Pré-visualização gratuita O Vazio entre os Lobos
~ Kallie ~
Dizem que o destino de um lobo é escrito no momento em que ele respira pela primeira vez, gravado no aroma que exala para o mundo como uma assinatura de sua alma. O meu destino, porém, nasceu em um vazio absoluto. Um vazio de cheiro e de esperança que me condenou antes mesmo que eu pudesse abrir os olhos.
Minha história começou sob o terror de uma tempestade de outono que parecia querer arrancar as arvores do chão, os trovões iriam quebrar os céus. Naquela noite, a Alcateia da Lâmina n***a fazia jus ao seu nome. Os ventos cortavam como navalhas e o frio transformava a lama em estilhaços de gelo. Minha mãe chegou aos portões de ferro como uma assombração. Ela estava ferida, os trapos que vestia encharcados de um sangue que não era apenas dela, e um trabalho de parto que cheirava a morte.
Ninguém sabe de onde ela veio. Ninguém perguntou seu nome. Para o Alfa e a Luna da Lâmina n***a, ela era apenas uma intrusa, um incômodo que teve a audácia de morrer nos fundos da casa da matilha, na porta da cozinha, largada, assim que eu soltei meu primeiro choro, fraco e agudo. A única alma que não desviou o olhar com nojo foi Martha, uma das poucas empregadas da casa que ainda guardava um resquício de humanidade sob as cicatrizes de uma vida de servidão.
Foi Martha quem me limpou, quem me envolveu em uma manta áspera de lã e quem ouviu o último sussurro daquela mulher desconhecida. Antes de partir para o abraço da Lua, minha mãe selou minha existência com uma única palavra:
— Kallie.
Aquele foi o último ato de amor que recebi de alguém do meu próprio sangue. O resto da minha vida foi uma sucessão de sombras e silêncio.
Crescer na Lâmina n***a sendo uma "sem cheiro" é como ser um alvo pintado em uma parede branca. Nesta alcateia, o valor de um lobo é medido pela agressividade do seu cheiro e pela força bruta. O cheiro é a identidade; ele revela se você é um Alfa dominante, um Beta leal ou um Ômega submisso. Mas eu? Eu não exalava nada. Para a Luna e seus filhos, eu era uma aberração, um erro genético que manchava a imagem deles, mesmo sendo apena empregada.
E eu não estava sozinha nesse vácuo.
— Kallie, não pare agora. Se a Luna nos vir descansando, ficaremos sem o jantar de novo — a voz de Aurora era um sussurro trêmulo, quase levado pelo vento gélido.
Eu olhei para ela e meu coração se apertou. Aurora era filha de Martha, a mulher que me acolheu. Éramos quase irmãs de alma, unidas por uma tragédia que nos roubou tudo. Aurora tem dezesseis anos, um ano mais nova que eu, e compartilhava o mesmo estigma: ela também não tinha cheiro. Mas, no caso dela, sabíamos o porquê. Aurora cresceu sob o chicote do medo constante, sufocada pelo pavor e desnutrida pelas sobras podres que nos davam. O corpo dela, exausto e privado de nutrientes básicos, simplesmente não teve forças para desenvolver a essência lupina. Éramos duas sombras vivas em uma matilha de predadores.
Nossas mãos, calejadas e rachadas pelo frio, seguravam as alças pesadas dos baldes de ferro. Estávamos encarregadas de polir as pratarias e carregar lenha para os preparativos do grande banquete. A Lâmina n***a estava em polvorosa. A notícia havia se espalhado como fogo em palha seca: o Príncipe Roran, o herdeiro temido da Alcateia do Cume de Gelo, havia sido convidado para o Baile do Equinócio na próxima semana.
O Alfa Lucius, um homem cuja crueldade só era superada por sua ambição, ainda não havia recebido a confirmação oficial. O Príncipe não havia dito se viria, mas na Lâmina n***a, a esperança de uma aliança real era tratada como uma ordem de batalha. Tudo precisava estar perfeito. As tapeçarias estavam sendo lavadas, a carne mais nobre estava sendo maturada e as filhas dos Alfas vizinhos já circulavam pela propriedade como pavões, exibindo seus cheiros florais e sedutores na esperança de capturar a atenção do futuro Rei.
— Você acha que ele vem? — Aurora perguntou, seus olhos grandes e castanhos cheios de uma curiosidade infantil que a dor ainda não conseguira apagar totalmente.
— Príncipes como Roran não frequentam lugares como este, Aurora — respondi, tentando manter minha voz firme enquanto minhas costas latejavam. — Eles dizem que ele é feito de gelo e fúria. Por que ele viria a uma alcateia de fronteira como a nossa?
— Dizem que ele procura sua companheira há anos — Aurora murmurou, seus passos vacilantes na neve rala. — Talvez ele sinta que ela está aqui.
Eu soltei uma risada amarga, que se transformou em uma nuvem de vapor no ar frio.
— Se ela estiver aqui, espero que ela fuja. Ninguém merece viver sob os olhos dessa matilha, nem mesmo a companheira de um Príncipe.
Nós atravessamos o pátio central, tentando nos tornar invisíveis entre os guerreiros que treinavam com espadas e os servos que decoravam as colunas de pedra com ramos e carvalho. Mas a invisibilidade era um luxo que raramente nos era concedido.
