Collin Morris
O sol já havia se posto em Cabo Verde, e a brisa noturna soprava através da sacada do meu quarto, trazendo consigo o cheiro salgado do oceano. Eu estava sentado na poltrona de couro escuro, um copo de uísque intocado ao meu lado, enquanto esperava a chamada conectar.
Do outro lado da tela, a imagem do meu irmão mais novo, Louis, surgiu. Ele estava em seu apartamento em Paris, os cabelos desalinhados e uma expressão cética estampada no rosto. Assim que a conexão estabilizou, ele cruzou os braços e arqueou uma sobrancelha.
— Então, finalmente decidiu me contar o que está acontecendo? — Ele inclinou a cabeça para o lado. — O que diabos você está fazendo em Cabo Verde?
Eu inspirei fundo, passando a mão pelo rosto antes de responder.
— É complicado.
— Claro que é. — Louis soltou um riso seco. — Você some, aparece num país que nunca mencionou antes e agora me liga com essa cara de quem foi atropelado por um caminhão.
Eu bufei, sabendo que ele não facilitaria as coisas.
— Tem uma mulher.
Louis estreitou os olhos.
— Eu sabia! Quem é ela?
— O nome dela é Manuela.
— E daí? O que tem essa Manuela?
Meu maxilar enrijeceu. Eu não gostava de falar sobre isso, mas meu irmão era insistente.
— Nós passamos uma noite juntos.
— Que novidade! — Louis riu, sarcástico. — E o que há de tão grave nisso?
Eu bebi um gole do uísque, sentindo o líquido quente descer pela garganta.
— Ela está grávida.
O sorriso de Louis desapareceu instantaneamente. Sua expressão mudou para algo entre choque e frustração.
— O quê?
— Manuela está grávida, Louis. De gêmeos.
Ele piscou algumas vezes, como se estivesse processando a informação.
— E você tem certeza de que são seus?
Engoli em seco, sentindo meu estômago revirar. Era a pergunta que eu vinha me fazendo desde o momento em que ela me contou.
— Sim.
— Você fez um teste?
— Não.
— Collin! — Louis exclamou, passando a mão pelos cabelos. — Você enlouqueceu?
— Eu não acho que ela esteja mentindo.
— Você já acreditou nisso antes, e veja no que deu!
Meus punhos se fecharam ao redor do copo. Ele tinha razão, mas eu não queria ouvir isso agora.
— Manuela não é como ela.
— Ah, não? — Louis riu, cínico. — Uma mulher que aparece do nada, diz estar grávida de você e, como num passe de mágica, você decide que vai se casar com ela?
— Não é tão simples assim.
— Claro que não. — Ele balançou a cabeça. — Você sequer conhece essa mulher!
— Eu sei o suficiente.
— O suficiente para casar com ela?
Fiquei em silêncio.
— Você enlouqueceu.
— Eu preciso assumir a responsabilidade.
— Você não precisa se casar com ela pra isso!
Suspirei, esfregando as têmporas.
— Não vou deixar os meus filhos crescerem sem um pai.
Louis soltou um suspiro exasperado.
— Você é tão ingênuo quanto antes.
Minha paciência estava no limite.
— E o que você quer que eu faça, Louis? Ignore os bebês? Fingir que nada aconteceu?
— Eu quero que você pense! Faça um teste de paternidade antes de tomar qualquer decisão.
— Manuela não é esse tipo de mulher.
— Você tem certeza?
Eu não respondi.
— É isso que me irrita! — Louis bufou. — Você está se deixando levar pela culpa, pelo medo, e está prestes a cometer o maior erro da sua vida.
Meu olhar se fixou no fundo do copo.
— Você acha que estou sendo enganado de novo?
Ele hesitou, então disse com seriedade:
— Eu acho que você está sendo ingênuo.
Eu não queria ouvir aquilo.
— Manuela não me pediu nada.
— Ainda.
— Eu a demiti no mesmo dia em que descobri que passamos a noite juntos. Se ela quisesse dinheiro, teria aparecido antes.
Louis estreitou os olhos.
— Então por que só agora ela veio até você?
— Porque descobriu há pouco tempo.
— Collin...
— Já basta.
Ele suspirou.
— Faça um teste antes de se amarrar a essa mulher.
— Eu já tomei minha decisão.
