Continua do capítulo anterior
André, tentando apaziguar a situação, sugeriu:
— Talvez seja melhor que todos nós nos afastemos um pouco dessa tensão e repensemos com calma. Manuela, se você precisa de um tempo para pensar, tudo bem. Não vamos forçar a assinatura neste exato momento.
O advogado assentiu:
— Podemos adiar a assinatura por alguns dias, para que todos possam refletir sobre os termos. Entretanto, é importante que haja uma decisão em breve para não comprometer os interesses legais.
Lois, entretanto, não demonstrava paciência:
— Não adianta ficar enrolando, Manuela. Quanto mais tempo você perder, mais ficará claro que esse acordo é o melhor caminho para o Collin. E, francamente, não estou nem aí para os seus “direitos”.
Eu senti uma onda de raiva misturada com tristeza. Era como se, a cada palavra proferida, um pedaço de mim se desfizesse. Levantei-me lentamente, encarando Lois com uma determinação que eu nem sabia que possuía:
— Se você acha que eu sou interesseira, então fique à vontade para me julgar. Mas saiba que não serei refém de acordos que me desumanizam. Se esse é o preço que se quer pagar pela “segurança” do Collin, então que seja. Mas eu não vou aceitar que minha dignidade seja arrastada pelo caminho.
Collin aproximou-se, segurando-me pelos ombros:
— Manuela, calma. Eu sei que isso é doloroso, mas precisamos encontrar uma saída que funcione para todos. Por favor, não lute contra algo que, no fundo, também me assusta.
— Eu não estou lutando contra você, Collin. Estou lutando contra a injustiça, contra o fato de que, no fim, serei deixada de lado – respondi, com lágrimas nos olhos, mas com a voz firme.
O ambiente ficou pesado, e o silêncio se instalou novamente, interrompido apenas pelo distante som das ondas. André, tentando amenizar a tensão, falou com voz calma:
— Vamos nos dar um tempo. Todos nós precisamos refletir. Não quero que essa reunião acabe em brigas irreparáveis. Manuela, Collin, vamos marcar uma nova conversa para, juntos, repensar esses termos.
Eu acenei com a cabeça, embora meu coração estivesse em frangalhos. Ainda assim, sabia que precisava ser forte. Ao final daquele encontro, enquanto os irmãos de Collin se retiravam, ouvi Lois proferir uma última frase, com o tom arrogante que sempre o caracterizara:
— Que fique claro: se não aceitar as condições, você nunca fará parte desse “jogo” de verdade, Manuela.
Naquela noite, sozinha na varanda, enquanto o mar cantava sua melodia incessante, refleti sobre tudo o que acontecera. Eu havia sido confrontada não apenas com o peso de um acordo que me despojaria de meus direitos, mas também com a hostilidade de um homem que se achava superior, que me via como um mero interesse a ser explorado.
Minhas mãos ainda tremiam ao lembrar dos diálogos, e o gosto amargo das acusações de Lois se misturava ao sal do oceano. Senti uma revolta interna crescer, mas também uma determinação de não me deixar ser definida por aqueles que duvidavam do meu valor.
— Eu não serei a vítima dessa história – murmurei para mim mesma, enquanto observava o céu noturno se abrir em um manto de estrelas. — Lutarei pelos meus direitos, pelo que acredito ser justo.
Ao amanhecer, Collin me procurou novamente, desta vez com um olhar que misturava arrependimento e esperança. Sentamos juntas na sala de estar, o ar carregado de uma tensão que era ao mesmo tempo familiar e insuportável.
— Manuela, eu sei que tudo isso está longe de ser o ideal – começou ele, com a voz baixa. — Eu sinto muito por tudo o que você tem que suportar. Não quero que se sinta diminuída ou desvalorizada.
— Collin, eu também sofro com isso – respondi, os olhos marejados. — Mas não posso abrir mão da minha dignidade. Esse acordo, do jeito que está, me faz sentir como se não tivesse nada. E, por favor, não me venha com desculpas sobre medo do passado. Não é justo para mim.
Ele suspirou, os ombros caídos:
— Eu entendo. Eu realmente entendo. Mas, por favor, tente ver que, para mim, isso é a única forma de garantir que não serei novamente enganado. Não quero ter que enfrentar aquela dor outra vez.
— E eu não quero ser tratada como um objeto descartável – retruquei, tentando manter a calma. — Se vamos seguir com isso, precisamos construir algo juntos, onde haja reciprocidade e respeito. Não posso aceitar que tudo se resuma a um papel que me despoja de qualquer direito.
Por alguns instantes, ficamos em silêncio, apenas ouvindo o som distante das ondas. Finalmente, Collin falou, com uma voz mais resignada:
— Então, o que vamos fazer? Como podemos chegar a um acordo que satisfaça ambos?
Eu olhei para ele, com o coração apertado, e respondi:
— Precisamos buscar uma nova redação para esse contrato. Um que proteja a segurança de nossos filhos, sem sacrificar minha dignidade. Se nossos advogados puderem encontrar um meio-termo, talvez possamos evitar que esse acordo seja a prova de que um de nós não vale nada.
Collin assentiu, e, pela primeira vez em muito tempo, senti um raio de esperança. Talvez, juntos, pudéssemos transformar aquela situação em algo menos c***l, menos desumano.
Na tarde seguinte, marcamos uma nova reunião com os advogados. Desta vez, o clima era de tensão, mas também de uma determinação mútua de buscar um entendimento. Em uma sala de reuniões com vista para o oceano, entre papéis, café e olhares desconfiados, iniciamos as negociações.
