— Albert, está em casa?
O som agudo da voz de mamãe ecoou no andar de baixo. Abri os olhos, ainda sonolento, havia passado uma hora desde que subi para tirar meu "cochilo", praguejei mentalmente, não daria tempo ir para a aula àquele dia mais. Levantei-me sentindo o corpo pesado e esperando que Geovana tivesse uma boa razão para não ter me acordado, encontrei mamãe na cozinha, não havia qualquer sinal da minha irmã no andar de baixo, contudo, em um primeiro momento, não achei nada estranho.
— Onde está sua irmã? — questionou com ar preocupado.
— Estava na sala quando cheguei, pedi aquela pestinha pra me chamar em dez minutos e ela acabou saindo sem nem me avisar — reclamei.
— Que estranho... até ontem ela não queria sair nem até o jardim. — Ficou pensativa por um momento. — Será que aconteceu alguma coisa?
— Não deve ter sido nada sério — tranquilizei-a. — Talvez Vic finalmente tenha vindo tirá-la de casa, sabe como Geovana não consegue negar nada a ela.
— Eu não acho isso, Albert. — Seu tom era sério. — Victória tem carro, não teria porque a Geovana pegar o seu.
— Meu carro? — Olhei-a, confuso.
— Sim, não estava na garagem quando cheguei.
— Vou encher aquela baixinha de cascudos quando aparecer!
— Ah, deixe de drama! — Riu. — Vá buscar o resto das compras, vou telefonar e ver onde ela está.
Saí até a frente de casa onde o carro estava estacionado, já havia anoitecido e o céu era um manto escuro salpicado com pontinhos prateados, a lua minguante sorria para nós e, ao longo da rua, janelas iluminadas contavam o aconchego familiar dos meus vizinhos. Desde a morte do meu pai, éramos apenas nós três e provamos que, ao contrário do que muitos pensam, a morte aproxima mais do que separa. O elo entre nós e nossa mãe havia se tornado mais forte, assim como o companheirismo entre Geovana e eu. Quando voltei para dentro com as quatro sacolas restantes, mamãe andava de um lado para o outro com o celular na mão.
— Ela não atende! — informou com voz trêmula.
— Calma, mãe, não vamos nos precipitar, tá bem? — Tentei acalmá-la. — Talvez o celular tenha ficado sem bateria, logo ela vai tá em casa, vamos esperar mais um pouco.
Anuiu. Não devia fazer mais de uma hora que ela havia saído, tentamos nos distrair guardando as compras e preparando o jantar, sempre na expectativa de Geovana cruzar a porta pedindo desculpas por ter saído sem avisar. Apenas quando os minutos se tornaram horas nosso coração começou a acelerar, já fazia cinco horas e seu celular caía direto na caixa postal, era um bom momento para até mesmo eu sucumbir ao desespero.
Ficamos incapazes de dormir durante toda a noite, as horas arrastaram-se até se tornar madrugada, e a madrugada, manhã. Geovana não voltou para casa, minha cabeça doía, mamãe estava a beira de um ataque de nervos, não fazíamos qualquer ideia de onde ela poderia estar e uma sensação r**m começava a tomar conta de mim.
Em determinado momento da manhã, precisei dar um calmante para mamãe, ela ligava desesperada para todos os amigos e conhecidos da minha irmã na busca desesperada de alguém que possa tê-la visto, sem sucesso. A única com quem ela não tinha conseguido falar era Victória, todos os demais amigos de Geovana disseram não tê-la visto desde o dia da festa de aniversário, ela parecia ter desaparecido no ar como em um show de mágica.
— Meu Deus, onde ela está? — Mamãe caiu sentada na poltrona, o telefone na mão e lágrimas caindo pelo seu rosto. — Vou ligar pra polícia.
— Não, mãe — impedi-a. — Ainda não deram vinte e quatro horas de desaparecimento, eles não vão ajudar. Eu vou até a casa da Vic, pode ser que ela saiba alguma coisa.
— Tudo bem, tem razão — suspirou. — Vou ver se esqueci de ligar pra alguém.
