Vulcano narrando
Emily ainda queria ficar. A mina não desistia fácil não. Ela puxou meu braço com aquele jeito manhoso dela, a voz melada, o corpo colado no meu, o cheiro do perfume subindo pelo ar enquanto ela perguntava se eu não ia dar mais um pouquinho. Eu nem olhei na cara dela. Mandei ela ralar peito, que já tinha dado, já tinha sido, já tinha acabado, que era pra vazar. Não tive paciência nem pra ver a cara de bosta que ela fez.
Nem olhei pra cara dela. Peguei o notebook na mesa, abri a tela, fingi que ia trabalhar. Mas a cabeça tava longe. Embolada. Irritada comigo mesmo sem nem saber direito por quê. O dedo passava pelo mouse sem clicar em nada. Os olhos liam a mesma linha três vezes sem entender.
Aí subiu notificação. Mensagem do coroa. Barra em cima da tela.
"Vulcano, confirma se você vai com a sua mãe pro desfile hoje à noite. Preciso saber até às 16h."
Nem abri direito. Só vi o suficiente pra entender o recado. A barra deslizou pro lado e sumiu.
Antes de eu conseguir processar, outra notificação subiu por cima. Mais de oito chamadas perdidas. O celular vibrou na mesa que parecia que ia sair andando sozinho, os pontinhos vermelhos acumulados no ícone do telefone.
Peguei na moral, já puto, sem paciência, a cabeça quente.
Já joguei no ouvido, que tava descarregando, a voz saindo mais grossa do que devia.
Só que aí eu ouvi.
A voz.
Do outro lado.
Jane.
Falando baixo. Falando devagar. Falando com aquele tom que não era de quem tava pedindo informação sobre desfile.
E nessa hora já era. Eu já tinha falado demais. Muito mais do que devia. Muito mais do que qualquer conversa normal pede.
O silêncio que ela fez do outro lado não foi um silêncio qualquer. Não foi aquele silêncio de quem tá pensando. Foi aquele silêncio sem graça. Travado. Constrangido. Aquele silêncio que dói mais do que qualquer palavra.
Eu senti. Daqui. Do outro lado da linha. Senti o climão formar e fechar igual nuvem de tempestade.
Mas também sabia que não adiantava tentar consertar pelo telefone. Não ia ser um "foi m*l" dito no ouvido que ia resolver o estrago. Então mantive a postura. Engoli o orgulho. Continuei falando como se nada tivesse acontecido, mesmo sabendo que tudo tinha acontecido.
Ela falou baixo, meio travada, os dedos provavelmente tremendo no celular. Disse que era só pra confirmar o horário do desfile. Falou normal, mas o clima já tinha ido pro c*****o há muito tempo. Não tinha mais volta.
Ela desligou.
E eu não falei mais nada com ninguém.
Só peguei a chave da moto, o celular, a peça. Enfiei a pistola na cintura, puxei a camisa por cima, e desci as escadas sem olhar pra trás. Fui pro asfalto.
Uma mão no guidão. A outra dando murro no ar igual maluco. O vento batendo no rosto, o barulho do motor abafando os pensamento. Mas não abafava tudo.
— Eu sou muito o****o, pqp… — falei sozinho dentro do capacete.
Tinha falado que tava descarregando pra esquecer uma mina. E a mina era ela. Ela tava do outro lado da linha. A mesma mina que eu tentei proteger no corredor. A mesma que tava na minha cabeça fazia duas semanas. A mesma que eu não conseguia tirar dos pensamento nem quando tava com outra.
— c*****o, Vulcano… — resmunguei, o punho fechado batendo no peito do capacete.
Conferi a localização no celular. O prédio. O quarto. Tudo certinho. Estacionei a moto, subi já ligado em tudo. Portaria, elevador, corredor. Os olhos varrendo cada canto, cada vulto, cada movimento suspeito.
E no meio disso tudo eu tive a sensação.
Aquela sensação r**m.
Aquela pontada atrás da orelha.
De ter visto o arrombado do ex-marido dela. Parado ali. No meio do corredor. Me encarando.
Balancei a cabeça negando, apertando o passo.
— Viajei… — falei baixo, sozinho. — Não é possível.
Parei na porta. Bati duas vezes. Seco. Direto.
Ela já veio gritando lá de dentro, a voz irritada, cansada, como se já tivesse repetido a mesma frase várias vezes naquele dia.
Quando eu ouvir a voz dela falando o nome do Guilherme.
Meu maxilar travou. Os dentes rangeram. O nome daquele filho da p**a na boca dela me deu um negócio que eu não soube explicar.
A porta abriu.
E ela ficou parada.
Sem acreditar.
Mas sem acreditar mesmo.
Os olhos arregalados. A boca entreaberta. O corpo inteiro travado.
Toda de branco. Aquele body colado no corpo dela que parecia miniatura. Ela grande. Linda. Imponente. As pernas grossas. O quadril largo. A cintura fina. O cabelo arrumado. A maquiagem pronta.
De boca aberta.
Sem acreditar que eu tava ali.
