BERNARDO
Avistei Brígida tão logo entrei no restaurante onde costumávamos comer na época da faculdade. Ela usava um vestido preto justo que ia até a altura dos joelhos, deixando claro o contorno das suas curvas voluptuosas, o decote era em V relativamente comportado embora salientasse os s***s fartos, os cabelos rubros caíam sobre os ombros em ondulações leves, ela alisava com as unhas compridas pintadas de vermelho. Os garçons não paravam de olhar suas pernas cruzadas ou seu pé sacudindo impaciente a sandália preta de tiras e salto alto, ainda me perguntava como ela conseguia se equilibrar em cima daquilo. Revirei os olhos me aproximando da mesa e ela abriu um largo sorriso com os lábios cheios cobertos por um batom coral e os olhos castanhos brilhantes. Os cabelos e o tecido preto acentuavam o tom dourado da sua pele amorenada, tomei meu assento diante dela e suspirei.
— Quantas vezes já disse para não se vestir como se quisesse m***r todos os homens do planeta ao mesmo tempo?
— Ciúmes, amor? — Brincou ela dando-me uma piscadela.
— Você vai acabar provocando ejaculações em massa aqui dentro se continuar se comportando desse jeito — censurei-a. — Se personificarem a luxúria um dia com certeza vai se parecer com você.
— Não me lisonjeie, Bê, não vai amenizar as coisas pro seu lado. — Sorriu. — O que acontece é que você não sai com uma mulher de verdade há meses, está pensando que é o homem de ferro, por acaso?
— Então você veio vestida desse jeito para me lembrar que eu ainda sou um homem? — provoquei.
— Talvez. — O sorriso dela era malicioso.
Brígida e eu já havíamos feito s**o sem compromisso algumas vezes. Ambos tínhamos ideias próprias sobre relacionamentos, ela tivera alguns namorados ao longo da vida, mas nenhum sério o bastante. Quando nos sentíamos solitários a ponto de enlouquecer, esporadicamente nos entregávamos à abençoada loucura do prazer. Vê-la naquele momento fez todas as terminações nervosas do meu corpo me lembrarem que ainda estava vivo.
— Bem, funcionou perfeitamente se era essa a intenção. — Peguei a taça de vinho que ela bebia e sorvi em um gole só. Ela soltou uma risada calorosa.
— Você é impossível, Bernardo! — Meneou a cabeça. — Deixou sua paciente aos cuidados de alguém?
— Pedi a Clark que ficasse de olho nela — suspirei. — Vou seguir o seu conselho e ir para casa um pouco.
— A comida da Gina agradece. — Sorriu. — E seu corpo também.
Um garçom veio até nós — visivelmente desapontado por me ver ali — querendo saber o que iríamos pedir, paramos de conversar por um momento enquanto ela analisava o cardápio, e ele analisava o corpo dela lançando olhares medidores na minha direção.
— Acho que ele não gostou de me ver aqui — falei em português, ela riu.
— Eu gostei, é o que importa. — Piscou, respondendo em um português muito mais fluente que o meu portuglês.
Fizemos nosso pedido e ele trouxe uma garrafa de vinho e outra taça enquanto nosso jantar não ficava pronto. Para provoca-lo ainda mais, Brígida se inclinou para frente, fazendo com que seus s***s ficassem ainda mais ressaltados, e tocou-me o queixo de maneira provocativa. Um suor frio se formou na minha nuca e praguejei mentalmente enquanto ela ria se divertindo do desconcerto do rapaz.
— Você é uma pessoa extremamente c***l, Bri — censurei-a no meu portuglês acanhado. — Talvez não leve os hormônios do rapaz em consideração, mas não esqueça que eu também tenho hormônios.
— Vou cuidar dos seus hormônios quando sairmos daqui, coração. — Piscou para mim provocativa.
Em certas ocasiões falávamos em português para ter a certeza que nossas conversas não seriam compreendidas. Brígida me ensinara o idioma pouco depois que nos conhecemos, para conversas com aquele tipo de conteúdo era muito oportuno. Eu compreendia bem a língua, falada e escrita, mas oralmente não era muito bom pela falta de prática, apesar de ser brasileira minha mãe nunca se incomodara em me ensinar português ou mesmo me falar sobre seu país; descobri todas as maravilhas e problemas que rondavam o Brasil através de Brígida, uma patriota nata, apaixonada por sua nação. Ela trabalhava nos Estados Unidos para mandar dinheiro para a mãe e os irmãos mais novos, o pai havia abandonado a casa quando ela tinha seis anos e a mãe a criara sozinha, eram de uma família humilde, conseguira chegar onde estava com muito esforço e dedicação, por isso a admirava tanto.
Contudo, ao contrário do meu português o**l quase em código, o inglês de Brígida tornara-se impecável, era tão fluente e natural que não se acreditaria não era seu idioma nativo. Além do inglês ela também falava espanhol muito bem e entendia um pouco de francês, enquanto eu havia estudado francês durante o ensino médio, assim como espanhol, mas não eram meu forte apesar de compreender razoavelmente.
— Mas então, não vai me contar sobre sua paciente misteriosa? — inquiriu, tomando outro gole do vinho.
— Por enquanto não, ainda não tenho nenhuma certeza para que possa passar alguma informação — respondi, evasivo. — Mas confie em mim, pelo bem de todos é melhor que ninguém saiba sobre ela.
— Você não está metido em nada ilegal, não é? — Seu olhar expressava preocupação.
— Espero que não. — Sorri. — Só quero ter certeza que ela não vai precisar enfrentar uma horda de pessoas curiosas assim que abrir os olhos, quero garantir que esteja recuperada quando precisar enfrentar seja lá o que ela vai precisar enfrentar.
