Jane narrando
Fiquei encarando ele, sentindo meu corpo esquentar só com o jeito que ele me olhava. Não era um olhar comum. Não era aquele olhar rápido de homem que mede você de cima embaixo e já virou pro lado. Era lento. Pesado. Demorado. Como se ele tivesse todo o tempo do mundo. Como se estivesse decorando cada pedaço de mim, cada curva, cada centímetro de pele que o body branco deixava à mostra.
Ele praticamente forçou a entrada. Não foi grosso. Não foi agressivo. Também não pediu licença. Não perguntou se podia. Só entrou. Fechou a porta. Olhou ao redor. E ficou ali, plantado, como se aquele espaço já fosse dele. Como se ele já tivesse decidido que não ia embora tão cedo.
Ficou tentando conversar, desconversar, explicar o que tinha falado no telefone. As palavras saíam meio soltas, meio atropeladas, um negócio estranho vindo de um homem daquele tamanho, daquela presença. Eu ouvi, mas não ouvi direito. Porque, sinceramente, eu não entendi por que ele precisou vir pessoalmente pedir desculpa se ele podia simplesmente mandar uma mensagem. Ele já sabia qual era o meu número. Ele já tinha me ligado. Ele já tinha falado o que não devia. Por que não mandar um áudio? Por que não sumir igual todo mundo some?
Mas ele veio. E agora estou aqui. Na minha frente. Dentro do meu quarto.
E eu já tava com pouca roupa mesmo. Virei as costas e fui andando na direção do quarto, fingindo que precisava terminar de me arrumar. O corpo ainda quente. O coração ainda acelerado. A boca ainda meio seca.
Foi quando senti.
A mão dele segurando minha cintura. Firme. Quente. Os dedos abertos envolvendo meu quadril, me puxando de volta.
Meu corpo bateu no dele e o ar quente da respiração dele acertou meu rosto. Me arrepiou inteira — dos braços, da nuca, das pernas. Ele sorriu de lado, daquele jeito que faz a gente morder o canto da boca sem perceber.
E então ele me beijou.
Não foi um beijo rápido. Não foi um beijo educado. Não foi daqueles que a gente dá por educação no final de um encontro. Foi quente. Demorado. Intenso. A boca dele pressionou a minha com uma fome que eu não sentia há muito tempo.
A mão dele apertou minha cintura, depois subiu pelas minhas costas, me trazendo ainda mais para perto. Os dedos dele apertaram minha pele por cima do body, como se quisessem marcar o lugar. Eu senti meu corpo responder a algo que fazia muito tempo que eu não sentia. Muito tempo. Tempo demais.
Eu tinha passado meses — quase um ano — fugindo de qualquer toque. Qualquer aproximação. Qualquer coisa que me lembrasse que alguém podia invadir meu espaço sem permissão. Eu tinha focado na minha autoconfiança. Em me sentir segura de novo. Em ser dona do meu próprio corpo. Em aprender que ninguém tocava em mim sem que eu deixasse.
E ali, nos braços dele…
Eu não me senti invadida.
Eu me senti desejada.
Quando eu senti ele duro roçando em mim por cima da bermuda, a consciência voltou de uma vez. O ar faltou. O peito subiu e desceu rápido. Eu parei o beijo, ofegante, com a boca molhada, os lábios inchados.
— Eu poderia ter te ligado… — ele começou, a voz grossa, falhando um pouco. — Vindo pra cá pra descarregar ao invés…
Ele travou.
— Nada. — completou, balançando a cabeça. — Deixa pra lá.
Passei a mão no rosto, tentando organizar meus pensamentos, tentando lembrar o que eu ia fazer antes dele chegar, tentando encontrar o chão que tinha sumido debaixo dos meus pés.
— Você tem que ir. — falei, a voz ainda falhando. — Eu preciso me arrumar, sério.
Ele inclinou a cabeça, me olhando com aqueles olhos escuros, pesados, que pareciam ler cada pensamento antes mesmo de eu formar as palavras.
— Tenho certeza que não tem ninguém te esperando. — ele falou, calmo. — E se você atrasar alguns minutos…
— É sério. — falei, já rindo nervosa, passando a mão no cabelo. — Eu vou me atrasar todinha. Eu não quero problemas. Já basta eu ficar imaginando que o meu ex-marido vai ser um problema.
