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GABRIELA NARRANDO
Saí da academia sentindo as pernas bambas, mas com aquela sensação boa de dever cumprido. O sol já tinha baixado fazia um tempinho, e a brisa que subia pela ladeira até refrescava, mas não o suficiente pra aliviar o calor que ainda grudava a roupa no corpo. Eu gostava daquela hora do dia, quando o morro ficava mais calmo, as crianças já estavam recolhidas e dava pra ouvir algum vizinho ouvindo um pagode ou um funk mais baixinho antes da noite cair de vez.
Fui descendo a rua com a mochila pendurada no ombro, o cabelo ainda úmido do suor preso num coque frouxo. A cada dez passos, alguém me cumprimentava.
— E aí, Gabi, sumida!
— Tá bonita hoje, hein, Gabriela?
— Fala pro William que o jogo de domingo tá confirmado, viu?
Eu sorria e acenava, trocava duas ou três palavras com cada um. Ali, todo mundo me conhecia desde menina. Dona Ângela, que vendia pastel na esquina, já sabia até o dia que eu estava menstruada, de tanta i********e. Seu Raimundo, o coroa que consertava sapatos sentado na porta de casa, me viu crescer. A Sheila, que tinha um salão improvisado na laje, fazia minhas unhas desde os meus quinze anos. O morro era assim: uma família enorme, às vezes barulhenta, às vezes sufocante, mas era minha casa.
Perto da vendinha do Joel, avistei a Carla encostada no muro, mexendo no celular. Ela levantou a cabeça e abriu um sorrisão quando me viu.
— Olha a sumida! Pensei que tu tava morta, mulher! — ela já foi abrindo os braços.
— Agora que eu tô, porque o treino hoje foi pesado — respondi, rindo, enquanto dava um abraço rápido nela. — E aí, tu vai pro baile amanhã?
Carla revirou os olhos como se eu tivesse perguntado se o céu era azul.
— Claro que eu vou, tá doida? Não perco por nada nesse mundo. Dizem que o MC Poze vai cantar. Vai ser insano.
— Sei. — Balancei a cabeça, já imaginando a muvuca que ia ser. — Comprei um vestido lindo, preto, bem coladinho. Já tô doida pra estrear ele.
— Ah, para, agora eu que tô com inveja! — Carla fez uma careta divertida. — Ainda nem comprei nada pra usar. Amanhã de manhã vou dar uma olhada na loja da Tati, quem sabe acho um cropped maneiro. Se eu deixar pra última hora, vou acabar indo com qualquer coisa.
— Não deixa não, hein. A gente combinou de arrasar.
— Pode deixar. Mas e aí, tu tá indo pra casa?
— Tô, vou indo nessa. Tô podre, preciso de um banho e da minha cama — brinquei, já dando um passo pro lado.
— Então a gente se vê amanhã no baile, tá? Chega cedo, que eu quero ver esse vestido! — ela gritou enquanto eu me afastava.
— Combinado!
Continuei descendo a rua, desviando de umas poças d'água. O céu já estava num tom alaranjado bonito, e eu pensava no vestido novo, na música, na noite que ia ser. Coisa boa poder se divertir um pouco, esquecer os problemas.
Foi aí que eu percebi o silêncio diferente.
Era sutil, mas estava lá. Uns cinco ou seis rapazes estavam encostados perto da oficina do Carlão, fumando, conversando baixo. Quando me viram, a conversa morreu. Senti os olhares subindo pelas minhas pernas, parando no short de academia, depois no meu peito, com uma lentidão que fez um arrepio r**m descer pela minha espinha. Um deles mordeu o lábio. Outro soltou uma risadinha abafada.
Segurei a mochila mais firme no ombro e acelerei o passo, olhando pra frente, com o coração batendo um pouco mais rápido. Não era medo. Era raiva. Raiva porque eu sabia que bastava o William estar do meu lado pra nenhum desses idiotas ter coragem de me olhar daquele jeito. Mas, sozinha, eu era só mais uma mulher passando, sujeita a todo tipo de desrespeito. E eles sabiam muito bem quem eu era. Sabiam e, mesmo assim, ousavam, porque, na cabeça deles, mulher de bandido longe do bandido é território livre.
