Aos poucos, abri os olhos. Estava com os músculos comprometidos e não conseguia me mexer. Não podia falar num primeiro momento tão seca sentia minha garganta, olhei em volta, assustada, sem reconhecer nada à minha volta, o corpo paralisado e a mente atordoada, meu coração batia em tal velocidade que a pulsação ecoava nos meus ouvidos como tambores. Estar lúcida se sentindo morrer é uma experiência inexprimível. Aterrorizante. O ambiente do quarto parecia um universo paralelo, não dava para saber se era dia ou noite. Só conseguia abrir e fechar os olhos num primeiro instante e não havia ninguém comigo. O barulho irritante do monitor cardíaco começou a acelerar marcando minha ansiedade, a visão ficou turva, então ouvi um som, era nítido mesmo sob o ruído da minha pulsação alta, alguém havia entrado no quarto.
Não recordava do rosto daquela mulher, apesar de ele não parecer desconhecido à primeira vista. Ela me lançou um olhar assustado e se aproximou fazendo movimentos diante dos meus olhos para checar meus reflexos.
— Consegue me ouvir? — questionou, mas não consegui responder. — Pisque se estiver ouvindo.
Senti meus olhos arregalarem, mas pisquei uma vez. Ela pareceu ir do choque ao alívio e saiu do quarto correndo, sendo substituída por outra mulher. Esta não fez perguntas, apenas tocou em algumas partes do meu corpo e pediu que piscasse se estivesse sentindo, era tudo muito confuso e perturbador, comecei a sentir outra onda de ansiedade e nervosismo me consumindo por dentro, nublando qualquer outro sentimento de pacificidade. Fechei os olhos tentando evocar qualquer pista do lugar onde estava, era um hospital, mas um hospital em que lugar? Minha mente parecia um papel em branco, não conseguia me lembrar de absolutamente nada até aquele momento e aquela realidade aterradora fez meu coração se contrair, queria me encolher, afundar naquela cama, mas não conseguia mover um único músculo. A mulher saiu do quarto e fiquei sozinha pelo que pareceu um tempo demasiado longo.
O teto de gesso era tudo que meus olhos alcançavam, a iluminação vinha de uma lâmpada um pouco a frente, o gesso era dividido em quadrados largos cujas bordas eram linhas finas parecendo ter sido trabalhadas à mão. Então o som outra vez, agora identificava como o da porta de correr se abrindo, a mulher de antes voltou ao meu campo de visão, dessa vez acompanhada de um homem que me olhava com atenção redobrada, pavor percorreu meu corpo, lágrimas arderam nos meus olhos, passando de um para outro, incapaz de reconhecê-los, já os havia visto? Tinha a sensação que sim.
— Olá —cumprimentou com cautela. — Eu sou o doutor Persson. Você consegue falar?
Não respondi. As lágrimas começaram a cair, meu corpo tremia mesmo apesar de não conseguir mexê-lo.
— Está tudo bem — disse a mulher em tom apaziguador —, você está segura.
— Alice — disse o doutor Persson num sussurro. — Chame a doutora Swan.
A mulher assentiu e desapareceu do meu campo de visão, o doutor Persson se afastou como se dissesse com gestos que não queria me assustar, senti meu peito subir e descer rapidamente, suor frio escorria pelo meu rosto enquanto tentava fazer meus músculos responderem.
— Não se esforce assim — pediu, parecia perturbado, embora sua voz soasse mais aflita que qualquer coisa. — Você passou muito tempo imóvel, é normal que seus músculos estejam comprometidos, tente manter a calma, por favor.
Ouvi a porta novamente, Alice havia voltado com outra mulher, esta era morena com um tom de pele cor de canela, vestia um jaleco e os cabelos castanhos estavam presos em um r**o de cavalo com ondas feitas com um babyliss, os olhos negros expressavam uma calma que parecia penetrar pela minha pele. Tinha um sorriso caloroso, exalava tranquilidade e, com cuidado, sentou-se ao meu lado segurando minha mão, não olhou para ninguém além de mim.
— Oi — cumprimentou-me com um sorriso singelo — sou a doutora Swan, sei que deve estar assustada, mas está tudo bem com sua saúde agora, você vai se recuperar, mas precisamos fazer algumas perguntas pra conseguir te ajudar, acha que consegue falar com a gente?
