Pré-visualização gratuita CAPÍTULO 1 – A ÚLTIMA CHAVE
Naya
O corredor do prédio parece mais longo hoje. Cada passo ecoa como se me lembrasse do quanto estou cansada. O salto da sandália está gasto, o crachá da empresa ainda pendurado no pescoço, e meu corpo inteiro parece pesar uma tonelada. Trabalho em dois turnos, um no setor de manutenção administrativa, outro no estoque, mas ainda sinto que nada do que faço é o bastante.
Quando abro o portão de casa, o rangido me traz uma lembrança distante do meu pai rindo, dizendo que um dia trocaria a dobradiça. Ele dizia isso toda vez que o portão reclamava. Só que ele nunca teve tempo de cumprir a promessa.
Respiro fundo e empurro a porta.
— Mãe, cheguei! — anuncio, tentando soar animada.
O som da televisão vem fraco da sala, mas há algo errado. Um silêncio tenso, pesado, paira no ar. Quando entro, o coração dispara. Dois homens estão ali. Um deles, alto e com terno escuro, folheia alguns papéis. O outro encosta no sofá, mascando chiclete com impaciência.
No meio deles, Aaron está ajoelhado. Meu irmão, o mesmo que sempre teve o sorriso mais fácil do mundo, agora chora feito uma criança perdida.
— Aaron? — minha voz sai trêmula. — O que está acontecendo?
Ele levanta o rosto, olhos vermelhos, o queixo tremendo.
— Eu tentei… juro que tentei pagar, Naya… mas eles... — a voz dele quebra — ...eles tomaram a casa.
— Tomaram o quê? — pergunto, sem acreditar.
O homem de terno estende o papel em minha direção com frieza.
— Ordem de tomada de posse. Seu irmão assinou os direitos de penhor. Não houve ressarcimento dentro do prazo. A propriedade agora pertence aos credores.
Meu estômago se contrai. Levo uns segundos para entender o que estou lendo. O documento é real. A casa... nossa casa... foi usada como garantia de dívida.
Meu olhar corre até minha mãe, sentada na cadeira de rodas perto da janela. Ela assiste à cena em silêncio, os olhos marejados.
— Eu... eu posso pagar. Só preciso de tempo — tento argumentar, a voz embargada.
— Dois dias — responde o homem do chiclete. — Depois disso, a gente volta com um caminhão. Se vocês ainda estiverem aqui, a desocupação vai ser feita à força.
Aaron solta um soluço sufocado, abaixando a cabeça.
Quando os dois saem, o som da porta batendo parece um tiro.
Por alguns segundos, o tempo congela. A poeira dança na luz fraca da lâmpada, e o ar parece pesado demais pra respirar.
— Aaron, quanto você devia? — pergunto, tentando manter a calma.
— Eu não sei... — ele passa as mãos no rosto. — Eu só queria limpar o nome, pagar um cara que me ameaçou. Eu achei que ia ganhar no jogo e...
— Você apostou a casa?! — minha voz sai num grito, e sinto lágrimas queimando meus olhos. — A casa do papai?!
Ele não responde.
Viro para minha mãe. Ela tenta mover a mão, mas o esforço é inútil. Uma lágrima escorre pelo rosto dela em silêncio. Aquilo me mata mais do que qualquer coisa.
Me ajoelho ao lado dela e pego sua mão fria.
— Vai ficar tudo bem, mãe. Eu prometo que vou resolver.
Ela tenta dizer algo, mas seu corpo não obedece. Apenas aperta meus dedos de leve, como se ainda acreditasse em mim, e esse toque é o suficiente para me fazer desabar.
Não posso ficar parada. Não posso deixar tudo acabar assim.
Subo as escadas correndo até o quarto do meu pai. A chave antiga ainda está pendurada no prego ao lado da porta. Eu lembro do dia em que ele a entregou pra mim, dizendo que “toda casa precisa de alguém que cuide dela”. Aquilo parecia simbolismo de família, segurança… agora é apenas um ferro frio na minha palma.
O quarto ainda tem cheiro dele, tabaco fraco, madeira encerada. Tudo ali parece rir de mim, como se eu tivesse falhado com todos.
Abro a gaveta da escrivaninha, reviro papéis, contas antigas, promessas que nunca se cumpriram. Nada que possa ajudar.
Aaron aparece na porta. O rosto dele está inchado, os olhos sem foco.
— Me desculpa, Naya. Eu não queria…
— Cala a boca. — A minha voz sai seca. — Eu não posso ouvir desculpas agora.
Ele engole em seco e sai.
Fico ali parada, olhando para as paredes cheias de fotos. Eu, Aaron e papai na praia. A cadeira de rodas de mamãe no fundo da imagem, coberta por um lençol florido. Tudo parecia tão simples naquela época.
Me sento no chão e deixo as lágrimas caírem. O barulho do vento passando pela janela me acompanha, como se fosse um lamento.
Horas se arrastam. O relógio avisa que já passa da meia-noite, mas o sono não vem. Desço novamente para a sala onde mamãe está. Ela cochila de leve, a cabeça pendendo para o lado. Pego uma coberta e coloco sobre ela.
Depois, fico olhando para as fotos sobre o móvel, o casamento deles, meu primeiro diploma, Aaron sorrindo com um troféu escolar. Pego a chave velha e aperto contra o peito. É tudo o que restou.
Sinto uma raiva profunda, quente, subindo pelo corpo. Uma mistura de desespero e medo. Se eu não fizer nada, vamos pra rua. Mamãe não pode viver sem os aparelhos, sem a cama hospitalar, sem o suporte.
Eu não posso deixar nossa história acabar aqui.
Olho pela janela. Lá fora, o céu está sem estrelas, coberto por nuvens grossas. Parece o reflexo do que vem pela frente.
Sento no chão, encosto as costas na parede e fico ali, observando o amanhecer começar a clarear o horizonte.
Acordo horas depois com o barulho de passos. Aaron entra na sala, segurando duas xícaras de café.
— Trouxe pra você. — Ele tenta um sorriso fraco.
Aceito sem dizer nada. O café está amargo, mas aquece a garganta.
— Talvez a gente consiga ajuda de alguém... — ele arrisca.
— De quem, Aaron? — pergunto, seca. — De quem ainda se importa com a gente?
Ele se cala, e o silêncio volta a dominar o ambiente.
Quando o relógio marca sete e meia, a luz invade as cortinas. Eu me levanto, guardo a chave no bolso e olho para a porta.
A casa parece me observar, como se soubesse que estou prestes a fazer uma escolha que vai mudar tudo.
Acaricio a fechadura com a ponta dos dedos, respirando fundo.
— Se eu tiver que vender minha alma… — sussurro, firme, sentindo as palavras vibrarem no peito — …eu vendo.
E então saio, levando a última chave comigo.