Quase corremos pelo corredor e mesmo o elevador parecia levar eras para chegar ao andar certo, a ansiedade me devorava por dentro assim como o entusiasmo incontrolável, ela estava viva! m*l podia crer nisso. Acenei para alguns médicos e enfermeiras no corredor enquanto tentávamos caminhar com naturalidade até o quarto da área VIP, apenas pessoal autorizado podia acessar aquela área do hospital, por esse motivo a colocara ali, quanto menos pessoas soubessem mais seguro seria. Abri a porta do quarto usando meu cartão de identificação e paralisei quando seus olhos azul-acinzentados viraram-se na minha direção, ela parecia assustada, de modo que afundou na cama como se pudesse se esconder, olhei para Alice e pedi cautela sem falar nada, ela assentiu entendendo.
Devagar, aproximamo-nos da cama, Geovana mantinha os olhos assustados fixos em cada movimento nosso, as mãos trêmulas e a face lívida, mesmo não sendo um bom momento, percebi como ela era bonita mesmo com aquela aparência tão débil.
— Olá — comecei com toda calma. — Eu sou o doutor Persson. Você consegue falar?
Não respondeu, lágrimas começaram a encher seus olhos, ela tremia, parecia muito assustada olhando em volta e para nós.
— Está tudo bem — disse Alice aproximando-se dela. — Você está segura.
— Alice — disse em tom de sussurro. — Chame a doutora Swan.
Ela assentiu e desapareceu pela porta. Permaneci quieto observando a jovem, preparado para sedá-la se fosse necessário, ela parecia estar a beira de um ataque de nervos. Não entendia quase nada de neurologia ou psicologia, considerava-me muito competente na minha área de atuação, mas reconhecia aquilo que não dominava e aquelas áreas não eram minha especialidade. Emily Swan entrou na sala e não me lançou mais de um breve olhar, era a psicóloga da nossa equipe médica, chegara mais ou menos dois anos após o funcionamento do hospital estar regularizado. Avaliou a jovem, silenciosa, por um breve momento antes de sentar ao lado dela no leito e segurar-lhe a mão com delicadeza.
— Oi — cumprimentou dando-lhe um sorriso singelo — sou a doutora Swan, sei que deve estar assustada, mas está tudo bem com sua saúde agora, você vai se recuperar, porém precisamos fazer algumas perguntas pra conseguir te ajudar, acha que consegue falar com a gente?
Ela lançou um olhar fixo para o rosto de Emily por longo tempo e depois, para meu alívio e surpresa, piscou os olhos ainda assustados, mas um pouco mais brandos, que não desgrudava do rosto da psicóloga. Um fio de esperança cresceu no meu peito, precisava que ela falasse de onde veio. Emily continuou sorrindo, encorajando-a.
— Certo, muito bem, pode me dizer o seu nome? — A voz suave sempre baixa e transparecendo calma.
— Eu... eu não sei... — balbuciou, desespero crescendo em seu rosto e voz. — Não sei quem eu sou. Não me lembro de nada...
Pânico se espalhou por mim. Alice me lançou um olhar surpreso e devolvi com a mesma perplexidade, tateando o bolso do jaleco, segurei o colar encontrado no pescoço dela e entreguei-o discretamente a Emily, o nome escrito nele poderia ajuda-la a se lembrar. Vi quando o observou sem mostrá-lo para a jovem em um primeiro momento, lágrimas brotavam dos olhos azuis acinzentados dela e aquilo começava a me causar um estranho incômodo.
— Tudo bem, não precisa se apavorar — tranquilizou Emily —, já esperávamos que algo assim pudesse acontecer, você ficou em coma por um mês, é comum que aconteça, mas todos nós estamos aqui pra cuidar de você.
A jovem olhou para ela outra vez, era incrível como parecia conseguir confiar em Emily mesmo sem nunca tê-la visto, psicólogos eram quase mágicos, pensei.
— O nome Geovana é familiar pra você? Sente algo ao ouvi-lo? — Insistiu sem pressioná-la.
A garota pensou por um momento e, para meu desespero, ficou em um silêncio aterrador. Fechei os olhos sentindo a cabeça pesar, aquilo seria complicado. Lancei um olhar desesperado para Emily desejando que ela conseguisse algum milagre. A suposta Geovana continuava olhando fixamente para ela, o que parecia ser bom porque ela mantinha a calma, ao contrário do resto de nós no quarto envoltos em ansiedade.
— Não... é o meu nome? — A voz quase não saiu, tão baixa soou. — Que lugar é esse? Onde eu tô? Por que não consigo me lembrar de nada? O que houve comigo?
O desespero crescente na voz dela começou a me alarmar também. Ela não lembrava nada. Aquele tipo de complicação, embora não incomum, era a última coisa de que precisava. Emily apertou a mão dela e levou a outra ao seu ombro confortando-a, apertei a ponte do nariz, o desespero me dominando.
— Todas as suas perguntas serão respondidas no devido tempo, então mantenha-se calma tudo bem? — A voz de Emily era apaziguadora, Alice foi para o lado do leito e preparou tudo. — Você está se recuperando e não queremos que se desespere. O doutor Persson pode dar maiores informações sobre seu quadro clínico, mas a questão é que você ficou um mês em coma, estamos muito felizes que tenha acordado e estamos aqui pra cuidar de você.
