Kate.
Eu o sinto antes de vê-lo.
É como uma mudança no ar, uma pressão diferente no peito, aquela consciência incômoda que meu corpo parece ter desenvolvido só para ele. Estou parada perto da calçada, fingindo olhar o celular, quando o som de um carro desacelerando atrás de mim faz minha espinha enrijecer.
Não preciso virar para saber.
Ainda assim, viro.
O carro é escuro, discreto demais para chamar atenção. A porta se abre e Oliver desce com a mesma calma perigosa de sempre, como se o mundo ao redor não tivesse permissão para tocá-lo. Finn fica no banco do motorista, atento, os olhos varrendo a rua.
Oliver fecha a porta com cuidado excessivo. Ajusta o casaco. E começa a caminhar na minha direção.
Meu coração bate errado.
Cada passo dele parece reduzir o espaço entre quem eu sou quando estou sozinha e quem eu me torno quando ele está perto. Ele não anda rápido. Não precisa. A confiança dele é sufocante — e, Deus me ajude, sexy demais para alguém que deveria ser apenas um erro do passado.
Quando ele para diante de mim, o mundo encolhe.
— Você demorou — digo, porque preciso dizer alguma coisa.
A boca dele se curva levemente, mas não chega a ser um sorriso.
— Eu quis ter certeza de que você fosse vista.
O tom é baixo. Controlado. A voz dele vibra em lugares do meu corpo que eu preferia não reconhecer.
— Ele está ali — murmuro, sem mover muito os lábios. — Meio quarteirão. Gorro preto.
Os olhos de Oliver não seguem na direção que indico. Ele não precisa. Já sabe.
— Eu sei.
Ele dá um passo para o lado, posicionando-se entre mim e a rua. Não me toca, mas a proximidade é quase física. Meu braço roça no dele, e o contato breve é suficiente para acender algo perigoso sob minha pele.
— Está com medo? — ele pergunta.
— Estou cansada — respondo. — É diferente.
Ele me estuda por um segundo a mais do que deveria. Como se estivesse tentando memorizar meu rosto sob aquela luz dura do poste.
— Vamos — diz por fim. — Sua casa é longe daqui.
Assinto e começo a andar ao lado dele. Finn acompanha devagar com o carro, mantendo distância suficiente para não chamar atenção.
Oliver não segura minha mão.
Mas caminha perto o bastante para que nossos ombros quase se toquem. A presença dele é constante, firme, um muro invisível entre mim e o resto do mundo. Cada vez que alguém passa por nós, sinto o corpo dele se ajustar imperceptivelmente, como se calculasse ameaças em tempo real.
— Você não precisava fazer isso — digo, quebrando o silêncio.
— Eu sei.
— Então por que fez?
Ele não responde de imediato. Apenas continua andando, os passos longos, seguros.
— Porque você pediu.
— Eu pedi ajuda, não… — faço um gesto vago. — Isso.
— Para mim é a mesma coisa.
Paramos na esquina. O homem de gorro surge novamente na minha visão periférica, mas diminui o ritmo ao notar Oliver. Não precisa ser um gênio para entender o recado.
Oliver vira levemente o rosto na direção dele. Não encara. Apenas deixa que seja visto.
O homem para. Depois atravessa a rua.
Meu estômago se revira.
— Ele vai voltar — digo.
— Talvez. — Oliver finalmente olha para mim. — Mas não hoje.
A casa dos meus pais está exatamente como sempre esteve. Imponente, bem cuidada, iluminada de dentro para fora como se nada de errado pudesse acontecer ali. Um farol de normalidade que nunca mudou — enquanto eu mudei completamente.
Paro diante do portão.
— É aqui.
Oliver também para. Por um instante, nenhum de nós diz nada. O silêncio é pesado de coisas não resolvidas, de palavras que não podem ser ditas sem causar danos irreversíveis.
— Você pode ir — digo, enfim. — Eu fico bem daqui.
Ele me encara como se eu tivesse acabado de sugerir algo absurdamente imprudente.
— Não.
— Oliver—
— Kate. — Ele baixa a voz. — Você entra. Eu fico.
Meu coração aperta.
— Não é necessário.
— Eu sei.
— Então vai embora.
— Não.
Há algo quase íntimo naquela recusa simples. Sem discussão. Sem explicação.
Dou um passo para trás, abrindo o portão.
— Só… não fique visível — digo. — Não quero explicar nada.
— Não vou sair do carro.
— Promete?
Ele hesita por meio segundo.
— Prometo.
Abro o portão e começo a subir os degraus. Sinto o olhar dele nas minhas costas como um toque quente, persistente. Paro diante da porta e, antes de entrar, me viro.
Oliver está parado perto do carro agora, uma mão apoiada no teto, o corpo meio inclinado. Observando.
Não como quem vigia.
Como quem espera.
Nossos olhares se encontram. O tempo desacelera.
Há tantas coisas ali — desejo, raiva, cuidado, perda. Tudo misturado de um jeito perigoso demais para ser ignorado.
Levanto a mão em um aceno curto.
Ele responde com um movimento quase imperceptível da cabeça.
Entro.
Fecho a porta.
Só quando estou do outro lado, segura e cercada por memórias, permito que o ar escape dos meus pulmões.
Espio pela janela da sala.
O carro ainda está lá.
Oliver ainda está lá.
Oliver: Bom.
Oliver: A luz do quarto acendeu.
Um arrepio percorre minha espinha.
Ele não está apenas esperando.
Ele está observando.
Não de um jeito invasivo.
De um jeito atento.
Como alguém que não baixa a guarda nem por um segundo.
Eu: Vai mesmo ficar aí?
Três pontinhos aparecem. Desaparecem. Voltam.
Oliver: Disse que ficaria meia hora.
Oliver: Ainda faltam vinte e dois minutos.
Fecho os olhos por um instante, sorrindo apesar de mim mesma.
Eu: Você não precisa. Ficar esperando.
Oliver: Eu sei.
E é isso.
Nenhuma justificativa.
Nenhuma promessa.
Nenhuma explicação.
Apenas uma certeza silenciosa.
Me deito na cama encarando o teto, sentindo um tipo novo de exaustão — não a física, mas a emocional. Aquela que vem quando você percebe que cruzou uma linha invisível e não sabe mais como voltar.
Nem se quer voltar.
E, por mais que eu saiba que isso só complica tudo, uma parte de mim relaxa pela primeira vez naquela noite.
Porque, por enquanto, alguém está vigiando a escuridão por mim.