— Senhoras e senhores, nossa proposta inicial é a seguinte: manter as garantias para o Collin, mas incluir uma cláusula de proteção que assegure que, em eventual dissolução da união, Manuela terá direito a uma compensação mínima – um valor que possa, ao menos, reconhecer o que ela construiu durante esse tempo – disse o advogado de Collin, tentando demonstrar flexibilidade.
Lois, que havia insistido em estar presente, não perdeu a oportunidade de comentar com um sorriso sarcástico:
— Ah, claro. Porque, obviamente, uma interesseira como ela merece algo, não é mesmo?
Não pude deixar de contrapor, com a voz firme:
— Não sou interesseira. Tenho lutado todos os dias para ser reconhecida como pessoa, como alguém que tem valor além de um mero papel assinado. Se houver algo que me reconheça, que seja justamente isso.
O advogado responsável pela redação do novo acordo assentiu e sugeriu:
— Proponho então que, em vez de uma renúncia total, possamos estipular uma cláusula de "participação mínima", onde Manuela, em caso de divórcio, receberá uma quantia fixa que represente o mínimo de reconhecimento pelo tempo e dedicação dedicados à união, sem desvirtuar a proteção dos interesses de Collin.
Collin olhou para mim, com um misto de alívio e apreensão. André, sempre o mediador, comentou:
— Isso me parece razoável. Estamos buscando um equilíbrio que não deixe nenhuma das partes se sentindo humilhada ou desprotegida.
Mas Lois, com sua voz áspera, replicou sem hesitar:
— Vocês estão brincando, não é? Um valor fixo? Vocês acham que isso compensa o fato de que, no fim das contas, ela não terá nada a ver com o que é realmente importante? Não, o acordo precisa ser claro: Manuela não terá absolutamente nada se a união se dissolver.
Minha respiração se acelerou com aquelas palavras. Não pude conter um suspiro de revolta, e logo interrompi:
— Isso é ridículo, Lois. Vocês estão propondo que eu seja reduzida a nada, enquanto tudo o que eu fiz – mesmo que por obrigação – não terá valor algum. Não aceito isso!
O advogado de Collin levantou a mão, pedindo calma:
— Senhor Lois, precisamos tratar esse assunto com seriedade. O objetivo é proteger ambas as partes. Se há discordância, vamos discutir os números e os termos.
Lois cruzou os braços e, com um sorriso debochado, disse:
— Claro, vamos discutir números. Mas a verdade é que, se ela não aceita o acordo como está, não há futuro para essa união.
Collin, com os olhos brilhando de lágrimas, tentou intervir:
— Lois, por favor, seja razoável. Estamos tentando encontrar uma solução justa para todos. Manuela, eu te amo, e não quero que você sinta que está sendo desvalorizada.
Eu o encarei, o coração dividido entre o amor e a indignação:
— Collin, eu também te amo. Mas não posso me aceitar se, no fundo, esse acordo me transforma em alguém sem valor. Se vamos construir algo, que seja com respeito mútuo, não com imposições que me destroem por dentro.
A discussão se estendeu por horas, com cada palavra pesada de emoções, acusações e tentativas de encontrar um meio-termo. Ao final do dia, todos estávamos exaustos, mas, surpreendentemente, surgiram alguns pontos de consenso. O novo acordo seria revisado para incluir uma cláusula que garantisse a Manuela uma compensação mínima – um valor que não resolveria todos os problemas, mas que, ao menos, reconheceria sua dedicação e esforço.
Enquanto os advogados anotavam os novos termos, Collin aproximou-se de mim, sussurrando:
— Manuela, eu sei que isso não é perfeito, mas estou tentando, de verdade, encontrar uma saída que nos proteja dos erros do passado. Por favor, confie em mim.
Eu toquei suavemente sua mão e respondi:
— Collin, confio em você, mas também preciso confiar em mim mesma. Não posso ser sempre a vítima, sempre a desvalorizada. Se formos seguir em frente, que seja porque, mesmo com todos os nossos medos e dores, há um respeito real entre nós.
Naquele dia, enquanto o sol se punha sobre o oceano, vi pela janela o reflexo de um novo começo – incerto, doloroso, mas também repleto de possibilidades. O acordo pré-nupcial, com todas as suas cláusulas e ressalvas, simbolizava não apenas um compromisso legal, mas a tentativa de transformar uma relação marcada por desconfianças em algo que pudesse, aos poucos, se aproximar do que um dia sonhamos ser o amor e o respeito mútuo.
Porém, mesmo com o novo acordo em negociação, o ambiente continuava carregado de hostilidade, especialmente vinda de Lois, cuja voz continuava a ecoar com desdém:
— Se vocês acham que podem mudar o que está escrito, só vão se decepcionar. No fim, nada muda: ela nunca terá nada de valor.
Eu, com os olhos fixos no horizonte, respondi em silêncio, mas com a convicção de que, mesmo que o mundo tentasse me reduzir a nada, eu jamais permitiria que isso definisse quem eu era. A luta por dignidade e respeito seria a minha bandeira, mesmo em meio à tempestade de acusações e acordos frios.
Enquanto a reunião se encerrava e os irmãos de Collin se retiravam, fiquei sozinha com meus pensamentos, ouvindo o som inconstante do mar e sentindo, pela primeira vez em muito tempo, a determinação de reescrever a minha própria história. E, mesmo que o caminho à frente estivesse repleto de desafios e hostilidades, eu sabia que a verdade e a coragem seriam os meus guias rumo a um futuro onde, finalmente, eu pudesse ser reconhecida pelo que realmente valia.