O Círculo de Ferro

1148 Palavras
O sucesso do lançamento da fusão limpa transformou Seraphina e Julian nos árbitros da geopolítica global. O seu poder era inquestionável, mas o preço era a vigilância incessante. Julian sabia que a única maneira de proteger o seu monopólio e a sua família era criar uma estrutura de segurança que operasse acima das leis internacionais. Julian estabeleceu o Círculo de Ferro (Iron Circle), uma organização privada de segurança e monitorização de alta tecnologia, sediada em locais secretos e financiada inteiramente pelo Égide Kaine. O seu propósito era patrulhar o uso da tecnologia de fusão, detetar quaisquer tentativas de desvio do subproduto e garantir a dependência contínua dos clientes em relação ao hardware de manutenção do Égide. O Círculo de Ferro era o braço de coerção da benevolência de Kaine-Vance. Seraphina supervisionou a interface legal e diplomática, usando o seu capital social para normalizar a presença do Círculo de Ferro. Ela apresentou-o ao mundo não como uma milícia privada, mas como uma agência de segurança energética global, essencial para evitar a proliferação. A fundação do Círculo de Ferro trouxe uma nova camada de intensidade à sua parceria. Seraphina e Julian passavam noites inteiras a definir as regras de engajamento, a sua proximidade nas tensões da guerra fria a servir como a sua forma de i********e. Uma noite, no home office, eles estavam a debater a lista de alvos de monitorização para o Círculo de Ferro. Seraphina estava preocupada com as implicações éticas de espionar nações aliadas. — Nós estamos a traçar uma linha muito ténue, Julian. Se formos apanhados a espionar a Alemanha, a nossa reputação de gatekeepers cairá. Julian parou de analisar os dados e virou-se para ela. Ele não tentou dominá-la com a lógica; ele a encarou com a verdade. — A reputação é uma variável mutável. O controlo é absoluto. Eu sei que você odeia a sujidade, Seraphina. Você quer a vingança limpa, a vitória limpa. Mas a única maneira de proteger o nosso legado e a Aurora é abraçar a sujidade que mantém a ordem. Julian aproximou-se e gentilmente pegou no seu queixo, forçando-a a olhar para ele. — O nosso amor não está nos contos de fadas, Seraphina. Está nesta sala, na nossa capacidade de partilhar o peso de ser o m*l necessário para garantir o bem. Eu assumo 80% da culpa, se isso a fizer dormir. Mas eu preciso que você aceite que é necessário. Seraphina fechou os olhos e recostou-se no seu toque. O seu amor não era sobre flores ou gestos românticos; era sobre a total aceitação da escuridão que o outro carregava, e a partilha do fardo. — O meu amor por você não é ingénuo, Julian. É estratégico. Eu sei que você me protegerá de mim mesma, assim como eu o protejo do excesso de imprudência. Continue a monitorização. Mas eu escolherei os alvos para evitar a autodestruição. O beijo deles foi um selo deste novo pacto: uma aceitação mútua da sua função como arquitetos e carrascos do mundo. O seu poder criou inevitavelmente o seu maior rival: não uma corporação, mas uma Organização Sombra chamada "Prometeu Desacorrentado". Esta organização clandestina, formada por antigos magnatas da energia, engenheiros russos exilados e anarquistas digitais, tinha um único objetivo: roubar a tecnologia de fusão do Égide Kaine e libertá-la globalmente, desmantelando o monopólio Kaine-Vance. O Prometeu Desacorrentado não era motivado pelo lucro, mas por uma ideologia radical de "energia livre para todos", um conceito que era um anátema para a filosofia de controlo de Seraphina e Julian. O primeiro ataque do Prometeu foi sutil: hacking coordenado contra as redes de distribuição de eletricidade na Europa que usavam a tecnologia do Égide. Não causou falhas massivas, mas plantou sementes de desconfiança na estabilidade do fornecimento. Seraphina viu o perigo de imediato. — Eles não querem o nosso dinheiro, Julian. Querem a nossa legitimidade. O contra-ataque exigiu uma resposta que fosse além do Círculo de Ferro. Exigiu o envolvimento de Aurora. Aurora, agora com oito anos e a lidar com o seu isolamento forçado, estava a atingir o auge da sua formação em segurança. Seraphina e Julian decidiram que era hora de o seu primeiro "teste de campo" real, um risco calculado que Julian tinha de engolir. O teste era uma missão de deteção nos laboratórios do Égide Kaine em Silicon Valley. O Prometeu Desacorrentado estava a tentar instalar um malware para obter acesso à chave de controlo de manutenção global. Seraphina levou Aurora para o centro de pesquisa sob um disfarce de equipa de auditoria. A Aurora estava ligada a um headset de comunicação direta com Seraphina e Julian (que monitorizavam a partir de Nova York). — O malware foi plantado na rede de servidores N.º 4, por uma porta lateral deixada por um engenheiro da nossa equipa. A sua missão é isolar e neutralizar a ameaça em 15 minutos, antes que ela se espalhe — Seraphina instruiu Aurora, a voz calma no headset. Aurora, vestida com um pequeno fato de engenheira, sentou-se à frente de um terminal. Ela não estava a jogar um simulador; ela estava a intervir num sistema real. O stress era imenso, mas o treino de Seraphina havia-a preparado. Ela trabalhou com uma velocidade surpreendente. O malware era complexo, concebido para imitar uma atualização de segurança. Mas Aurora aplicou a sua lição de Vance: a lógica do caos. — O código é demasiado elegante, Mãe. É um código de Prometeu. Eles usaram uma linguagem de programação que é desnecessariamente complexa para uma simples atualização. É a vaidade do hacker — Aurora analisou. Em 12 minutos, Aurora encontrou o vetor, isolou o servidor e instalou um firewall de reversão que não apenas neutralizou o ataque, mas também plantou um beacon para rastrear a origem do ataque do Prometeu Desacorrentado. Seraphina e Julian, observando o progresso no penthouse, explodiram num breve e intenso momento de júbilo partilhado. — Ela é a nossa obra-prima, Seraphina! — Julian exclamou, abraçando a sua esposa com uma força protetora. O seu orgulho era o seu amor mais puro. — Ela é melhor do que nós, Julian. Ela é mais rápida, e tem o nosso discernimento ético, mas com menos cinismo — Seraphina respondeu, o seu sorriso era o único que ele via que não era estratégico. Aurora regressou à Nova York, vitoriosa e exausta. O teste de campo havia reafirmado a crença dos seus pais: o seu treino era o único caminho. A presença do Prometeu Desacorrentado, no entanto, garantiu que a sua nova vida de gatekeepers seria uma guerra constante. Seraphina e Julian sabiam que a sua aliança seria constantemente testada, mas a sua vitória sobre o caos interno e externo reafirmava o seu contrato inquebrável, um contrato que ia além do dinheiro e da vingança, e que era agora cimentado pela segurança do seu legado. O Círculo de Ferro estava pronto. A guerra pelo controlo da energia global tinha acabado de começar.
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