Louis esfregou o rosto, frustrado.
— Você é um i****a.
As palavras dele cortavam-me como lâminas. Eu sabia que, em parte, ele estava certo. Mas a ideia de abandonar os bebês, de deixá-los desamparados, me fazia estremecer.
— Lois, eu sei que as coisas não são perfeitas. Mas esses filhos… eles fazem parte de mim. Eu preciso ser o pai deles, mesmo que as circunstâncias sejam complicadas.
— Reconhecido? — Lois zombou com um tom que misturava incredulidade e raiva. — Você acha que a única forma de ser reconhecido como pai é se amarrando a uma mulher que, para mim, tem intenções duvidosas? Ela é uma interesseira, Collin. Você vai se prender a ela sem ter certeza se não está caindo numa armadilha?
Minha respiração ficou pesada, e tentei explicar:
— Eu conheço Manuela de uma forma que você não consegue entender. Ela tem defeitos, claro, mas isso não quer dizer que tudo o que ela faz seja para me enganar.
Lois não se conteve:
— Ah, claro. Você está tão cego pelo que sente que não vê os sinais! Lembra daquela vez em que você foi enganado? Eu não quero ver você se repetir o mesmo erro. Faça um teste de paternidade antes de tomar qualquer decisão.
Senti um calafrio percorrer minha espinha. Aquela sugestão, embora sensata, me lembrava da ferida que ainda latejava em mim. Mas, mesmo assim, tentei manter minha convicção:
— Eu já te disse, Lois. Eu confio que são meus. Não quero reviver essa dor.
— Confiança? Collin, essa palavra perdeu o sentido para você. Você já foi vítima de uma farsa, e não quero ver você repetir esse erro. Se você se casar com ela agora, estará se entregando a uma promessa que pode ser vazia, apenas para evitar encarar a verdade.
Eu fechei os olhos, tentando afastar as memórias daquele passado sombrio. O som do mar, o sussurro da brisa – tudo parecia insistir para que eu tomasse uma decisão racional, mas meu coração insistia em lutar contra a razão.
— Lois, eu entendo sua preocupação. Mas, por favor, tenta ver isso do meu lado. Eu me sinto responsável por esses filhos. Mesmo que eu tenha medo, preciso dar esse passo.
A voz de Lois ficou mais severa:
— E se você estiver errado, Collin? E se essa mulher estiver te usando, assim como a outra te usou? Você não pode se dar ao luxo de ser enganado de novo.
— Eu… — hesitei, sentindo o peso de cada palavra dele. — Não posso fugir dessa responsabilidade. Esses gêmeos são parte de mim, e eu preciso estar presente na vida deles.
— Mas a que custo? — Lois retrucou, com um tom ácido. — Você vai se casar com ela? Mesmo que não haja amor? Ou vai se limitar a assumir a paternidade, enquanto continua a se enganar?
Meu coração apertou com a dureza da pergunta. Eu sabia que o casamento com Manuela não seria a solução mágica para todos os problemas, mas a ideia de vê-la se tornar a figura que me unisse a esses filhos me fazia sentir, de alguma forma, que eu estava correndo para um precipício.
— Eu não sei se o casamento é o caminho — confessei, a voz embargada pela incerteza. — Talvez seja apenas uma forma de formalizar a paternidade, de dar uma aparência de normalidade. Mas não posso fingir que há algo além disso.
Lois deixou escapar um suspiro, e por um breve momento o silêncio se instalou. Então, com a voz carregada de autoridade fraternal, ele continuou:
— Collin, seja honesto contigo mesmo. Se o casamento não é o que você deseja, não se prenda a ele. Mas faça o teste de paternidade! Antes de se amarrar a essa mulher, tenha a prova concreta. Se os bebês são realmente seus, nada mais importará. Se não forem, você poderá encarar a verdade sem se prender a uma aliança que só trará mais dor.
Eu senti o coração disparar. A sugestão de Lois soava como um grito de socorro, um alerta para que eu não me perdesse nas ilusões do passado. Mas ao mesmo tempo, o orgulho e a esperança me impediam de aceitar facilmente a ideia.
— Eu vou considerar o que você disse, Lois. — Respondi, mesmo que a dúvida ainda martelasse dentro de mim. — Mas, por enquanto, preciso decidir se vou assumir essa responsabilidade ou se vou fugir dela.
