Manuella Cardoso
Eu, ainda sentia o gosto amargo da noite anterior – não só pelo uísque derramado nas dúvidas de Collin, mas também pelo peso de uma responsabilidade que me fora imposta sem piedade. Cabo Verde, com suas brisas salgadas e o constante murmúrio do oceano, sempre me lembrava que, por mais que tentássemos fugir do passado, ele sempre voltava para nos assombrar. E agora, com a chegada dos irmãos de Collin, tudo parecia estar prestes a se transformar em uma tempestade inevitável.
Era uma manhã fresca, o sol m*l despontava no horizonte tingindo o céu de tons alaranjados e rosados. Eu preparava um café na pequena cozinha do apartamento que, há pouco, fora cenário de tantas discussões e promessas vazias. Ainda com o coração pesado, recebi uma mensagem no celular: Collin havia informado que seus irmãos, incluindo o infame Lois, estariam chegando naquela tarde para tratar de alguns “assuntos pendentes”.
— Hoje eles chegam. Prepare-se, Manuela – dizia a mensagem de Collin, com um tom de resignação que já se tornava comum em suas mensagens.
Sabia que aquela reunião não seria apenas mais um encontro familiar; seria a confirmação de um acordo que, de tantas vezes, me fazia sentir como uma peça descartável num jogo de interesses. Um acordo pré-nupcial, onde, em uma cláusula c***l, estava escrito que, em caso de divórcio, eu não teria direito a nada.
O relógio marcava 14h quando a campainha tocou. Minhas mãos tremiam levemente enquanto eu abria a porta. Do lado de fora, dois homens altos e de semblantes fechados se apresentavam. Um deles, com os cabelos grisalhos bem aparados e olhar cortante, era claramente o irmão mais velho de Collin; o outro, com um sorriso cínico já estampado no rosto, era ninguém menos que Lois.
— Boa tarde, Manuela. Prazer em finalmente conhecê-la – disse Lois, com um tom que beirava a ironia, enquanto apertava minha mão com uma firmeza desconcertante.
— Boa tarde – respondi, tentando manter a compostura, embora uma pontada de hostilidade já começasse a se formar em meu peito.
O irmão mais velho de Collin, que se apresentou como André, sorriu cordialmente, mas seus olhos observavam-me com uma desconfiança velada. Logo, Collin chegou, parecendo visivelmente desconfortável com a tensão que pairava no ar.
— Vamos, entrem – disse Collin, conduzindo-nos para a ampla sala de estar com vista para o mar. O ambiente estava preparado para uma conversa que, eu pressentia, seria decisiva para o nosso futuro.
Após algumas formalidades e cumprimentos frios, o assunto principal foi abordado: o tão aguardado acordo pré-nupcial. Collin explicou, com a voz baixa e hesitante, que aquele documento era uma condição indispensável para prosseguirmos com a união – pelo menos, na forma de um “arranjo” para a criação dos filhos que agora se faziam presentes em nossas vidas.
— Manuela, precisamos resolver isso de uma vez por todas – disse Collin, seus olhos buscando os meus com uma mistura de cansaço e determinação. — Não se trata de um casamento por amor. É apenas a formalização de um compromisso para garantir que os bebês tenham um pai, e que eu possa ter a certeza que preciso.
Lois não perdeu tempo em soltar seu comentário cortante, zombando abertamente:
— Ah, Collin, sempre tão romântico… E você, Manuela, não passa de uma interesseira. É isso que você é: alguém que só aparece quando há alguma vantagem a ser obtida. Afinal, veja bem, por que mais você aceitaria assinar um acordo que te deixa sem absolutamente nada?
Senti meu sangue ferver com aquelas palavras. Em meu interior, lutava contra a vontade de replicar, de gritar que não era aquilo que eu queria, que jamais buscara vantagens com aquele relacionamento conturbado. Mas sabia que discutir ali, naquele momento, não traria nenhum benefício.
— Não estou aqui para obter vantagens, Lois. Estou aqui para assumir uma responsabilidade – respondi com voz firme, tentando esconder o tremor que ameaçava se intensificar.
André, com um semblante mais conciliador, tentou mediar:
— Vamos manter a calma, por favor. Estamos aqui para resolver as questões pendentes. Collin, explique logo o que envolve esse acordo.
Collin respirou fundo e abriu uma pasta que trazia consigo uma pilha de papéis oficiais. Com mãos trêmulas, ele começou a ler as cláusulas que já tinham sido previamente redigidas por advogados. Em meio às disposições, a mais dolorosa era a que determinava:
"Em caso de dissolução do vínculo formalizado por meio deste contrato, Manuela não fará jus a quaisquer bens, direitos ou compensações financeiras, sendo desobrigada de qualquer reivindicação patrimonial."