A casa de Victória ficava a apenas um quarteirão da nossa, ela e Geovana eram amigas desde a infância, Vic era minha última cartada para encontrar minha irmã, já que era sua melhor amiga, a pessoa para quem Geovana contava tudo. Sempre senti uma ponta de inveja da confiança sem reservas que a minha irmã depositava nela, mas tinha certeza que Vic a adorava e era apenas por isso que não dava razão a esse sentimento. Fui correndo até a casa dela e, por sorte, consegui alcança-la quando estava se preparando para sair, vestia uma minissaia preta com blusa social branca por dentro, os cabelos soltos, pronta para cair matando em qualquer festa.
— Albert! — Surpreendeu-se ao me ver. — Nossa, você tá bem?
— Na verdade não. — Respirei fundo, cansado, tentando tomar fôlego. — Você viu a Geovana?
— A Gê? Não, não a vejo desde a festa, por que, aconteceu alguma coisa? — Sua expressão preocupada me desmontou.
— A minha irmã sumiu, Vic — anunciei.
— Como assim sumiu? — inquiriu ela, confusa. — Ninguém some do nada, Al.
— Me faço a mesma pergunta desde ontem. — Resfoleguei. — Ela não voltou pra casa, não atende o celular, ninguém a viu! Ela saiu com meu carro e não tive notícias de nenhum dos dois até agora. Vamos dar queixa à polícia, não faz o menor sentido o que está acontecendo e no estado desgastado que ela estava...
— Meu Deus, Al, acha que ela pode...
— Não sei... — Interrompi-a sentindo um gelo subir pela espinha. — quero muito pensar que não.
— Olha, estou indo encontrar uma galera, vou ver se alguém tem alguma novidade, pode ser que alguém a tenha visto ontem. — Sua expressão era séria. — Se tiver qualquer notícia me avisa.
— Tudo bem, obrigado, Vic. — Agradeci-lhe sinceramente.
Ela acenou e entrou no carro desaparecendo no fim da rua. Fiquei ali parado pelo que pareceu um longo tempo, o coração agitado, a cabeça formando mil pensamentos e suposições a respeito do paradeiro da minha irmã, nenhum deles bom. Dei meia volta e comecei a caminhar de volta para casa, o corpo inteiro tremia, fiquei um pouco surpreso com a reação de Victória, quer dizer, o que a gente faz quando descobre que a melhor amiga desapareceu do nada? Imaginei que ela surtaria ou algo do tipo, contudo, Vic sempre foi conhecida por sua calma inabalável. Antes de entrar em casa, encostei-me na parede ao lado da porta e chorei por segundos que pareceram eternos.
∞Ж∞
— Quanto tempo faz que ela desapareceu?
O policial demonstrava uma calma exemplar com a minha mãe em um estado de nervos incontrolável, dois outros policiais andavam pelo quarto da minha irmã em busca de pistas que pudessem revelar seu paradeiro, aquele no comando fez várias perguntas e pegou o número e o nome de todos os amigos de Geovana. Aos prantos, minha mãe implorava para acharem minha irmã, a cena partia-me o coração.
— Completou 24 horas duas horas atrás quando ligamos para vocês — respondi.
— Quando foi a última vez que a viu? — Ele anotava cada palavra em um bloquinho.
— Às 17:30 de ontem, estava aqui fazendo esses rascunhos para a admissão na UCLA. — Apontei para os papéis sobre a mesa, ainda do jeito que Geovana havia deixado. — Checamos todos os amigos e familiares, mas ninguém a viu ontem.
— Disse que ela saiu usando o seu veículo. — Era uma afirmação. — Ainda não conseguiu localizá-lo?
— Não.
Pediu a placa e dei a ele a minha carteira de motorista, ele fez mais algumas perguntas e novas anotações antes de sair com os outros sob a promessa de procurar minha irmã, mas se havia algo que aprendi ao longo da vida foi que, num país onde milhares de pessoas desapareciam todos os dias, a frase "faremos o possível para encontra-la" era só uma formalidade vazia sem qualquer garantia de cumprimento real.
— Geovana, onde você está?! — Minha mãe gritou e me abaixei para segurá-la apertando-a contra mim. — Onde ela está, Albert?! Onde está nossa menina?!
Lutei contra as lágrimas, não podia chorar ali, só pioraria as coisas. Precisava ser forte, pela minha mãe.
— Nós vamos achá-la, mãe... — Prometi mesmo sem saber se era mesmo verdade. — Ela vai voltar pra nós.