— Fugir não é opção, Collin. Lembra o quanto você sofreu? Fugir agora seria condenar esses bebês a crescerem sem um pai, e isso nunca poderá ser desculpa para repetir os erros do passado.
Por um instante, o silêncio reinou enquanto eu processava cada palavra. A lembrança daquela traição, da falsa promessa de uma gravidez, invadia-me novamente. Aquela dor era um segredo sombrio, um peso que carregava silenciosamente, mas que agora ameaçava se repetir se eu não tomasse todas as precauções.
— Eu não quero me perder novamente, Lois. — Minha voz tremia enquanto eu falava, revelando a vulnerabilidade que eu tanto temia mostrar. — Quero acreditar que Manuela e eu podemos construir algo, mesmo que não haja amor. Quero ser o pai que esses filhos precisam, mas não posso ignorar o risco de ser enganado de novo.
A voz de Lois, agora menos agressiva e mais preocupada, soou com firmeza:
— Então faça o teste, Collin. Proteja-se antes de se amarrar a algo que pode ser apenas uma fachada. Não permita que o orgulho ou o desejo de consertar o passado te cegue. Se os bebês forem realmente seus, você terá a certeza que precisa para seguir adiante. Se não, terá a coragem de enfrentar a verdade de uma vez por todas.
Eu respirei fundo, sentindo o peso das palavras dele penetrar em minha alma. A responsabilidade de ser pai, que eu sempre sonhara assumir, agora se misturava com o medo de reviver antigas dores. Mesmo que parte de mim quisesse simplesmente acreditar, a experiência passada me ensinara a ser cauteloso.
— Eu vou fazer o teste, Lois. — Finalmente, disse em voz baixa, quase num sussurro. — Preciso ter certeza, preciso de uma prova para que eu possa seguir em frente sem essa constante dúvida corroendo-me por dentro.
— Muito bem, Collin. — Lois respondeu, a voz misturando alívio e severidade. — E lembre-se: não se deixe enganar pelo que parece ser fácil demais. Essa mulher, Manuela, já demonstrou ter um jeito de manipular as situações a seu favor. Você já foi vítima de um truque antes. Não quero ver você repetir essa história.
Enquanto a conversa se encaminhava para o final, minha mente fervilhava de pensamentos conflitantes. Aquela decisão – de fazer o teste de paternidade – não era apenas um ato lógico, era também um escudo contra a dor do passado. Mesmo que a verdade, quando revelada, pudesse ser dolorosa, viver na incerteza seria um fardo insuportável.
No silêncio que se seguiu, ouvi Lois dar uma pausa, como se escolhesse cuidadosamente suas palavras para encerrar nossa conversa:
— Collin, eu sei que você é capaz de enfrentar qualquer tempestade, mas não permita que o medo te paralise. Seja firme, proteja-se e, acima de tudo, não se prenda a promessas vazias. Lembre-se do que você passou e tenha certeza de que os bebês, se forem realmente seus, merecem um pai que não fuja do próprio passado.
Eu senti o peso de cada palavra dele, o som da sua voz parecia ecoar não só pelo telefone, mas também pelo meu coração. Mesmo ciente de que Lois sempre falava com um tom ríspido, eu sabia que seu conselho nascia de preocupação genuína. Aquele velho fantasma – a dor de ter sido enganado por uma mulher que fingira estar grávida – ainda me assombrava. Não era algo que eu quisesse reviver, mas se o teste me desse a certeza que precisava, então o risco valeria a pena.
— Eu prometo que não vou me deixar cegar, Lois. Vou fazer o teste e, com a verdade em mãos, decidirei o que é melhor para mim e para esses filhos. — Disse, com uma determinação que misturava medo e esperança.
— Então esteja atento e não demore com essa decisão, Collin. — Lois concluiu, sua voz firme, mas carregada de preocupação. — Não se deixe enganar pelo desejo de reparar o passado. Se você se amarrar a essa mulher sem ter certeza, poderá se ver preso a uma ilusão que te destruirá.
Desliguei o telefone e permaneci sentado, sozinho com meus pensamentos. O som do mar, a brisa suave e o frio da noite me lembravam que cada segundo era precioso e que, independentemente do que acontecesse, eu precisava encontrar a verdade. Cada onda que quebrava na praia parecia levar embora um pouco do meu medo, enquanto o som distante do oceano sussurrava promessas de um recomeço.