O silêncio se instalou por alguns instantes, pesado como o mar em dias de tempestade. Eu m*l conseguia respirar, os olhos marejados, enquanto ouvia aquelas palavras que, para mim, soavam como um verdadeiro golpe.
— Isso… isso é inaceitável! – exclamei, quebrando o silêncio com a voz embargada. – Como podem esperar que eu aceite ser tratada como se nada valesse?
Lois não poupou mais comentários, e com um sorriso de escárnio, replicou:
— Veja bem, Manuela, você já sabe onde se meteu. Se aceitar, concorda que, se algo der errado, não terá nada. Afinal, você já demonstrou, com suas atitudes, que não é digna de confiança.
Collin interveio, tentando apaziguar a situação:
— Não é questão de ser digna ou não, Lois. Estamos tentando evitar mais dores e confusões no futuro. Eu preciso de segurança para seguir adiante, e esse acordo é parte disso.
Mas eu não conseguia me conter:
— Segurança? – insisti, a voz agora mais alta, enquanto olhava fixamente para Collin – Eu estou sendo tratada como se fosse uma mercadoria, um objeto descartável. Não posso acreditar que, depois de tudo que passamos, você prefira proteger seu patrimônio do que reconhecer o que construímos juntos.
Uma tensão quase palpável tomou conta da sala. André tentou, novamente, mediar:
— Manuela, eu entendo sua indignação. Mas pense: essa é uma forma de garantir que, pelo menos, os filhos tenham uma estrutura legal. Se houver dúvidas, é melhor ter tudo formalizado do que viver na incerteza.
— Formalizado ou não, não me parece justo – replicou eu, com lágrimas escorrendo discretamente. — Eu assumi essa responsabilidade, sim, mas não posso abrir mão de meus direitos, de alguma forma. Não posso aceitar ser completamente desprotegida.
Collin suspirou, passando a mão pelos cabelos. Sua voz agora era carregada de exaustão e conflito interno:
— Manuela, você sabe que essa decisão não foi fácil para mim. Eu também sofro com tudo isso. Mas, se vamos seguir adiante, precisamos de garantias. Eu não posso me arriscar novamente a ser enganado, a ter a mesma dor do passado.
Lois, com um tom sarcástico, acrescentou:
— E você, Manuela, não vai se aproveitar dessa situação? Você sempre teve esse jeitinho de transformar oportunidades em ganhos pessoais. Não se engane, a verdade é que você é uma interesseira nata.
Minha paciência se esgotava. Levantei-me abruptamente da cadeira, o rosto corado e os olhos faiscando de raiva contida:
— Chega, Lois! Cansei de suas acusações infundadas. Eu estou aqui para ser honesta e assumir minhas responsabilidades. Não sou aquela que você pinta nos seus comentários mesquinhos!
O ambiente ficou em completo silêncio por alguns segundos, e todos os olhares se voltaram para mim. Senti o peso de cada palavra, de cada acusação que me atingia como facas afiadas. Ainda assim, reuni forças para continuar:
— Eu não vou assinar um acordo que me transforma em nada, que me tira qualquer direito. Se essa é a condição para continuar essa “união”, então me digam: onde está a humanidade nisso? Onde está o reconhecimento do que realmente somos?
Collin aproximou-se, tentando me acalmar, mas sua voz soava tão perdida quanto a minha:
— Manuela, por favor, entenda. Não se trata de desvalorizar o que você tem. É apenas que… eu preciso me proteger. Já sofri demais. Eu não quero reviver o mesmo erro.
Eu encarei Collin, tentando encontrar nele alguma compreensão, mas por trás da indecisão, via a sombra do passado, a mesma dor que tantas vezes me condenara a duvidar do futuro.
— Eu entendo o seu medo, Collin – disse eu, a voz agora mais suave, mas firme –, mas não posso me sentir menos do que sou. Se esse acordo for o único caminho para você se sentir seguro, então que fique registrado que, se algum dia decidirmos nos separar, eu terei… nada.
O silêncio se instalou novamente. André, que até então observava tudo com um olhar de pesar, falou com voz conciliadora:
— Manuela, vamos tentar encontrar um meio-termo. Não queremos que ninguém saia ferido dessa situação. Talvez possamos rediscutir algumas cláusulas.
Mas Lois não demonstrava a menor intenção de ceder:
— Não há meio-termo. Ou ela aceita como está ou não há acordo. Essa é a verdade. Se ela não quer ficar sem nada, então é melhor repensar toda essa bagunça.
