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Virginia.
Primeiro, prepara-se o café. Forte. Amargo. Fumegante.
Aquele tipo de café que te desperta num pulo, sem deixar espaço para devaneios.
O chocolate amargo é picado finamente, sem cerimônia, porque não há tempo para delicadezas. É derretido com manteiga até se tornar uma mistura escura e opaca, como um pano de fundo que sempre esteve ali, mas que ninguém queria encarar.
Os ovos são batidos com açúcar até engrossarem, mas a leveza não é o objetivo. Corpo. Peso. Algo que sustente uma verdade que é grande demais.
O café é adicionado lentamente, manchando tudo. Não se integra completamente.
Deixa riscos, sombras líquidas que percorrem a massa como memórias que retornam sem aviso.
A farinha cai como uma chuva pesada, sufocando qualquer tentativa de contato com o ar. Este não é um bolo fofo. É um bolo que absorve. Que retém a umidade. Que não resseca porque não pode.
A massa é despejada na forma e alisada levemente com mãos cansadas.
A perfeição não importa. O que importa é que não derrame.
A porta do forno fecha e o calor faz o seu trabalho: escurece, compacta, afirma. Não há explosão. Apenas um cozimento lento que deixa tudo mais denso do que antes.
Quando sai do forno, o bolo parece inteiro, firme, estável. Mas quando você o corta, a massa está úmida, escura, quase lacrimejante.
Cada mordida tem gosto primeiro de cacau, depois de café e, finalmente, de algo que nunca foi dito quando deveria ter sido.
Não é uma sobremesa para celebrar. É para se agarrar quando toda a doçura se esvai e tudo o que resta é respirar em meio a lágrimas quentes e verdades frias.
O escritório de Lorenzo cheira a madeira escura e algo metálico, frio. Poder, penso. Tudo nesta casa foi projetado para me lembrar que nada é como eu pensava.
Ele está atrás da mesa quando entro. Olha para cima imediatamente, como se estivesse me esperando.
— Preciso falar com você. A minha voz não treme. Pelo menos não por fora.
— Diga-me. Ele responde. Sei que está tentando manter a calma.
Respiro fundo.
— Preciso de tempo. Para processar tudo...
— Quanto tempo exatamente? Ele pergunta suavemente.
— Não sei, eu... Suspiro, passando a mão pelos cabelos. — Não sei o que fazer, Lorenzo. Você me pede para ficar, diz que vai me proteger, mas... sinto que nada é como antes. Que estou em perigo e que... Faço uma pausa. — … que não quero ficar.
Ele fecha os olhos por um instante, como se eu o tivesse atingido.
— Pelo menos uma semana. Engulo em seco.
Ele fica em silêncio. Seus dedos se tensionam sobre a superfície da mesa.
— Uma semana. Repito. — Para pensar no que quero fazer.
Ele se levanta lentamente. O movimento me deixa em alerta, mesmo que eu não consiga impedi-lo. Ele se aproxima, o olhar profundo, e o meu corpo reage antes da minha mente.
— Não me machuque. Digo, dando um passo para trás.
A ferida no seu rosto é imediata. Ele para.
— Eu jamais faria isso. Diz ele, com a voz embargada. — Jamais.
Ele engole em seco.
— Por favor, Virginia... Você realmente acha que sou capaz de te machucar? Ele dá um passo para trás, agarrando o peito. — Sempre fui assim, mesmo antes de você saber. Sim, eu fiz coisas imperdoáveis, sim, posso ser um can(alha na maior parte do tempo. Mas com você, sempre foi diferente, e não vai mudar.
Respiro fundo. Odeio como o meu corpo reage às suas palavras. Odeio que uma pequena parte de mim, a parte mais selvagem e ousada, o ache ainda mais atraente agora que descobri que ele é um monstro. — Eu não quero que você vá embora. Ele continua. — Não sei por quê, mas… eu me importo demais com você.
Sinto o peso dessas palavras no meu peito.
— Se você realmente se importa comigo. Respondo. — Você vai me deixar ir se for essa a minha decisão.
Nos encaramos por um longo segundo. Vejo a luta nos seus olhos. O homem que controla cidades inteiras, incapaz de se controlar.
Finalmente, ele acena com a cabeça.
— Tudo bem.
Ele dá um passo para trás. Depois outro.
— Se no final da semana você decidir que quer ir embora, eu lhe fornecerei um avião particular.
Assinto com a cabeça, percebendo que nem eu sei o que quero.
O meu lado racional grita para eu fugir antes que eu me torne dano colateral, antes que tudo desmorone sobre mim. O meu lado apaixonado, no entanto, o procura com a mesma intensidade do primeiro dia.
Saio do escritório com um nó na garganta que me dificulta respirar.
Os dias seguintes se dissolvem numa névoa densa. Choro no chuveiro. Choro na cama. Choro encarando o teto de um quarto que já não me parece mais meu.
Lorenzo cumpre a sua palavra. Ele não me procura. Não me liga. Não aparece.
Isso dói mais do que eu gostaria de admitir.
No quarto dia, não aguento mais.
Não consigo carregar esse fardo por mais tempo, não consigo ligar para o meu pai todos os dias como se tudo estivesse bem. Sinto-me culpada por minhas próprias decisões arriscadas e imaturidade terem me levado a esse ponto.