Enquanto a noite avançava, fiquei parado na varanda, revivendo as palavras de Lois e deixando que a determinação se misturasse à minha angústia. Eu sabia que aquele teste seria o primeiro passo para me proteger de um novo engano. Não se tratava apenas de assumir a paternidade, mas de encarar uma verdade que, por mais dolorosa que fosse, seria a base para todas as minhas decisões futuras.
Lembrei-me dos dias sombrios em que fui enganado por aquela mulher – uma promessa falsa de gravidez que quase me arruinou. Aquela experiência ainda doía, e, mesmo que eu jamais quisesse reviver aquele sofrimento, o risco de me deixar levar por uma nova ilusão era real demais. O medo de ser manipulado novamente me corroía por dentro, mas também me impulsionava a agir com cautela.
Naquela madrugada, enquanto as estrelas cintilavam timidamente no céu de Cabo Verde, fiz uma promessa a mim mesmo: eu não seria novamente um peão nas mãos do destino. Se os bebês fossem realmente meus, eu teria a força de enfrentar o passado e construir um futuro onde a verdade, por mais dura que fosse, guiaria cada um dos meus passos. E se a verdade me mostrasse que havia sido enganado, então eu teria a coragem de encarar a realidade sem me prender a um compromisso forçado.
Com o coração pesado, mas determinado, preparei-me para o novo dia. Quando os primeiros raios de sol despontaram no horizonte, trazendo uma luz tênue e esperançosa, senti que, finalmente, estava pronto para enfrentar os desafios que se avizinhavam. O teste de paternidade seria o divisor de águas: se confirmasse que os gêmeos eram realmente meus, eu teria que encarar uma responsabilidade imensa e, mesmo sem amor, encontrar uma forma de ser um pai presente. Se não, terei a chance de recomeçar sem o peso de um compromisso ilusório.
Enquanto guardava meus pensamentos e me preparava para as próximas etapas, cada som da natureza – o murmúrio das ondas, o sussurro do vento – parecia me encorajar a não desistir. Eu sabia que o caminho à frente seria árduo e repleto de dúvidas, mas a determinação de proteger aqueles que dependiam de mim era maior do que qualquer temor.
Na solidão daquele quarto em Cabo Verde, cercado pela imensidão do oceano e pelo silêncio da noite, senti que estava, de alguma forma, no limiar de uma transformação. Eu não sabia se estaria pronto para encarar todas as consequências, mas a verdade, seja qual for, seria a única luz para dissipar as sombras do passado.
E assim, com o coração apertado e a alma carregada de esperança e medo, encerrei aquela longa conversa com Lois. O compromisso estava feito: eu faria o teste de paternidade. E, independentemente do que o destino reservasse, eu me comprometeria a proteger esses filhos, a assumir a responsabilidade e, finalmente, a deixar para trás os erros que tanto me assombravam.
Enquanto a brisa suave trazia consigo o murmúrio reconfortante do oceano, senti que, naquele exato momento, estava dando o primeiro passo para me libertar. A decisão tomada não era apenas sobre paternidade – era sobre encontrar a coragem de encarar a verdade, de transformar a dor em força e de, finalmente, reescrever a minha própria história.
Na escuridão silenciosa daquela noite, a promessa que fiz a mim mesmo ressoava como um mantra. Eu não seria, jamais, refém de um passado de enganos. Eu seria o pai que esses filhos mereciam, e encontraria a maneira de transformar cada dúvida, cada medo, em um tijolo na construção de um futuro mais seguro e verdadeiro.
E, assim, com o som do mar ao fundo e a determinação renovada, preparei-me para os desafios que viriam. A verdade seria o farol que iluminaria meu caminho, e, com ela, eu caminharia rumo a um recomeço – livre das ilusões e dos medos que um dia quase me destruíram.
Enquanto o sol começava a despontar, anunciando um novo dia, eu sabia que, apesar de todas as incertezas, estava pronto para seguir em frente. Porque, no fim, cada decisão tomada com base na verdade e na coragem era um passo vital na direção de um futuro onde eu pudesse, enfim, ser o homem que sempre desejei ser.