Eu respirei fundo, sentindo o coração apertar com cada palavra que saía. Olhei para Collin, que parecia dividido entre o dever e a paixão, entre o desejo de ser pai e o medo de repetir os erros do passado.
— Collin, eu te amo – finalmente disse, com lágrimas começando a escorrer pelo rosto –, mas não posso me sentir desvalorizada, não posso ser reduzida a uma mera garantia. Se vamos seguir com isso, que seja por amor, ou pelo menos por respeito mútuo. Não posso assinar algo que me tire a dignidade.
Collin baixou os olhos, visivelmente angustiado. Após alguns longos segundos, ele falou, com voz quase imperceptível:
— Manuela, eu… Eu realmente não sei o que fazer. Cada passo parece ser uma armadilha. Eu quero ser o pai que nossos filhos precisam, mas também não quero me perder novamente.
Lois, interrompendo, replicou com desdém:
— Vocês dois estão se enrolando em sentimentos e promessas vazias. Se não há amor, que seja por pura responsabilidade. Mas, Manuela, se você acha que vai sair ganhando disso, está muito enganada. O acordo é claro: nada para você no fim das contas.
Aquelas palavras me atingiram como um golpe. Senti uma mistura de raiva e tristeza, como se tudo aquilo fosse uma traição ao que eu acreditava ser justo. Em um impulso, levantei-me e olhei diretamente para Lois:
— Você não tem o direito de julgar o meu caráter, Lois. Cada um de nós carrega seus fantasmas, suas dores. Mas eu não serei definida por acusações infundadas e por acordos que desumanizam. Eu sou muito mais do que um mero interesse.
O irmão de Collin, André, tentou intervir novamente:
— Estamos aqui para resolver os detalhes legais, não para fazer julgamentos pessoais. Manuela, por favor, vamos discutir isso com clareza. Se você não concorda com os termos, precisamos negociar.
Mas Lois insistia, com o tom ríspido que parecia não ter fim:
— Negociar? Por que negociar se a verdade já está escrita? Se ela não aceita, então não há acordo. É simples assim.
O ambiente estava carregado de tensão. Collin, visivelmente pressionado, finalmente se levantou e, com a voz trêmula, disse:
— Eu preciso de um tempo para pensar. Não podemos forçar um acordo que vá contra os sentimentos de alguém que, de alguma forma, eu amo. Mas também não posso deixar de me proteger.
— Então, o que sugere? – perguntou André, tentando manter a ordem na discussão.
Eu olhei para Collin, com os olhos cheios de lágrimas, mas tentando manter a firmeza que eu sabia que precisava ter:
— Sugiro que repensemos os termos. Não quero um acordo que me reduza a nada. Se for para ter proteção, que seja mútua. Se vamos construir uma família, que seja com base no respeito e na igualdade, não em cláusulas frias que nos separam.
Lois bufou, rindo de forma desdenhosa:
— Respeito? Igualdade? Isso é pura ilusão. No fundo, vocês sabem que, sem um contrato firme, tudo pode desmoronar. Se não for assinado dessa forma, você vai se aproveitar disso, Manuela.
— Não se trata de aproveitamento, Lois! – interrompi, com voz embargada. — Trata-se de reconhecer o valor de cada um. Eu não sou uma mercadoria que se compra e se vende. Se esse acordo significa que eu fico sem absolutamente nada, então que seja discutido e, se possível, revisto.
Collin permaneceu em silêncio, e por um breve momento, o único som era o das ondas batendo na areia distante. André suspirou e, com voz mais calma, propôs:
— Que tal assim: vamos levar esse acordo para análise dos nossos advogados e, se necessário, marcar uma nova reunião para renegociar as cláusulas. Não precisamos decidir tudo agora.
Lois, porém, não parecia disposto a ceder:
— Não adianta enrolar. A verdade é que, se ela não aceita as condições, não há futuro para essa união. Simples assim.
Minhas mãos tremiam ao tentar segurar a dignidade que ainda me restava. Olhei para Collin, que parecia dividido entre o dever e o desejo de evitar mais conflitos, e falei com toda a sinceridade que conseguia reunir:
— Collin, eu assumi essa responsabilidade porque acredito que, apesar de tudo, podemos criar um ambiente decente para os nossos filhos. Mas não vou permitir que me transformem em algo que não sou. Se esse acordo é o preço para a sua segurança, então talvez estejamos perdendo de vista o que realmente importa: o respeito e o cuidado com a vida que se forma a partir da nossa união, mesmo que imperfeita.
