O trabalho no bar não é tão pesado, eu fico mais atrás do balcão do que andando pelo salão. Ouço histórias de homens vividos e garotos apaixonados o tempo inteiro. Tem aqueles que se acham engraçadinhos e tentam jogar conversa fora pra cima de mim, mas o senhor Aquiles não deixa que eles se cresçam para mim, nessa parte tenho que dizer que ele cuida muito bem de mim.
Tem uns clientes que frequentam o estabelecimento todos os dias, esses eu já sei todos os gostos e sei exatamente do que eles precisam e querem no momento.
Esse não é o meu trabalho dos sonhos, mas eu não posso dizer que odeio* o que faço aqui. É uma distração bem vinda, mesmo que eu não esteja bebendo e curtindo a noite como os nossos clientes, consigo me divertir com a diversão deles.
Depois do dia que tive hoje, eu não conseguia esconder a minha felicidade, o sorriso não saia do rosto e para os meus clientes mais fiéis isso não passou despercebido.
- Menina, parece que as coisas estão indo muito bem.- disse o senhor Antônio que frequenta o bar desde muito antes de eu começar a trabalhar aqui.
- Sim, finalmente vou conseguir alugar o meu próprio escritório.- eu disse dando um pulinho em êxtase e o senhorzinho não deixou de sorrir.
- Ora que bacana. Me conta mais sobre isso.- era a deixa que eu precisava.
Eu estava louca* para contar a alguém como fui experta hoje e consegui pegar o pequeno a escorregadio do William Castro.
O senhor Antônio ficou bastante impressionado com minha inteligência. Vi seus olhos brilharem e então ele disse.
- Opa, talvez eu possa te apresentar o primeiro caso do seu escritório.- disse-me ele, fazendo todo o meu corpo se arrepiar.
Era tudo o que eu queria. Um caso para trabalhar, nem que fosse pequeno, mas eu queria a experiência de exercer a minha profissão. Quero ter a adrenalina de um julgamento. É tudo que eu mais quero fazer.
- O que o senhor quer dizer com isso?- tentei não desmontar o quanto aquilo era excitante para mim, porém minha voz me dedurou, fazendo o senhor Antônio sorrir timidamente.
- É que eu conheço um rapaz de ótimo coração, ele vem de uma família importante empresarial. Você deve conhecer, se chama Dimitri Damaceno.- estava empolgada até esse entender de quem se tratava, e aí as minhas expectativas desapareceram.
O caso do que o senhor Antônio falava era nada mais nada menos do que o caso mais famoso do país. Dimitri Damaceno, filho de falecida* Karen Damaceno. Sua família é conhecida desde que o pai do falecido* marido de Karen construiu sua primeira casa de show Damaceno D’luxe na Barra da Tijuca, que foi umas das primeiras casa de festas do Rio. Logo seu negócio se espalhou para todo o estado, fazendo a família Damaceno acumular uma fortuna, e assim expandir seus negócios para vários outros tipos de empresas.
Caetano Damaceno se casou com Karen, que depois de um tempo de casados, descobriram que não poderiam ter filho e assim resolveram adotar. Dimitri era apenas uma criança quando foi adotado pelos Damaceno’s e provavelmente nem se lembra da sua vida de antes. Por muito tempo foram uma família de elite inalcançáveis, era difícil vê-los em tabloides ou alguma notícia r**m sobre eles. Sua riqueza era impressionante e admirável, até que Caetano foi vencido pelo câncer* de pâncreas que o levou a morte*. Karen ficou sozinha com o filho durante 5 anos e então se casou novamente.
Flávio T’chelle, herdeiro da marca de macarrão T’chelle. Era alguns anos mais velho que Dimitri quando se casou com Karen. Eles viveram durante 2 anos e então Karen teve uma morte* súbita*. E desde então o nome das duas famílias não saem mais dos noticiários policiais.
Flávio sofreu um atentado e prestou queixa contra Dimitri de ter tentado o matar*. A defesa de Dimitri foi incrivelmente massacrada*, e ele foi acusado de tentar ficar com toda a fortuna da sua mãe, sem dividir com Flávio que com o casamento de comunhão de bens, tinha direito a uma parte de tudo que era de Karen.
O garoto que era adotado e não compartilhava do sangue de Karen, perdeu toda a herança com uma vitória extraordinária da defesa de T’chelle.
Depois de perder tudo e ainda ser preso* por tentativa de homicídio, Dimitri cumpriu sua pena e saiu da cadeia com uma mão na frente e outra atrás. Anos depois, Dimitri saiu em condicional e arrumou um bom emprego, ele estava correndo atrás dos bens que perdeu na briga na justiça com Flávio, até que foi acusado de estupro* por uma universitária de economia, como se não bastasse tudo aquilo que já lhe tinha acontecido.
- Não, não faz essa cara.- diz Antônio vendo o meu desânimo.
- Essa é uma causa perdida Senhor Antônio, Dimitri não é mais réu primário. Sua conduta já foi questionada quando foi acusado de assassinato. Ele não vai conseguir fugir da acusação.- eu lhe digo secando o balcão.
- Conseguirá se você provar que ele é inocente.- diz me desafiando.
- O problema é que eu não acho que ele seja.- digo com uma sobrancelha levantada para ele.
- Mas a senhorita deve ter aprendido na faculdade, que todos somos inocentes até que se prove ao contrário.- diz com um notório sorriso e eu balanço a cabeça.- veja minha cara, o rapaz sofreu demais, perdeu toda a herança que sua mãe lhe prometera desde pequeno, cumpriu pena por algo que não fez, e está a cova dos leões por outro crime que o acusam sem provas.- diz ele com convicção e eu me interesso.
- E por que o senhor tem tanta certeza que ele é inocente?.- pergunto curiosa. Senhor Antônio coça o topo de sua cabeça quase careca.
- Intuição.- diz receoso e eu dou uma pequena gargalhada.
- Intuição não ganha causa senhor Antônio.- digo a ele ainda organizando o balcão.
- Minha filha apenas pense no caso, ele já está desgostoso e desanimado, o rapaz diz que não quer nem mais viver, ele está sem esperanças.- tenta me convencer.
- O senhor não acha que a desesperança dele é um sinal de culpa?- o provoco olhando por baixo dos meus cílios e ele imediatamente n**a*, balançando a cabeça incansavelmente.
- Não não, claro que não. O problema é que ele não consegue advogado. Ele até consegue, mais não demora muito para que todos eles larguem o caso. Mais não antes de tentarem fazê-lo confessar o crime*, mesmo o coitado alegando inocência.- diz com a maior certeza e aquilo acende uma chama dentro de mim, que não passa despercebido por Antônio.- apenas de uma olhada nesse caso, você verá que muitas coisas estão erradas. Talvez você seja a última chance desse rapaz.- ele planta a semente no meu cérebro.
Eu não digo mais nada, não quero lhe dá esperanças. Esse caso pode acabar com a minha carreira antes mesmo de começar. Um caso tão famoso como esse, ficará para sempre na memória dos cuidadões dessa cidade, assim como foi o antigo julgamento. Mas o senhor Antônio fez a curiosidade bater em mim.