Estou com medo, medo por mim, mas principalmente pela minha mãe.
Porque eu posso fugir, se Lorenzo estiver mesmo falando a verdade. Posso me refugiar com meu pai. Mas e a Nara? Ela é casada com esse homem. Para ela, escapar não será tão fácil.
Não posso esconder isso dela, não posso mentir para ela sobre algo tão sério e fingir que está tudo bem.
Disco o número da minha mãe com os dedos dormentes.
Subconscientemente, sinto que estou traindo Lorenzo. Mas o que posso fazer? É minha mãe e, apesar das nossas diferenças, estou preocupada com a segurança dela.
Sempre foi assim; sempre houve uma parte de mim que não desprezava completamente a minha mãe. Uma parte ingênua e to*la que acreditava que poderíamos nos conectar de alguma forma.
— Virginia! Nara responde no seu tom leve de sempre, como se nada estivesse errado. — Está tudo bem, querida?
Fecho os olhos, cobrindo a boca para abafar um soluço.
— Virginia, o que foi? Você está chorando?
Não consigo responder; estou me afogando em lágrimas.
— Desculpe, mãe... Desculpe...
— Querida, você está me assustando... A sua voz fica tensa. — Fale comigo, por favor.
— Lorenzo, seu marido, ele... Eu engasgo. — Ele não é o que você pensa, ele... Faço uma pausa, precisando inspirar e expirar lentamente para evitar outro ataque de pânico. — Ele é um criminoso, mãe.
Silêncio.
Um silêncio longo demais para ser uma surpresa.
— Mãe. Insisto. — Você está aí?
— Sim. Ela finalmente responde. — Eu imaginei que isso ia acontecer mais cedo ou mais tarde.
O ar me falta.
— O que… o que você quer dizer com isso? Minha voz treme.
— Que você ia descobrir. Ela diz calmamente. — Lorenzo não é exatamente discreto, se você souber onde procurar.
Sento-me na cama, como se uma bigorna escura e pesada tivesse caído sobre mim.
— Você sabia? Pergunto, embora já saiba a resposta.
— Desde o começo.
Sinto algo se quebrar dentro de mim. Não é novo. É antigo. Venho se acumulando.
— Desde o começo…? Repito. — E você ainda me deixou aqui?
— Virginia, não exagere. Ela responde. — Lorenzo jamais colocaria você em perigo. O trabalho dele não o define como pessoa.
A risada que escapa de mim é amarga, quase histérica.
— Você está mesmo me dizendo que estou exagerando? Minha voz se eleva. — Você tem um marido mafioso, e nem se deu ao trabalho de me contar!
Levanto-me, andando de um lado para o outro. O meu coração está disparado.
— Você sabe quantas vezes eu tive que cuidar de você? Cerrei os dentes. — Quantas vezes eu fiquei acordada esperando você quando era você quem não voltava para casa? Quantas vezes eu acoberto as suas mentiras na frente do meu pai? E você me diz que estou exagerando? Como se você nunca tivesse sido responsável por todas as minhas tristezas.
Ela suspira, irritada.
— Não comece com isso de novo...
— Eu tinha oito anos quando você passou a noite fora. Continuo. — Oito. E eu que estava fazendo café para você no dia seguinte enquanto você chorava por homens que nem sequer se lembravam do seu nome.
— Isso não é justo.
— Nunca foi justo. Eu cuspi. — Eu não tinha mãe. Tive que criar uma adolescente rebelde que preferia amantes à própria filha.
O seu silêncio agora é defensivo.
— Não vou deixar você falar assim. Ela murmura. — Desta vez é diferente. Eu sei que cometi erros no passado e fiz escolhas rui*ns. Mas Lorenzo é a exceção. Ele me ajudou quando ninguém mais o faria.
— Como ele te ajudou? Ergo uma sobrancelha. — Dinheiro? Luxos? Vestidos bonitos e uma vida superficial?
— Com amor e companheirismo. Ela responde. — Casei por amor, e você não pode me julgar.
Algo definitivamente se quebra.
— Claro. Eu digo. — Amor. É sempre amor quando te convém.
— Não vá longe demais, Virginia.
— Sabe qual é a pior parte? Eu bufo. — Não é que ele seja um mafioso. É que você nunca se importou em me colocar em risco. Assim como você nunca se importou com nada além de si mesma.
— Você está sendo cru*el.
— Estou sendo honesta.
Respiro fundo.
— Você me deixou sozinha em outro país com um homem perigoso. Eu digo. — E mesmo assim, você ainda o defende.
— Porque confio nele. Ela responde. — Muito mais do que confio no seu pai, por exemplo.
Esse é o golpe final.
— Você é inacreditável. Sussurro. — Sério. Capaz de vender tudo só para manter a sua vida confortável.
— Não ouse me chamar de interesseira.
— Você é. Digo sem hesitar. — E sempre foi.
— Virginia...
Desligo.
O telefone cai na cama como um objeto sem vida.
Sento-me ali, abraçando os joelhos, sentindo como se algo dentro de mim tivesse ficado órfão para sempre.
Se eu já odiava a minha mãe antes, agora a odeio ainda mais.
E pela primeira vez desde que cheguei aqui, me sinto completamente sozinha.