14. Perdida (II)

1015 Palavras
Não sei quanto tempo se passou. Podem ter sido horas, dias... tudo dentro daquele quarto era indizível. Conforme minha consciência oscilava entre o torpor e a realidade, mais tarde viria a descobrir que estava sendo mantida sedada enquanto era tratada, pois ficar nervosa não ajudava nada no progresso, de certa forma agradecia isso, dormir e fugir da realidade era uma benção para mim. Acordava envolvida por uma névoa de confusão, parte de mim não queria mais estar consciente, era mais confortável dormir, apenas dormir e esquecer a realidade assustadora na qual estava presa. Meus sonhos eram confusos, sempre a mesma sucessão de imagens desconexas que pareciam não fazer qualquer sentido. Perguntava-me se as coisas poderiam ficar piores e as possibilidades de resposta me assustavam ainda mais. Os últimos anos da minha vida haviam desaparecido, não sabia meu nome, de onde vinha, minha família, nada, era a coisa mais aterradora do mundo. Geovana... poderia mesmo ser o meu nome? Talvez, não usaria um colar com aquele nome por acaso, contudo, mesmo se fosse meu nome, não me passava qualquer tipo de sensação. Não respondia quem eu era, onde morava e muito menos o que iria fazer quando saísse daquele lugar. Outra vez, meu corpo se recusou a permanecer rendido ao anestésico e abri os olhos para a realidade de incertezas. A mesma enfermeira de antes, Alice, me lembrava, estava no quarto. Ela me lançou um olhar cauteloso e sorriu, aproximando-se da cama, agora podia observá-la com mais nitidez, não parecia ser muito alta, era morena e tinha cabelos lisos na altura dos ombros, olhos castanho-claros de uma docilidade nítida. O sorriso era lindo, uma das presas era mais alta que a outra, mas aquilo apenas aumentava seu charme. — Bom dia, Geovana! — Sua voz soava tranquila e levemente grave. — Meu nome é Alice, lembra? — Sim... enfermeira — respondi baixinho, a garganta seca. — Como se sente? Era uma pergunta difícil de responder. — Minha cabeça — disse, fechando os olhos por um instante. — Dói muito. — É normal pelo tempo que passou dormindo e pela pancada f**a que levou. — Sorriu. — Já consegue mexer alguma coisa? Tente erguer o braço. Tentei, mas cada um parecia pesar uma tonelada. Era como se meus músculos tivessem perdido toda a mobilidade, não conseguia me mexer e minha respiração começou a sair de linha, o monitor cardíaco passou a apitar mais depressa e Alice se aproximou segurando minha mão. — Tudo bem, não se altere. — Tranquilizou-me. — É normal, não tem nada errado com você, passou um mês e algumas semanas sem se movimentar. — Eu vou voltar... — Vai sim. — adiantou a resposta a minha pergunta. — O doutor Persson vai te examinar e nós vamos te encaminhar pra fisioterapia, está bem? — Tá... Ela analisou meu prontuário e checava os aparelhos quando o médico entrou no quarto, analisei seu porte notável, ele tinha cabelos espessos de um castanho muito escuro, era lisos e tinham um caimento muito bom no seu rosto anguloso com uma pele impecável. Era magro, ao contrário de homens que passam horas na academia, me dizia ficar muito tempo trabalhando, contudo, os braços sob o jaleco não faziam o tipo frágil. Os olhos eram castanhos puxados para o escuro, mas não muito, eram doces e travessos, expressavam tranquilidade e preocupação, o rosto como um todo parecia ter sido esculpido por um artista, cílios longos e sobrancelhas não muito espessas, ele era, percebia agora, a visão de um anjo em meio ao inferno. — Bom dia, Geovana — cumprimentou-me. — Bom dia... — minha voz quase não saía. — doutor... Persson. — Doutor. — Fez uma careta e Alice riu. — Essa palavra sempre faz eu me sentir um velho, me chame de Bernardo, tá bom? Olhando para ele por um momento, o temor sentido na primeira vez que o vi foi amainando aos poucos, sendo subjugada por outra inominável, mas ainda mais intensa. Ele não parecia ser um inimigo ou representar um perigo, em especial porque, bem, graças a ele eu estava viva, então se pensasse daquela maneira fazia todo o sentido não teme-lo. Ele se aproximou do leito e tocou minha mão, nesse momento o bipe do aparelho ao meu lado esquerdo acelerou, Alice deu a volta no leito e checou, Bernardo virou minha mão e colocou dois dedos no meu pulso. — Você está se sentindo ansiosa, querida? — Quis saber Alice, a voz gentil com um leve toque de apreensão. — Seu coração está um pouco rápido aqui. — Eu... — Vi-me incapaz de falar, queria puxar minha mão da dele, mas não conseguia mexer o braço. — Eu? — Alice, pegue o esfigmomanômetro[1], por favor — pediu, tirando o estetoscópio do pescoço e colocando as olivas nos ouvidos. Se em algum momento tive dúvidas sobre ele ser um médico de verdade, elas desapareceram naquele momento, nenhuma pessoa normal usaria um palavrão daqueles. Alice pôs a faixa do aparelho no meu braço e Bernardo pressionou a membrana colocando o dedo sobre a campana enquanto media a pressão sem o uso do aparelho cardíaco. Ele não olhava para mim o que ajudava, contudo, não conseguia não me sentir estranhamente sem ar. — Humm, a pressão está normal — disse passando o aparelho para Alice. — Está sentindo alguma coisa? — Não... — Menti. — Só... eu... O que havia dado em mim? De repente perdi a fala? Só conseguia ficar olhando para ele como se estivesse tendo a visão de algo extraordinário e anormal. Para minha sorte, antes de poder formular alguma frase racional, uma emergência surgiu e me vi aliviada quando ele se desculpou e me deixou aos cuidados da enfermeira, um suspiro de alívio escapou quando a porta do quarto se fechou e pude me sentir tranquila. Não sabia a razão, mas algo naquele homem me causava uma sensação forte de apreensão. — Você está bem, Geovana? — Perguntou e me encolhi à menção do nome estranho. — Não sei... sinceramente não sei. [1] Aparelho usado para medir a pressão arterial.
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