Guilherme Narrando
Eu ainda não tô acreditando.
Não estou acreditando que a Letícia teve a coragem de aparecer no desfile. E pior — de me chamar pelo nome na frente da Jane. Na frente dela. Depois de tudo que eu avisei. Depois de tudo que eu deixei claro.
Ela achou mesmo que eu ia deixar de ir no desfile da mulher que foi a única que eu amei na vida pra prestigiar um show fotográfico dela? Pra ficar olhando foto pendurada na parede enquanto a Jane tava ali, na minha frente, desfilando de lingerie, toda gostosa, toda perfeita?
Ela se enganou.
E se enganou feio.
Já tinha avisado pra Letícia que a Jane ia voltar. Já tinha deixado claro que quando isso acontecesse eu ia resolver as coisas do meu jeito. Não importava o tempo. Não importava o que tivesse no meio. Eu ia atrás.
Mas depois de beber, pensar, e trocar ideia com gente que entende dessa parte de pressão psicológica — gente que já fez isso antes, que já trouxe mulher de volta pra casa — eu resolvi fazer diferente.
Nada de força.
Nada de escândalo.
Nada de deixar rastro.
Eu fiquei de longe. Observei. Estudei cada passo da Jane. Cada horário. Cada movimento. Cada pessoa ao redor dela. Esperei a hora certa de me aproximar. Esperei o momento em que ela estivesse mais vulnerável. Mais sozinha. Mais aberta.
E aí a i****a da Letícia me aparece daquele jeito. Achando que eu ia sair correndo atrás dela, que eu ia largar tudo pra resolver treta em casa. Minha vontade era exatamente essa: ir atrás, colocar ela no lugar dela, lembrar quem manda, enfiar na cabeça dela que ela não manda em nada, que ela só tá ali porque eu permito.
Mas eu precisava manter a cabeça no lugar.
Eu precisava entender o que tava rolando entre a Jane e aquele noiado.
Aquele cara grande, tatuado, de olhar pesado. Aquele que parecia uma muralha. Aquele que me olhou no corredor como se eu fosse nada.
Eu precisava saber quem ele era. O que ele queria com ela. Se já tinha acontecido alguma coisa. Se ela já tinha ido pra cama com ele. Só de pensar nisso, meu sangue ferveu.
Entrei no salão pela porta lateral, já irritado, a cabeça fervendo. O som da música ainda ecoava atrás de mim, as pessoas rindo, conversando, tirando foto, como se nada tivesse acontecido. Como se o mundo não tivesse parado. Como se eu não tivesse visto a Letícia ali, estragando tudo.
Quando atravessei a porta, dei de cara com ela.
Tia Helena.
Parada na minha frente.
Braços cruzados.
Olhar atravessado.
A mesma cara de sempre. A mesma postura de rainha. A mesma convicção de quem acha que pode mandar em tudo e em todos.
— Eu sabia que você ia aparecer. — ela falou, a voz fria, medida.
Respirei fundo. Fechei os punhos dentro do bolso do paletó. Tentei manter o controle.
— Eu respeito muito a senhora, Dona Helena. — comecei, a voz saindo mais calma do que eu realmente tava sentindo. — Mas a senhora sabe muito bem que a Jane ainda é minha mulher. E a senhora sabe que eu amo a Jane.
Ela deu uma risada sem humor nenhum. Uma risada seca. Amarga. Daquelas que cortam mais do que qualquer palavra.
— Eu sei que ela te amou. — ela respondeu, o olhar duro. — E você simplesmente humilhou. Abusou. Destruiu aquela menina de todas as formas que você podia. Aquela Jane que você mantinha presa dentro de casa, em cárcere privado, não existe mais. A Jane agora é uma mulher.
Eu gargalhei.
Alto.
Debochado.
A gargalhada ecoou no corredor vazio.
— A senhora devia cuidar da sua vida… — falei, apontando o dedo na direção dela — e tirar seu filhinho do meu caminho e do caminho da Jane.
O olhar dela ficou mais duro. Mais afiado. Mais mortal.
— Eu quero é que você não tente nada contra a Jane. — ela falou, cada palavra separada, caindo como uma faca. — Porque eu tô de olho em você.
Dei dois passos pra frente. Aproximei meu rosto do dela. O cheiro do perfume caro subiu no ar. Desafio.
— Tá afim de trocar o coroa lá por algo mais novinho? — falei, a voz baixa, provocadora.