O semblante dele mudou na hora.
Fechou. Pesou. Endureceu.
— Aproveitando que tu tocou nesse assunto… — ele falou, a voz mais grave agora. — O arrombado apareceu?
Fiz um gesto com a cabeça. Nem sim, nem não. Mais ou menos.
— Te perturbou? — ele perguntou, direto. — Fez alguma coisa que não devia?
— Me procurou no primeiro dia, mas eu dei meu jeito. — respondi, tentando minimizar. — Hoje passou por aqui… mas tava tranquilo.
Ele me encarou. O olhar não saiu do meu.
— Como eu te falei. — ele falou devagar, cada palavra separada. — Se precisar, é só me ligar.
Eu gargalhei. Uma gargalhada seca, sem humor.
— Como eu liguei hoje?
Ele franziu a testa.
— Você tava em perigo?
— Não. — respondi, mais baixo, mais honesta. — Eu só queria falar com você.
Ele balançou a cabeça negando, como se aquilo não fosse suficiente, como se eu não tivesse dito nada importante. Aproximou o rosto do meu de novo. Roçou a boca na minha antes de me beijar outra vez.
E dessa vez o beijo foi diferente.
Mais calmo. Mais demorado. Menos fome, mais vontade. Menos pressa, mais entrega.
Eu senti meu corpo relaxar. De verdade. Como se todo o peso que eu vinha carregando nas últimas semanas — os meses, os anos — simplesmente escorresse pelos meus ombros e se dissolvesse no chão.
Quando eu relaxei…
Ele me puxou.
De repente, eu tava nos braços dele. O ar foi embora. Dei um susto.
— Vulcano! — falei, as mãos segurando nos ombros dele.
Ele nem respondeu. Só me segurou firme. As duas mãos fechadas na minha cintura. Abriu minhas pernas e encaixou cada uma de cada lado do corpo dele. Instintivamente, eu abracei o pescoço dele.
A boca dele na minha.
A mão dele firme nas minhas costas.
Ele me prensou na parede — o impacto foi leve, mas o suficiente para me tirar o ar de novo — e eu senti meu coração batendo no peito como se fosse sair pela boca, pulando igual passarinho engaiolado.
Quando ele me levou até a cama e me deitou, meu tronco enrijeceu na hora. O corpo travou. A memória voltou.
— Meu cabelo não pode bagunçar! — falei rápido, quase gritando.
Ele sorriu. Um sorriso de lado, safado, bonito.
— Não seja por isso. — ele respondeu.
Puxou meu corpo com um movimento só — forte, firme, seguro — e sentou na cama, me colocando sentada no colo dele. As minhas pernas abertas em cima das coxas dele. A saia do body subiu. A pele dele quente contra a minha.
— Vamos devagar… — falei, ainda tentando manter algum controle da situação, a voz tremendo um pouco.
Ele aproximou a boca do meu ouvido. O hálito quente acertou minha pele.
— Devagar? — ele repetiu, a voz grossa, baixa, direto na alma. — Tu sabe o que é sentir vontade de beijar a boca de alguém como se nunca tivesse beijado ninguém antes?
Meu corpo travou. Porque eu sabia. Eu sabia exatamente o que ele estava dizendo.
O telefone dele começou a tocar. E ele ignorou.
A mão dele apertando minha cintura, depois descendo para minha coxa, depois subindo para minha b***a, enquanto o telefone continuava vibrando no bolso da bermuda dele.
— Melhor você atender… — falei, quase sem voz, a boca perto da boca dele.
Ele puxou o celular do bolso, ainda me segurando com a outra mão, os dedos cravados na minha coxa.
Olhou a tela.
— Minha mãe. — ele falou, como se aquilo explicasse tudo.
— Tia Helena? — falei na mesma hora, já saindo do colo dele.
Meu coração ainda batia acelerado. Meu corpo ainda quente. Minha cabeça ainda girando. A boca ainda molhada.
E, de repente, a realidade voltou inteira.
Toda. De uma vez. Como um balde de água fria.
Continua...