Capítulo 19 Vulcano

1258 Palavras
Vulcano Narrando Eu tava me segurando numa força que nem eu sabia que tinha. Porque vontade não faltou. Vontade de atravessar aquele salão, pegar aquele playboy pelo colarinho e fazer ele aprender, na marra, qual é o lugar dele. Mostrar pra ele o que acontece quando um homem de verdade fica puto. Enfiar na cabeça dele que ele não manda em nada, que ele não é ninguém, que ele só tá ali porque eu ainda não decidi que ele tem que ir embora. Mas eu não podia. Não ali. Não no desfile dela. No Rio é assim: uma foto, uma matéria m*l escrita, uma fofoca plantada… e acabou a carreira da mina. Não importa se é verdade. Não importa se ela não tem nada a ver com a treta. A mídia come, o povo compartilha, e a artista fica queimada pra sempre. E a Jane já tinha passado coisa demais pra eu ser mais um problema na vida dela. Então eu fiquei quieto. Parado. Observando. Os punhos fechados dentro do bolso da calça. O maxilar travado. A respiração controlada. Só que quando aquela mulher entrou chamando pelo nome dele… o jeito que ela olhou pra ele, depois olhou pra Jane… e depois pra mim… Eu só balancei a cabeça negando. — Ihhh… essa aí é a mulher dele. — murmurei baixo, sozinho. Na hora eu entendi tudo. O olhar dela não era de curiosidade. Não era de surpresa. Não era de casualidade. Era de quem já sabe a história inteira. Era olhar de mulher ferida. Olhar de quem já foi trocada, já foi deixada de lado, já foi humilhada. Olhar de quem sabe que o homem que tá na frente dela nunca vai amá-la do jeito que ela merece. O playboy saiu atrás dela. Eu me aproximei da Jane. — Tá tudo bem? — perguntei, a voz baixa, cuidando pra não chamar atenção. Ela respirou fundo. O peito subiu e desceu devagar. Os olhos ainda meio perdidos. — Tá. — respondeu, a voz falhando um pouco. — Quer que eu tire você daqui? Ela negou com a cabeça. Um movimento pequeno. Trêmulo. — Ainda tenho coisa pra resolver. — ela falou, ajeitando o cabelo. — Reunião com o Lucas e a assessoria daqui. — Beleza. — respondi, dando um passo pra trás. — Tô por perto. Ela entrou pro camarim. Eu fiquei no corredor. Minha coroa se afastou um pouco — foi resolver uns negócios lá com as amigas, falar com organizador, trocar ideia — e eu fiquei ali. Parado. Tentando entender onde aquele filho da p**a queria chegar. O que ele ainda queria com ela. Por que ele não desistia. Por que ele não sumia. Fiquei parado igual sentinela. Igual soldado de vigia. Olho atento. Corpo duro. As pernas abertas, os braços cruzados, a cara fechada. O playboy voltou feito um furacão. Passou por mim sem nem olhar na minha cara, a cara toda suja de sangue, a camisa amassada, o olhar perdido de ódio. Indo direto pra porta do camarim. Eu fiquei de longe só assistindo. Até perceber que ele tava fazendo gracinha. Até perceber que ele ia forçar a entrada. Até perceber que ele não ia respeitar o espaço dela. Aí não deu. Fui no movimento rápido. Segurei pela camisa com as duas mãos — o tecido amassando nos meus dedos — e dei um solavanco que joguei ele lá pro outro lado do corredor. O corpo dele bateu na parede com gosto. O som foi seco. Molhado. Satisfatório. Ainda tentou falar merda. A boca abriu. O dedo apontou. Não dei espaço. Ele levantou com dificuldade — se apoiando na parede, a mão no nariz que não parava de sangrar — limpou a cara com o paletó e saiu. Sem olhar pra trás. Sem falar mais nada. r**o entre as pernas. Minha mãe se aproximou. — Tá tudo bem, meu filho? — ela perguntou, a mão no meu braço. — Tá. — respondi curto. Ela respirou fundo. Aquele suspiro de mãe que já viu muita coisa. — Esse Guilherme não desiste mesmo… — ela falou, balançando a cabeça. Eu olhei pra ela. — Qual é desse Guilherme mesmo? — perguntei, a voz grossa, direta. Ela soltou um suspiro pesado. Ajeitou a bolsa no ombro. — Ai, meu filho… — ela começou, a voz baixa. — Eu nunca mais tinha ouvido falar dele desde que a Jane foi embora com a Gisele. Sumiu. Desapareceu. Nem notícia. Ninguém sabia onde ele tava. Balancei a cabeça. — Se ele não sabe o lugar dele, eu vou colocar. — falei, a voz firme. — Mas eu tenho que ouvir da boca da Jane que ela quer ele longe também. Não vou enfiar a cara onde não querem que eu enfie, né? Ela concordou. Aquele aceno de mãe que sabe que o filho tá pensando certo. — Isso aí, meu filho. — ela falou. — Em briga de marido e mulher ninguém mete a colher… por mais que a gente saiba que eles não têm mais nada. Mas se ela quiser ele por perto, a gente não pode fazer nada, né? Balancei a cabeça. — Vou trocar uma ideia com ela. — falei, já me virando pra ir. Ela estreitou os olhos pra mim. Aquele olhar de quem sabe de alguma coisa que eu não tô contando. — Já que você falou dela… — ela começou, a voz mais baixa, mais séria. — O que você tava fazendo naquele apart-hotel, Otávio? Eu dei uma gargalhada. Alta. Solta. Sem vergonha. Ela cruzou os braços. O olhar ficou duro. — Meu filho, já falei pra você. — ela falou, cada palavra caindo como uma faca. — A Jane não é essas mulheres que você tá acostumado a ir lá, comer e vazar. A Jane sofreu demais. Todos os tipos de abuso que você pode imaginar. Ela precisa de cuidado. De respeito. De tempo. Eu cheguei mais perto dela. A boca no ouvido dela. A voz baixa. — Eu tô doido pra abusar… — falei, devagar. — Mas é daquela boca dela. E daquele corpo. Ela me deu um tapa no braço. Forte. — Toma jeito, Otávio! — ela falou, a voz indignada. — Eu tô falando sério. Eu ri. Balancei a cabeça. — Tua filha pra mim, teu filho era teu. — falei, debochado. Ela me olhou séria. Aquele olhar de mãe que não admite desaforo. — Você me entendeu. — ela falou, firme. — Entendi. — respondi, já sem graça. — Vou ver se tá tudo bem com a Jane e vou ligar pra Gisele. — ela falou, se virando. Ela foi pro camarim. Eu dei a volta pela lateral, onde ficavam as saídas de emergência. Corredor escuro. Porta de ferro. Silêncio. Entrei por trás. E por sorte, quando entrei, ela tava sozinha lá dentro. O camarim era pequeno. Luz branca. Espelho grande. Roupas penduradas no cabideiro. Perfume dela no ar. Ela me olhou pelo espelho. Os olhos arregalados. — Tranca a porta. — falei, a voz baixa, grossa. Ela franziu a testa. — Por quê? — perguntou, a voz hesitante. Não respondi. Fui até a porta e tranquei eu mesmo. O trinco fez um clique seco no silêncio. Voltei devagar. Cada passo ecoando no piso de madeira. Ela me olhando. O corpo imóvel. A respiração presa. Eu cheguei perto. Os dedos seguraram o queixo dela entre o polegar e o indicador. A pele macia. Quente. Ela tremeu um pouco. Olhei dentro do olho dela. — Qual é a tua com aquele playboy arrombado? — perguntei, a voz baixa, perigosa. Continua...
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