Engoli seco e segui andando, tentando ignorar.
Foi quando eu vi o Tigre.
Ele vinha descendo a ladeira com aquele andar pesado, as mãos nos bolsos, os ombros largos bloqueando quase todo o espaço da calçada. O olhar escuro fixo em mim, desde o momento em que me avistou, como se já estivesse me caçando há horas. Meu estômago gelou na hora.
Desviei o olhar e tentei atravessar pro outro lado da rua, disfarçando. Fingi que ia olhar alguma coisa na vendinha, entrei num passo rápido. Mas foi inútil. Em três passadas, ele já estava na minha frente, me cercando contra o muro baixo, com aquele cheiro de perfume barato e cigarro que me dava ânsia.
— Tá fugindo de mim, Gabriela? — A voz dele era baixa, arrastada, carregada de uma calma que não enganava ninguém.
— Eu não tô fugindo de ninguém. — Respondi, sem olhar direito pra ele. — Só tô indo pra casa.
Ele inclinou a cabeça, analisando cada detalhe do meu corpo com uma fome que me fazia querer sumir dali. Os olhos dele pararam no meu short, no meu top, na minha cintura, e senti a mão dele roçar de leve na barra da minha blusa, um toque quase acidental, mas que eu sabia que não era.
— Eu já não te falei que não quero ver tu com essas roupas coladas desse jeito? — ele murmurou, os olhos voltando pros meus. — Parece que tá querendo provocar.
A raiva subiu quente pela minha garganta. Apertei os dentes.
— Você não tem que querer nada. Eu não sou nada sua.
Ele sorriu. Um sorriso torto, lento, que nunca chegava nos olhos.
— Ainda não é.
Aquela palavra. "Ainda". Dita com uma certeza tão absoluta que me deu mais medo do que qualquer ameaça direta. Meu coração martelava no peito.
— Me deixa em paz — consegui dizer, firme, mas a voz já não saía tão forte quanto eu queria. — Se o William souber que você anda me cercando desse jeito, ele não vai gostar nem um pouco.
Dessa vez, o sorriso dele se alargou, mas o olhar ficou mais escuro. Ele deu um passo pra perto, perto demais, a ponto de eu sentir o calor do corpo dele e ver uma veia pulsando na sua testa.
— Ele vai fazer o quê? — A voz dele baixou, e havia ali uma faísca de deboche. — Hein, Gabriela? Me diz. O William vai fazer o quê?
Sustentei o olhar dele por um segundo. Dois. Depois, num impulso, me desviei pro lado, escapei do cerco e saí andando o mais rápido que pude, sentindo as pernas ainda bambas da academia e agora também da adrenalina. Não olhei pra trás. Não queria dar a ele o gosto de me ver com medo.
Só fui respirar direito quando dobrei a esquina da minha rua e avistei a luz acesa na janela de casa. Encostei no portão, fechei os olhos e tentei controlar o tremor das mãos.
A vontade que eu tinha era de contar tudo pro William. Chegar e despejar cada detalhe, cada palavra, cada toque quase dado. Mas eu sabia o que ia acontecer. William era quente. Era leal, me amava de um jeito que transbordava, mas também carregava uma raiva que eu conhecia bem demais. Se soubesse que o próprio chefe, o homem que ele respeitava e seguia como um cão fiel, andava me rondando daquele jeito, ia ser tragédia. Sangue. Coisa feia. E, por mais que eu odiasse o Tigre, não queria ser o estopim de uma guerra.
Mas, sinceramente? Eu já tava de saco cheio. Cheia daquele homem, daquela obsessão, daquela sensação de estar sempre sendo vigiada dentro da comunidade, onde eu deveria me sentir segura.
Passei a mão no rosto, sentindo o cansaço de um dia que não deveria ter sido tão pesado. Amanhã eu ia pro baile. Amanhã eu ia colocar meu vestido novo, dançar, rir, viver. Ninguém ia tirar isso de mim.
Mas, ao abrir o portão e dar um último olhar pra rua vazia, me perguntei até quando eu conseguiria manter aquele segredo.