Pisquei para assentir, sua expressão iluminou-se nesse instante, ela pareceu encorajada por isso e apertou minha mão em resposta, Alice me ofereceu um pouco de água que bebi com ajuda, minhas cordas vocais pareciam ressecadas como se nunca tivessem sido usadas, não entendia nada do que estava acontecendo e não me atrevia a tirar os olhos da doutora Swan, se o fizesse entraria em pânico de novo.
— Certo, muito bem — continuou— pode me dizer o seu nome?
Ali estava. Eles também não sabiam quem eu era. Desesperada, tentei buscar na minha mente outra vez qualquer sinal do que havia acontecido, mas a dor na cabeça só parecia aumentar, lágrimas escorriam pelo meu rosto, angústia assolava meu peito e tudo a minha volta parecia um pesadelo.
— Eu... — minha voz quase não saía, como se de repente tivesse desaprendido a falar — eu não sei. Não me lembro... não sei quem eu sou. Não me lembro de nada...
— Tudo bem, não precisa se apavorar — A voz dela era calma, apaziguadora —, já esperávamos que algo assim pudesse acontecer, você ficou em coma por um mês, é comum que aconteça, mas todos nós estamos aqui pra cuidar de você.
Coma?! Como assim? O que havia acontecido comigo? Fechei os olhos, tentei evocar qualquer pensamento, lembrei-me de algo singular, o quarto, eu já o havia visto, já acordara antes. Aquela mulher, Alice, ela esteve comigo, “Levante os dedos” disse para medir o quanto doía. E o médico, ele estava lá, era um hospital, mas onde? Quem eram aquelas pessoas? O que aconteceu comigo? Tudo que conseguia me lembrar eram pequenos flashes daquele quarto de hospital enquanto minha consciência oscilava, havia muita dor em especial na cabeça, tudo era uma confusão sem qualquer nexo.
— O nome Geovana é familiar pra você? Sente algo ao ouvi-lo? — Quis saber ela, a voz continuava tranquila.
Geovana? Soava como algo italiano, mas não era familiar. Não sentia nada ao ouvi-lo.
— Não... é o meu nome? — Quase não conseguia ouvir minha própria voz, ainda assim, sentia-a soar trêmula. — Que lugar é esse? Onde eu tô? Por que não consigo me lembrar de nada? O que houve comigo?
Eu atropelava as perguntas que soavam como murmúrios naquela voz áspera, os lábios grudando um no outro, a dor na cabeça se intensificando de novo, batimentos acelerados e a onda de desespero me engolindo. Quem eram aquelas pessoas? Quem era eu?!
— Todas as suas perguntas serão respondidas no devido tempo, então mantenha-se calma tudo bem? — Alice veio para meu lado me oferecendo um olhar compassivo, Emily apertou de leve minha mão, não conseguia movê-la, mas sentia seu toque. — Você está se recuperando e não queremos que se desespere. O doutor Persson pode dar maiores informações sobre seu quadro clínico, mas a questão é que você ficou um mês em coma, estamos muito felizes que tenha acordado e estamos aqui pra cuidar de você, tudo bem?
Mil perguntas voavam na minha mente. Um mês. Eu havia ficado um mês semimorta. O que havia acontecido comigo? Como cheguei àquele lugar? Emily ergueu uma espécie de colar diante de mim, era uma corrente fina e prateada em cujas pontas estava preso o nome Geovana em letras cursivas e elaboradas, na ponta do último a havia uma estrela, fiquei olhando para a peça, mas não parecia familiar. Não me recordava nada.
— Esse colar estava com você, Geovana é o nome que está nele, não sabemos se é seu, mas ele estava com você por algum motivo, isso significa que você é alguém e tem uma história, vamos descobrir sua história, tudo bem? — O sorriso de Emily era pacífico e encorajador, mas nem mesmo ele conseguia amansar a fera revolta do meu desespero — Você terá suas antigas memórias e construirá novas; que é tão importante quanto ter as antigas de volta.
— Por favor — implorei — alguém aqui me conhece? Ninguém sabe quem eu sou? O que houve comigo?
— Shh... calma, querida. — Ela acariciou minha mão. — Vai ficar tudo bem, mas você precisa manter a calma.
Logo a letargia me atingiu. Meu corpo foi ficando mais e mais pesado até finalmente as sombras me engolirem para longe do medo e da dor.