— Tem alguma coisa incomodando você, Bê, eu sei. — Sua voz suave me fez erguer os olhos para seu rosto. — Senti desde o momento que você falou sobre ela no hospital. O que é? Sabe que pode confiar em mim.
— Eu não quero dar nenhuma informação falsa, Bri, só isso...
— Mas...
Suspirei, ela não ia desistir.
— Mas... eu acho que não foi um acidente — comentei baixinho. — Os ferimentos são claros e falam por si mesmos, alguém queria essa garota morta e por muito pouco não foi bem sucedido.
— Não estou gostando disso, Bernardo. — Seu rosto enrijeceu numa expressão séria, que não combinava nada com seu ar tipicamente jovial e descontraído.
— Muita gente não está — suspirei cansado, apertando a ponte do nariz com os dedos. — Mas eu assumi a responsabilidade por ela porque quis. Ninguém me obrigou e eu não sou mais nenhuma criança, vou lidar com as consequências quando elas aparecerem.
Ela ficou em silêncio por um momento. O garçon trouxe nosso pedido e colocou com uma atenção redobrada na mesa como que para aproveitar o tempo de olhar para ela, Brígida, por sua vez, estava absorta demais nas próprias preocupações para provoca-lo. Nós nos preocupávamos um com o outro como irmãos, nos adorávamos e convivíamos como bons amigos era uma relação sólida o bastante para sermos quase família, porém o sentimento fraterno era maior que qualquer inclinação mais profunda, por isso não tentamos sequer nos relacionar amorosamente, nossa primeira relação íntima aconteceu no casamento em Las Vegas, mesmo assim, apesar de não termos um afeto romântico, nos dávamos melhor que qualquer casal apaixonado dos dias de hoje.
— Então, está me dizendo que não sabe nada sobre ela. — Não era uma pergunta.
— Estou dizendo que não quero me precipitar. — Corrigi-a embora não estivesse errada.
Ela gemeu, abaixando a cabeça como se estivesse frustrada.
— Ah, está bem — disse por fim. — Sabe que vou apoiá-lo independente do que acontecer, só não se meta em nada que me faça ser deportada, okay?
— Negócio fechado. — Ri.
Saindo do restaurante, cumpri minha promessa a Brígida de ir para casa, mas não fui para a minha e sim a dela. Não tinha nada em mente, havíamos deixado para trás nossa amizade colorida e desfrutávamos apenas da companhia um do outro. Parte de mim tinha medo de voltar e encarar o silêncio do lugar onde vivia, ficar imerso nas preocupações com a garota misteriosa ou refletindo sobre as palavras ditas no restaurante. A inquietação da minha mente barulhenta começava a forçar minha sanidade, mas resistia em procurar ajuda. Minha amiga me serviu outra taça de vinho largando-se numa poltrona ao lado do sofá onde eu estava e me encarando com a mesma inquietação comum quando nos cercávamos de uma ausência de sons cheia de palavras.
— Sabe — começou quebrando o silêncio que nos envolvia — fico preocupada com você, Bê... fora a Gina, acho que sou a única mulher na sua vida.
— Há destinos piores que não se casar, Bri. — Dei uma risada baixa.
— Você sabe do que estou falando — acusou. — Você passa o dia salvando a vida das pessoas e deixa sua própria vida de lado. Um dia, temo que olhe pra trás e veja que é tarde demais pra começar a vivê-la.
— Eu queria me apaixonar por você — disse, por fim. — Seria tão mais fácil. Melhor.
— Nós dois sabemos que isso não vai acontecer, Bernardo... — Ela acariciou a taça com as mãos delicadas. — E mesmo que fosse o caso, duvido muito que sua mãe aprovasse.
— Você sabe que eu não dou a mínima para o que ela acha. — Tentei soar menos irritado do que realmente estava à menção da minha mãe. — Dona Raquel só controla a minha vida na cabeça dela.
— Ainda assim, não acredito que eu teria peito para desafiá-la. — Deu uma leve risada. — Somos amigos e ela me mete medo desse jeito, seria capaz de contratar assassinos se estivéssemos em um relacionamento sério.
— Acho que as novelas mexicanas estão afetando seu senso de realidade, Bri. — Brinquei, lembrando-me do vício completo dela pelas produções mexicanas. — Eu protegeria você.
— É disso que estou falando. — Ela ergueu o dedo na minha direção. — Você é o tipo perfeito de cara, bom, tirando sua teimosia e total obsessão pelo trabalho, qualquer garota seria a mais sortuda do planeta se conseguisse atravessar o deserto de gelo que existe entre o mundo e o seu coração. Devia dar uma chance a si mesmo, uma chance de ser feliz ao lado de alguém.
— Pode achar que não levo suas palavras em consideração, mas não é assim. — Fiz uma pausa, os olhos fixos na parede bege claro da sala de estar dela. — Penso nisso quase todos os dias, mas simplesmente não apareceu ainda a pessoa. Aquela que vai fazer com que tudo mais se torne dispensável porque a gravidade que me mantêm na terra é ela.
— Fala das minhas novelas mexicanas, mas acho que os clássicos ingleses estão destruindo o seu senso de realidade. — Deu uma risada leve. — Você está quase escrevendo um romance de Jane Austen, bebê. Procure uma mulher real, não uma Elizabeth Bennet.
— Eu sou casado com o hospital e você é a minha amante. — Sorri. — Desde que a esposa nunca descubra não preciso de mais nada.
Encarando-me com olhos estreitados, atirou a almofada em suas pernas na minha direção.
— Cínico.