Antes da minha mão chegar perto do cabelo dela…
PÁ.
O soco pegou em cheio no meu nariz.
Na hora.
O impacto estalou seco no corredor.
Eu senti o gosto de sangue na boca antes mesmo de processar o que tinha acontecido. O nariz ardeu. Os olhos encheram d'água. A dor subiu latejando.
Um segurança se aproximou correndo, a mão já no coldre.
— Tá acontecendo o quê aqui?
Helena limpou as mãos no vestido, tranquila, como se tivesse acabado de tirar poeira da roupa.
— Nada não. Só conversa. — ela respondeu, a voz calma, serena.
Passei a mão no nariz. O sangue escorreu entre os dedos. Ri. Uma risada de nervoso, de raiva, de ódio.
— Você vai ter que aceitar que eu ainda sou casado com a Jane. — falei, a voz grossa, o sangue escorrendo pelo lábio superior.
Ela me olhou com desprezo. Com nojo. Com aquela certeza de quem já venceu.
— Por pouco tempo. — ela respondeu. — Já mandei preparar a papelada do divórcio.
Ri mais alto. Mais escroto. Mais provocador.
— Só existe divórcio quando os dois assinam. — falei, enfiando o dedo ensanguentado na direção dela. — E se depender de mim, eu como essa papelada no café da manhã.
Ela não respondeu.
Só ficou ali. Me olhando. Com aquele olhar de pena. De dó. De superioridade.
Me afastei.
Deixei ela pra trás.
Fui direto na direção do camarim.
No caminho, passei por aquele grandão. O tal Vulcano. Ele tava conversando com um segurança, todo cheio de pose, todo cheio de marra, com aquela cara de quem se acha o dono do mundo. Os braços cruzados. O olhar fechado.
Nem olhei.
Continuei andando.
Fui direto na porta do camarim.
Bati. Três batidas secas.
Lucas abriu. A cara fechada. O corpo bloqueando a passagem.
— Quero trocar ideia com a minha mulher. — falei, já tentando passar.
— Você não é mais casado com ela. — ele respondeu, firme.
— Quem decide isso não é você. — falei, a voz subindo um tom.
— Se você não sair, vou chamar a segurança.
Foi aí que a voz grossa surgiu atrás de mim.
— Qual é, sua playboy? — a voz do Vulcano ecoou no corredor. — Rala peito. Mete o pé. Tá vendo que ninguém te quer aqui?
Virei devagar. Encarei ele.
— Quem não tinha que estar aqui era você.
Ele nem se alterou. A cara continuou fechada. Os braços continuaram cruzados.
— Tô aqui fazendo a segurança da minha coroa. — ele falou, a voz baixa, calma, perigosa. — E ela tá aqui pra manter a segurança da Jane. Então tudo que diz respeito a ela… diz respeito a mim também. Melhor você vazar.
Aproximei. Peito com peito. Desafio.
— Tu não sabe onde tá se metendo.
Foi rápido.
Muito rápido.
Eu m*l vi.
A mão dele agarrou minha camisa — os dedos fortes, grossos, fechando no tecido — me puxou com uma força absurda e me lançou pro outro lado.
Minhas costas bateram na parede com tudo. O impacto estalou nos meus dentes. O ar saiu do meu pulmão de uma vez.
— Tá maluco?! — gritei, a voz falhando.
Lucas já chamava o segurança.
— Tira esse cara daqui! Ele não tem autorização pra entrar!
Tentei me levantar. Apoiei as mãos no chão. O nariz sangrando. A camisa amassada. O orgulho ferido.
— A modelo que desfilou aqui é minha mulher! — gritei, apontando na direção do camarim.
Mas ninguém parecia se importar.
Ninguém.
Nem o segurança. Nem o Lucas. Nem aquele grandão de olhar pesado que já tinha virado as costas e tava voltando pro lugar dele.
E isso…
Isso foi o que mais me deixou fora de mim.
Porque pela primeira vez...
Pela primeira vez… Eu não estou no controle da situação.
Tem alguém tentando me colocado no meu lugar.
Me apoiei na parede, limpei o sangue do rosto com a manga da camisa.
— Vou te esperar no hotel, Jane. — Sussurrei baixo, quase sem voz, mas com todas as células do meu corpo vibrando de ódio. — Vamos matar a saudade, chegou a hora.
Continua...