Letícia narrando Eu tô com gosto de ferrugem na boca até agora. Não sei se é do ódio. Da vergonha. Ou do tapa que ele me deu na frente de todo mundo, na porta do desfile, como se eu fosse lixo, como se eu não fosse nada, como se oito anos de convivência não significassem absolutamente nada. Eu ainda sinto a mão dele ardendo na minha cara como se tivesse acabado de acontecer. O estalo seco. O som ecoando no estacionamento. A surpresa. A humilhação. As pessoas olhando. E depois a ordem: Com a vista embaçada de lágrima que eu não deixava cair. A mão tremendo no volante. O peito subindo e descendo rápido demais, igual cachorro cansado. A cabeça girando sem parar. E uma pergunta martelando dentro de mim igual britadeira: Como eu cheguei nesse ponto? Como eu, Letícia Fontes, uma mulher com