A garota começava a ficar em um estado perigoso de agitação. Emily ergueu o colar diante dela colocando-o na sua mão, a jovem olhou para a joia por um tempo sem que aquilo lhe trouxesse qualquer mudança na expressão além da confusão já formada.
— Esse colar estava com você, Geovana é o nome que está nele, não soubemos se é seu, mas ele estava com você por algum motivo, o que significa que você é alguém etem uma história, vamos descobrir juntas sua história, tudo bem? — O sorriso de Emily, tenho de admitir, seria capaz de parar uma guerra. — Você terá suas antigas memórias e construirá novas, que é tão importante quanto ter suas antigas de volta.
Fiz um sinal para Alice e ela injetou o sedativo no soro. A jovem ainda ficou alterada por um tempo olhando para Emily, o rosto contorcido por uma expressão de pavor e desespero, até, por fim, adormecer. Emily levantou, suspirndo.
— Obrigado por ter vindo — murmurei. — Acha que ela vai se adaptar? Parece ter medo de nós? Você pode ajudá-la?
— O que temos que ter em mente é que ela acordou após um mês em coma sem se lembrar de nada, nem dela mesma, qualquer um pode ser amigo, mas também qualquer um pode ser inimigo — explicou, mantendo uma calma difícil de acreditar. — Sejam claros com ela, expliquem o que puderem explicar, já que ela não entende o que aconteceu, ela tem que pelo menos entender o que está acontecendo de agora em diante. Deixe que ela entre em contato com ela mesma aos poucos, se olhe no espelho, entre em contato com os pertences dela, como roupas, mas só se estiverem em condições, não queremos outro choque.
— Isso vai ser complicado! — suspirei, frustrado. — Vou pedir alguns exames neurológicos, mas não temos nada sobre ela, documentos, fotos, nada. Tudo que encontreifoi esse colar, como tenho que agir se ela entrar em choque de novo? Se tiver um ataque de nervos? Por Deus, Emily, eu não entendo nada da cabeça dos pacientes, eu cuido dos outros órgãos.
Ela riu. Naquele momento estava quase arrancando meus cabelos com o tamanho do problema que tinha nas mãos e lá estava ela dando aquela risada adorável que a fazia ficar ainda mais jovem. Emily Swan devia ter em torno dos trinta anos, era morena com uma pele cor de canela lhe conferindo um ar altamente sensual, mesmo vestida naquele jaleco com os cabelos castanhos presos em um r**o de cavalo, os olhos negros expressavam uma calma capaz de amansar até o louco mais nervoso. Era mais baixa que eu apenas alguns centímetros igualados pelos saltos que sempre usava.
— Tenta fazê-la respirar fundo e devagar, ofereça água, fale calmamente, transpasse sua calma pra ela — orientou —, se não resolver, aplique um daqueles seus "sossega leão".
Dessa vez fui eu a rir. Apesar de todo o caos, estava tranquilo por Emily estar ali, provavelmente teria entrado em pânico, mulheres chorando não eram minha especialidade. Alice parecia preocupada enquanto media a pressão da paciente. Olhei para Emily outra vez, parecia tranquila.
— Na sua visão, é uma perda momentânea? — inquiri. Não havia como deixar de ficar inquieto com o fato.
— Apenas um exame neurológico pode responder com certeza, não sabemos se há realmente um dano cerebral, mas não é tão incomum perdas de memórias parcial ou total temporária em casos como o dela, até que se prove o contrário, vamos pensar positivo. — Sorriu como que encorajando-me e senti-me um pouco mais confiante.
— Confesso que é um alento ter você na nossa equipe médica. A essa altura eu teria sentado e chorado com ela. — Confessei, rindo apesar da gravidade da situação. — Vou conversar com Stuart sobre os exames, neurologia não é minha área, assim como psicologia. Obrigado, Emily. Sabe que vou gritar por você de novo a qualquer momento, não é?
Lancei-lhe um olhar suplicante, ela apenas assentiu dando um daqueles sorrisos gentis parecendo que o mundo inteiro era um lugar pacífico e cheio de paz.
— Estou aqui pra isso, somos uma equipe, não é mesmo? Mas saiba que quando precisar vou recorrer a você também. — Sua voz tinha um tom de brincadeira, senti-me aliviado por ela não fazer perguntas.
— Dada a minha área, desejo que nunca precise. — sssenti dando uma risada nervosa. — Só tente manter seus ossos no lugar.
— Pode deixar. — Virou-se lançando um último olhar para a paciente.
— Ah, Emily...
— Não se preocupe — Anteveio como se soubesse o que ia pedir. — Não direi uma só palavra, me avise se ela piorar.
Anuí e ela sorriu de novo saindo do quarto. Sim, psicólogos são seres mágicos. Alice lançou-me um olhar preocupado vindo para mais perto enquanto eu olhava para a paciente misteriosa, como aquilo se tornou tão grave daquele jeito?
— O que vamos fazer, Bernardo? — inquiriu.
— Eu não sei, Alice. — Respondi com sinceridade, sentindo-me impotente e assustado. — Juro que não sei.