— Olhem só, as gêmeas do vazio decidiram dar as caras — uma voz arrastada e carregada de malícia cortou o ar.
Meu estômago afundou. Gunnar.
O filho do Alfa, um jovem de dezoito anos que já exalava o cheiro opressor de um predador alpha em treinamento, caminhava em nossa direção seguido por seu grupo de amigos. Ele usava botas de couro fino e uma capa de pele de urso que valia mais do que as nossas vidas.
— O pátio está sendo preparado para a realeza, e vocês estão aqui, sujando as pedras com esse rastro de nada — Gunnar rosnou, parando exatamente à nossa frente.
Ele chutou o balde de Aurora. A água gelada espirrou, encharcando as roupas finas dela e fazendo-a soltar um ganido de susto. Ela caiu de joelhos, tremendo violentamente enquanto tentava recolher o balde com as mãos roxas de frio.
— Peça desculpas, sua coisa inútil — Gunnar ordenou, um sorriso sádico surgindo em seu rosto. — Peça desculpas por existir no mesmo espaço que eu.
— Deixe-a em paz, Gunnar — eu disse, dando um passo à frente. Minha voz não tremeu, embora minhas pernas quisessem ceder. — Nós temos trabalho a fazer. A Luna quer o salão pronto até o pôr do sol.
Gunnar virou seu olhar para mim. Seus olhos brilharam com um dourado perigoso.
— Você tem muita coragem para alguém que não tem nem uma loba para defendê-la, Kallie. Você é apenas um erro. Um lixo que minha alcateia sustenta por caridade ou por castigo da Deusa da Lua.
Ele se aproximou, o cheiro de suor e arrogância me atingindo como uma bofetada. Ele segurou meu queixo com força, apertando até que eu sentisse meus dentes rangerem.
— O Príncipe Roran está vindo. E se ele vir algo tão repugnante quanto você vagando pelos corredores, ele vai pensar que a Lâmina n***a é um lixão. Talvez eu devesse me livrar de você agora mesmo.
Ele me empurrou com força. Minhas costas atingiram a coluna de pedra e a dor irradiou por minha coluna como eletricidade. Gunnar desembainhou o chicote de montaria que carregava no cinto, um objeto de couro trançado que ele usava para "treinar" os servos e os cães de caça.
Aurora tentou intervir, rastejando até os pés dele.
— Por favor, senhor... foi minha culpa, eu tropecei...
— Cale a boca! — Ele a chutou para o lado, e o som do impacto me fez ver vermelho.
Eu me levantei, ignorando a dor. Eu não tinha cheiro, eu não tinha um lobo que pudesse rasgar a garganta dele, mas eu tinha um ódio que queimava mais quente que qualquer fogueira de banquete.
— Por favor, tenha piedade...Não..— Aurora choramingava no chão, rastejando para longe, o pavor brilhando em seus olhos castanhos.
— Piedade é para os lobos, não para sombras sem cheiro como vocês — Gunnar rosnou.
O primeiro golpe do chicote desceu, rasgando o tecido fino da minha túnica e abrindo um sulco ardente na minha pele. Eu soltei um soluço baixo, me comprimindo contra a pedra fria. O segundo golpe veio logo em seguida, atingindo meu ombro. Eu fechei os olhos com força, desejando que o mundo simplesmente me engolisse. Eu não era uma guerreira. Eu era apenas uma menina que queria parar de sentir dor.
Gunnar levantou o braço para o terceiro golpe, seu rosto retorcido em um sorriso de prazer.
Aurora gritou, o desespero superando o próprio pavor por um segundo. Ela tentou se rastejar até os pés dele para me proteger.
Gunnar parou, um sorriso c***l distorcendo seus lábios.
— Quer participar, coisinha inútil? Pois bem.
Ele virou o chicote para Aurora. O estalo do couro contra a pele frágil dela me fez querer gritar. Aurora caiu de lado, soltando um ganido agudo que ecoou pelo pátio silencioso. Ninguém ajudou. Os guerreiros apenas assistiam, divertidos com o "treino" do futuro Alfa.
— Isso é para vocês lembrarem o que acontece com sombras que saem do lugar — Gunnar cuspiu as palavras, guardando o chicote.
— Limpem essa bagunça. E se eu ouvir um suspiro de reclamação, a próxima vez será pior.
Ele se afastou com seus amigos, deixando-nos sozinhas na lama fria. Eu me arrastei até Aurora, ignorando o fogo que consumia minhas costas. Ela estava encolhida, chorando baixinho, o corpo magro sacudindo de frio e dor.
— Shh, eu estou aqui, Aurora... eu estou aqui — sussurrei, puxando-a para um abraço que não tinha calor, mas era tudo o que tínhamos.
Faltava uma semana para o baile. Uma semana de preparativos, fome e medo. Olhei para os portões distantes da Lâmina n***a, sentindo o gosto metálico do meu próprio sangue na boca. Eu não sabia se o Príncipe Roran viria. Eu não sabia se ele era o monstro que todos diziam ser.
Mas naquele momento, enquanto eu segurava minha única amiga sob o céu cinzento de outono, eu desejei que qualquer coisa — qualquer força sobrenatural — cruzasse aqueles portões e acabasse com o nosso sofrimento.