E eu sem acreditar que ela tava daquele jeito.
Ali.
Na minha frente.
— Vulcano…? — ela conseguiu falar, a voz falhando, os olhos sem piscar.
Eu só fiquei olhando. De cima. Embaixo. Lento. Sem pressa. Como quem tenta gravar cada detalhe.
— Não é que eu não queira que você entre… — ela começou, meio perdida, a mão ainda na maçaneta. — É que eu preciso terminar de me arrumar pro desfile.
Eu levei a mão na porta. Empurrei. Devagar. Firme. Sem perguntar. Sem pedir licença.
Ela foi de lado, o corpo recuando, os olhos ainda fixos nos meus.
Fechei a porta atrás de mim. O clique da fechadura ecoou no quarto.
Mordi o canto da boca olhando ela inteira. Dos pés descalços até o topo da cabeça.
— Tá tudo bem? — perguntei, a voz mais baixa agora, mais calma.
Ela assentiu, mas não falou nada.
— Por que tu tava chamando pelo arrombado do Guilherme?
— Nada… — ela desviou o olhar. — O que você tá fazendo aqui?
Passei a mão na nuca. Respirei fundo. Pensei no que ia falar. Pensei duas vezes. Pensei três.
— Vim pedir desculpa. — falei.
E eu nem sou de pedir desculpa. Não é meu estilo. Não é minha praia. Não é o que os espera de mim. Mas eu sabia que tinha vacilado. E sabia que ela merecia ouvir.
— Você não salvou meu número? — ela perguntou, o olhar ainda desconfiado.
— Não tenho costume de salvar número de ninguém. — respondi, honesto. — Foi só um jeito de falar.
Silêncio. O peso dele no ar.
— Você salvou o meu? — perguntei de volta.
Ela balançou a cabeça. Um movimento leve. Quase imperceptível. Dizendo que sim.
Eu sorri. Devagar. Não um sorriso debochado. Um sorriso verdadeiro. Aproximei um passo. Depois outro. Até sentir o calor do corpo dela. Tirei o cabelo do rosto dela com cuidado. Passei a mão na bochecha dela com calma, com os dedos abertos, sentindo a pele macia.
Ela fechou os olhos por um segundo. Só um. Mas eu vi.
— Não precisa pedir desculpa… — ela falou, a voz baixa. — Pode ir. Daqui a pouco eu já vou sair pro desfile.
— Daqui a pouco quanto? — perguntei, a mão ainda no rosto dela.
— Ué?
— Daqui a pouco vinte minutos? Duas horas? Três?
— Por que você quer saber?
— Responde. — falei, firme.
— Mais ou menos três horas.
Eu assenti devagar. Os olhos nos olhos dela.
— Tempo de sobra.
— Tempo de sobra pra quê?
Olhei no fundo do olho dela. Fui direto.
— Pra eu me desculpar direto.
Ela respirou fundo. O peito subiu e desceu devagar dentro daquele body branco.
— Não precisa. — ela falou. — Eu sei como é. Você achar que é uma pessoa e ser outra…
— É isso aí. — completei, passando a mão no rosto, coçando a barba. — Não dá pra ter tudo que a gente quer, né?
Fiz uma pausa. O silêncio encheu o quarto.
— Eu não tinha que falar daquele jeito. — continuei. — Foi escroto falar que tava tentando esquecer alguém.
Ela levantou os braços num gesto de "tá tudo bem". Aquele movimento que as mulheres fazem quando querem encerrar o assunto.
E eu pensei:
"Se tu soubesse que o alguém que eu queria esquecer era tu…"
— Você falou alguma coisa? — ela perguntou, os olhos estreitos.
— Você ouviu alguma coisa? — respondi rápido demais.
Pensei comigo: "Será que eu falei alto? Será que essa mulher tá ouvindo meus pensamentos?"
Ela negou com a cabeça. Devagar. Virou de costas.
E aí foi covardia.
Perna grossa. Quadril largo. A b***a grande. A cintura absurda de fina no meio daquele corpo todo. E o body atolado nela, enfiado no meio do rabø, marcando cada curva, cada pedaço de pele.
Respirei fundo. Muito fundo. O sangue subiu. O corpo respondeu.
Num movimento rápido — mais rápido do que eu planejei — puxei ela pela cintura. As duas mãos fecharam no quadril dela. O corpo dela bateu no meu. As costas dela encostaram no meu peito.
A respiração que saiu assustada da boca dela acertou o ar na minha frente. O cheiro do perfume dela invadiu meu nariz. A pele macia. Quente. As mãos dela segurando no meu ombro, sem saber se empurrava ou puxava.
— Você precisa ir embora… — ela falou, a voz falhando, o corpo tremendo. — Eu não posso estragar minha maquiagem e muito menos o penteado…
Eu sorri de lado. Fechei os olhos. Levei a mão firme no pescoço dela. Os dedos envolveram a nuca. O polegar acariciou a lateral.
— Vulcano… — ela tentou falar.
Antes dela terminar, eu calei ela com um beijo.
Continua...