Collin fechou os olhos por um instante, e então respondeu, com a voz embargada de emoção:
— Manuela, eu… eu nunca quis te ferir. Mas o medo, a dor do passado, tudo isso me assombra a cada momento. Eu preciso ter certeza de que não vou repetir os erros. E esse acordo, por mais duro que pareça, é o que me dá essa certeza.
— E quanto à mim? – retruquei, quase num sussurro. — Você não confia em mim? Ou é que não confia no que somos capazes de construir juntos?
O silêncio pairou entre nós, e por um instante, o tempo pareceu parar. Eu sentia meu coração dividido entre o amor que um dia tive e a razão que me impelia a lutar pela minha dignidade. Então, a porta se abriu novamente e, com passos firmes, entrou um advogado contratado para formalizar o acordo.
— Boa tarde a todos – disse ele, tentando romper a tensão. — Venho aqui para esclarecer os termos do contrato pré-nupcial e, se for o caso, proceder à assinatura.
Os olhares se voltaram para o documento, que já estava revisado e impresso em papel de alta qualidade. O advogado começou a ler as cláusulas, entre elas a mais c***l:
"Cláusula X: Em caso de dissolução do vínculo formalizado, Manuela não terá direito a qualquer bem, compensação ou indenização, renunciando a quaisquer direitos patrimoniais decorrentes da união."
Enquanto o advogado lia, senti minhas mãos suarem e meu estômago revirar. Collin e seus irmãos observavam em silêncio, e Lois, com um sorriso sarcástico, murmurou:
— Viu só? Tá tudo certo. Nada de surpresas.
Quando a leitura terminou, o advogado olhou para mim e perguntou:
— Manuela, você compreende e concorda com os termos aqui apresentados?
Eu hesitei, os olhos se encontraram com os de Collin, que buscavam em mim alguma resposta, alguma luz. Senti o peso de todas as escolhas e, num impulso, falei:
— Eu compreendo, sim. Mas preciso de um tempo para refletir. Não posso simplesmente assinar algo que me despoje de qualquer direito sem antes pensar nas consequências.
Lois riu com desdém:
— Tempo? Pra que tanto tempo, Manuela? Se não vai assinar, é porque sabe que vai se dar m*l. Você sempre foi assim, sempre querendo tirar vantagem.
— Isso é uma ofensa, Lois! – retruquei, tentando manter a calma. — Eu estou apenas pedindo respeito e a oportunidade de negociar termos que sejam justos para ambas as partes.
Collin, com a voz trêmula, interveio:
— Vamos, por favor. Precisamos de uma solução. Se não for agora, então quando? Essa decisão precisa ser tomada logo, pelo bem das crianças e de todos nós.
André olhou para mim com um misto de compaixão e seriedade:
— Manuela, entendo sua posição. Mas considere que essa formalidade é algo que pode evitar futuros litígios e dores. Talvez seja melhor, pelo menos, assinar este documento provisoriamente e depois renegociarmos.
Eu respirei fundo, sentindo o olhar pesado de Lois e a angústia de Collin. Era como se cada palavra, cada olhar, pesasse toneladas sobre mim. Olhei para o documento, para as letras frias e impessoais, e então, com voz baixa, disse:
— Eu assino este acordo, mas deixo claro que isso não significa que eu desisto de lutar pelos meus direitos. Que, se um dia esse contrato vier a ser usado para me desvalorizar ou me humilhar, terei o direito de buscar justiça. Eu assino por agora, mas não concordo com a total renúncia dos meus direitos.
O advogado fez uma pausa, anotou algo no papel, e então respondeu:
— Certo, faremos uma cláusula adicional para registrar essa ressalva. Contudo, o documento principal mantém-se inalterado quanto à divisão patrimonial em caso de divórcio.
Lois, incapaz de esconder o desdém, comentou:
— Ah, que modéstia, Manuela. Sempre tentando jogar com as palavras para se dar bem, não é? Mas a verdade é que, no fim das contas, você vai sair de mãos vazias.
Collin aproximou-se de mim, segurando minha mão com delicadeza:
— Manuela, por favor… Eu sei que isso não é o que você deseja, mas estou tentando encontrar um equilíbrio. Eu não quero te magoar, nem me magoar. Precisamos de segurança, e esse acordo é um meio para isso.
Eu o olhei, buscando entender se, por trás de toda a rigidez das palavras, havia ainda um espaço para o amor que um dia sonhamos construir. Mas o olhar de Collin refletia apenas o medo do passado e a incerteza do futuro.
— Collin, eu quero acreditar que podemos mudar isso, que um dia não precisaremos de contratos para provar nosso valor um para o outro – falei, com a voz embargada de emoção. — Mas hoje, sinto que estou sendo forçada a aceitar algo que me transforma numa vítima dessa situação.