estarei aí o mais rápido possível. Eu prometo.
— Eu sei.
Desligo e entro na cafeteria. Não está cheia, mas há gente suficiente para eu me misturar. Peço um chai e escolho uma mesa de onde consigo ver a porta e a vitrine — sem ficar perto demais.
Pode levar de quinze a trinta minutos. Não sei como está o trânsito, se há obras, nada. Dou um gole na bebida, ainda escaldante, quando vejo o carro parar do lado de fora.
Ele sai do banco de trás antes mesmo do veículo parar completamente, abotoando o paletó. Finn desce do banco do passageiro da frente. O motorista — um homem que não reconheço — abaixa o vidro.
E, pela primeira vez desd
Te que saí do metrô, consigo respirar de verdade.