Acordei com o som da chuva batendo na janela. Aquela garoa fina, teimosa, que parece que não molha, mas encharca o dia inteiro.Tem chovido muito na cidade ultimamente. O relógio marcava quase nove e meia, e pela primeira vez em semanas eu não tinha pressa de levantar. Fiquei deitado, olhando pro teto, tentando organizar os pensamentos — mas eles vinham todos embaralhados, como peças de quebra-cabeça de caixas diferentes misturadas na mesma mesa. De um lado, o beijo da Clara ainda queimava na memória. Do outro, o olhar da Leila no meio da noite, aquele jeito leve de me fazer companhia sem precisar dizer nada. Duas mulheres. Dois mundos. E eu bem no meio, sem saber pra onde o coração tava apontando. Peguei o celular no criado-mudo. A tela acendeu — nenhuma ligação perdida, nenhuma

