Capítulo 17 Letícia

1247 Palavras
Letícia narrando Sem acreditar que hoje seria um dia importante na minha vida e ele decidiu simplesmente se arrumar e sair de casa como se eu não existisse. Já estava tudo indo por água abaixo antes da Jane voltar para o Rio de Janeiro. Com a volta dela, tudo piorou. Tentei sair de casa. Tentei voltar pra casa da minha mãe. Tentei ir pra casa de amigas. Mas todos os lugares que eu fui, ele me achou. Porque Guilherme não aceita "não" como resposta. E o que ele quer, ele acha que é dele. Eu sei que eu não posso odiar a Jane. Não tenho motivos pra odiar ela. Ainda mais que, depois que ela foi embora e deixou o Guilherme, eu realmente descobri quem ele era antes. Eu pensava que ela era só ingrata, que nem merecia ele, porque tinha todas as outras mulheres que passavam pelos pés dele — mulheres bem mais bonitas que ela, mulheres totalmente fora do padrão que ele escolhia. E eu achava que era ela que tinha culpa demais e não sabia agradecer o homem que tinha. Mas eu conheço a Jane desde a época do colégio. Fizemos faculdade juntas. Assim como o Guilherme, enquanto ele não tinha ela na cama dele e nos braços dele totalmente, ele arrastava o mundo por causa dela. Depois, enquanto eles namoravam — até onde eu sei — ele foi fiel a ela. Mas depois que eles se casaram, o tempo foi passando e ali eu percebi que o Guilherme era o mesmo escroto de sempre. Ele chegava e abordava as outras meninas, assim como abordava a Jane. E eu sou uma das que caiu na lábia dele enquanto ele ainda estava casado com a Jane. Fiquei com ele. E assim que ela foi embora, eu ocupei o lugar dela. O lugar da fiel. Da mulher. Só que aí o que um amante não espera é que, do mesmo jeito que ela foi amante de alguém, a pessoa que trocou a mulher por um amante vai ter outro amante. Porque ele não vai se contentar. Então, se a Jane foi trocada por um amante, com certeza sucessivamente era isso que eu tinha que esperar. Mas eu era apaixonada por ele. Mesmo sabendo que não podia. Mesmo sabendo que eu tinha que me afastar porque eu e Jane éramos amigas. Eu fiquei. Continuei. E só depois de dois anos que a gente foi morar junto — quando eu comecei a bater o pé, cobrar ele como marido — que eu entendi realmente quem ele era: um escroto, um desgraçado, um abusador. Todas as vezes que quis conversar, que quis questionar, eu apanhei. E não apanhei pouco. Eu sabia do desfile. Só não sabia que ele poderia ir atrás dela. Não vou mentir: fiquei com medo de que a volta dela pudesse mexer com ele. Mas, como eu previa, mexeu. Ele chegou ignorante, chegou dizendo que era pra arrumar o quarto de hóspede. A Maria arrumou. Mas eu percebi uma mudança de comportamento. Não entendi, mas também não questionei. Porque toda vez que eu questiono, é um tapa, é um murro. E eu não estava mais a fim de deixar ele mais nervoso. Vamos lá para as apresentações — já que eu ainda não me apresentei. Meu nome é Letícia Fontes. Tenho 29 anos, completo 30 na próxima semana. Tenho 1,70 de altura. Tenho o corpo que se diz "padrão" para a sociedade brasileira — não entra no padrão de modelo manequim de passarela, mas tem a cintura fina, pernas grossas. Meu cabelo é enorme, cacheado, eu gosto dele dourado. Sou puxada pro loiro, tenho uma pele bronzeada — aquela morena iluminada, pele dourada do Rio de Janeiro. Sou filha única. Quando eu falei pra minha mãe que eu iria sair de casa pra morar com o Guilherme, ela não aceitou muito. Porque a fama dele depois da Jane foi uma fama que nenhuma mãe queria pra suas filhas. Mas, como minha mãe deixou bem claro, não era ela que ia viver com ele — era eu. Então, se era minha escolha, eu teria que arcar com as consequências. E estou arcando até hoje. Oito anos praticamente debaixo do mesmo teto. Levando desaforo. Sendo agredida. E ainda tendo que bancar a mulher exemplar — amor, carinho, dedicação. Se algo sai fora do eixo, sobra pra mim. Hoje foi o dia da minha exposição de fotografias. Algo que eu organizei por meses. Algo que era meu. Algo que ele prometeu que iria. Ele não foi. Fui sozinha. Olhei ao redor. Vi os namorados, os maridos, os parceiros de todas as meninas ali. Menos o meu. O meu tava correndo atrás da ex-mulher. Terminei o evento com um sorriso colado no rosto. Agradeci as pessoas. Tirei fotos. Assim que acabou, entrei no carro. E eu sabia exatamente para onde ele tinha ido. Não precisei pensar. Não precisei adivinhar. O coração já sabia. Segui para o desfile. Quando entrei, vi ele de longe. Guilherme. De mãos na cintura da Jane. Os dois conversando baixo, perto, íntimos. Como se o tempo não tivesse passado. Como se eu não existisse. Meu corpo gelou. Mas não foi só ele que eu vi. Do lado, parado, tinha um homem. Grande. Tatuado. Cara fechada. Olhar pesado. Me olhando de cima embaixo como se estivesse me medindo, me avaliando, me lendo inteira em menos de dois segundos. Eu tive a impressão de que conhecia ele de algum lugar. Mas não consegui lembrar de onde. — Guilherme! — chamei. Ele virou. O rosto fechou na hora. Jane também virou. Os olhos dela se arregalaram quando me viu. — Letícia? — ela falou, sem acreditar. — Você aqui? Respirei fundo. Aproximei. — Que bom te ver depois de tantos anos. — falei, a voz saindo mais calma do que eu me sentia. — Falo o mesmo de você. — Jane respondeu, com um sorriso sem graça. — O que você anda fazendo da vida? Olhei pro lado. O homem tatuado continuava me encarando. O olhar dele não saía do meu rosto. Depois desceu. Subiu. Me mediu inteira. — Depois a gente conversa. — falei, desviando. — Eu sei que você tá no desfile. Desculpa atrapalhar. Saí andando. O homem tatuado ainda me olhou por cima do ombro. Eu virei as costas. Saí com o telefone na mão, o coração partido, os olhos ardendo. Sem acreditar que ele tinha feito aquilo comigo. Sem acreditar que, depois de oito anos, eu ainda era a outra. Antes de entrar no carro, ele chegou. — O que você tá fazendo aqui? — a voz dele saiu grossa, irritada. A mão dele voou. O tapa estalou no meu rosto. A cabeça virou com o impacto. — É sério? — falei, a voz tremendo, o olho enchendo d'água. — Você deixou de ir na minha exposição — que já tava marcada há semanas — pra vir ver a sua ex-mulher desfilar de lingerie? Ele me encarou. Sem remorso. Sem vergonha. — Você sempre soube que ela era a mulher da minha vida. — ele falou, a voz calma, c***l. — Então se contenta com isso. Com o que sobrou de mim pra você. Que é o resto dela. Entrou no carro. Bateu a porta. Foi embora. Eu fiquei parada. Chorando sozinha no meio do estacionamento. Porque, no fundo, ele sempre deixou claro. Eu nunca fui a primeira escolha. Eu fui o prêmio de consolação. E o pior… é que eu ainda amo ele. Continua...
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