10. Complicações (II)

1072 Palavras
Um mês depois... Nenhum sinal. Não havia o menor indício que ela poderia acordar, cada dia passado me tornava mais e mais temeroso de aquela desconhecida cair no lago da morte. Brígida continuava reclamando por eu ter pego 4 plantões desde o nosso último encontro, fazia isso para o meu próprio bem. Era a razão principal de não ter um relacionamento, nenhuma mulher entenderia meu trabalho a menos que trabalhasse comigo. Suspirei enquanto observava Geovana no leito da UTI especial, os ferimentos haviam cicatrizado bem, mas os níveis continuavam sem qualquer alteração, por experiência sabia não ser um bom sinal, se evoluísse para um coma persistente começaria a me desesperar. Pus a mão no bolso do jaleco e tirei a corrente, era uma peça única talvez feita sob encomenda numa joalheria, parecia ser folheada a ouro e, em letras cursivas segurando as duas partes da corrente fina, estava o nome Geovana. Havia tirado aquele colar do pescoço dela pouco antes da cirurgia, Alice o guardara, nossa única pista sobre quem ela era. — Quando você vai acordar, hein? — perguntei na esperança de que ela pudesse me ouvir. — Não sei se você está escutando, pacientes de coma são diferentes um do outro, mas quero acreditar que sim... tive uma paciente em coma uma vez, quando ainda era residente, ela era minha noiva, sabia? A lembrança me dominou, deixando minha voz carregada de angústia, aproximei-me do leito de Geovana e sentei-me ao lado dela numa cadeira próxima a cama, olhei para a mão delicada pendendo sobre o colchão e quase me rendi a vontade de segurá-la, mas me detive. — O nome dela era Vanessa — continuei, lutando contra as lágrimas —, a gente se conheceu quando me mudei da casa dos meus pais para fazer faculdade na Inglaterra, no começo éramos grudados um no outro... até que ela sofreu um acidente de carro e entrou em coma por dois meses, não consegui salvá-la mesmo tendo tentado com todos os recursos que tinha à minha disposição. Fiz uma pausa, lágrimas escorrendo pelo meu rosto quando me lembrava daquele episódio da minha vida, ninguém sabia daquela história, exceto Clark e Alice. — Depois disso, Geovana, fiquei meses sem conseguir retornar ao hospital, pensei que havia falhado na minha missão, comecei a enlouquecer... — Sequei as lágrimas com as costas da mão. — Prometi nunca mais perder um paciente de novo, é por isso que você tem que acordar... porque não sei se vou conseguir me levantar caso falhe com você também. A porta do quarto abriu e ergui-me depressa para disfarçar as emoções, suspirei fingindo mexer nos tubos e verificando se tudo estava ligado corretamente. — Bernardo? — A voz de Alice soou baixa. — Sim? — Virei-me e ofereci-lhe um sorriso. — Algum problema? — Clark quer que você o ajude em uma cirurgia na ala nove — anunciou. — Tudo bem? — Claro, vou agora — anuí. — Fique de olho nela, está bem? — Pode deixar! — garantiu. Saí do quarto antes de qualquer pergunta que não queria responder. Lembrar de Vanessa fez meus pensamentos ficarem um caos, não queria admitir, mas era verdade, a razão de todos os meus relacionamentos nunca terem dado certo, a razão por ser tão obcecado com o trabalho, era ela. A pessoa que não conseguia esquecer, que ainda governava o meu coração, o espelho do meu medo de perder qualquer paciente. ∞Ж∞ A cirurgia com Clark levou uma hora e meia, por bem pouco não perdemos o paciente para uma hemorragia que consegui parar com alguma dificuldade, ainda atordoado com as lembranças de Vanessa. Em geral, procurava sempre não pensar nela, como se tudo que aconteceu fosse apenas um pesadelo me assombrando durante a maior parte da vida, pode parecer covardia e até egoísmo, mas era meu jeito de lidar com a dor. — Você está bem? — Clark questionou enquanto nos lavávamos. — Parece disperso. — Estou... só um pouco preocupado. — Menti. — É aquela garota de novo? — Ele se virou para mim. — Ela piorou? — Não... tudo igual — suspirei. — Esse é o problema. — Não há nenhuma ocorrência de pessoa desaparecida? Nada? — Com um mês? A polícia já deve tê-la dado como morta a essa altura. — Como alguém sai de casa sem levar nenhum documento? — reclamou. — É o cúmulo da irracionalidade. — Ela pode não ter saído — disse depois de pensar por um momento. — Talvez ela tenha sido arrastada de casa, sequestrada e se livraram de tudo quando acharam que estava morta. — Já disse para leva-la à polícia — ddvertiu outra vez. — Claro, com sorte eles vão ter uma cela lá dentro que comporte a cama da UTI e todos os aparelhos — ironizei. — Ela é a vítima, Clark, quem a polícia tem que achar são as pessoas que fizeram isso com ela. — Como está tão certo que ela é a vítima? — Seu rosto tinha uma expressão furiosa. — Como pode estar tão certo que ela não é uma criminosa que foi executada por gente pior do que ela? — Não havia menção sobre ela em nenhum artigo policial, escaneamos o rosto dela e colocamos em um site de busca policial, não havia nada. — Como conseguiu acesso ao banco de dados da polícia? — Encarou-me intrigado. — O que não se consegue hoje com dinheiro? — respondi enojado. — Esse mundo está cada dia mais podre. Ele fez uma careta, mas não respondeu, nem precisava, sabia o que pensava a respeito. Clark era um homem cem por cento "ande na linha", às vezes era impossível acreditar que alguém como ele existia, não havia nada que ele já houvesse praticado desde o nascimento e burlasse alguma lei, já dissera a ele, certa vez, deveria ter sido juiz ou advogado, não médico. Quando saí do lavatório encontrei Alice afobada no corredor, tão eufórica que até mesmo respirava com dificuldade. — Alice? — Ela acordou! — anunciou, puxando-me pelo pulso. — Pouco depois que você entrou na cirurgia, ela abriu os olhos! — Como assim, Alice, tem certeza que não é apenas um reflexo? Já aconteceu com outros pacientes nesse estado. — Claro que não, Bernardo, você me conhece! — ralhou. — Ela está piscando! E eu a deixei sob os cuidados de outro enfermeiro porque não podia chamar nenhum médico. Então apresse-se!
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