O Lobo de Gelo

906 Palavras
~ Roran ~ O vento de outono batia nas janelas de vidro grosso do meu escritório no Cume de Gelo, mas o frio lá fora não se comparava ao silêncio que eu cultivava dentro de mim. Eu tinha vinte e seis anos e o peso de uma das maiores alcateias do mundo sobre os ombros. Ser o Alfa Real não era um privilégio; era uma vigília constante, um castigo. Eu estava debruçado sobre um mapa tático quando o cheiro de couro e sândalo anunciou a entrada de Kael. Ele era meu Beta, meu melhor guerreiro e o único que não baixava os olhos quando eu estava de mau humor - consequentemente, meu melhor amigo. — O relatório das patrulhas do sul chegou — Kael disse, jogando uma pasta de couro sobre a minha mesa. — O outono está cobrando seu preço. As fronteiras estão inquietas e os suprimentos para o inverno precisam ser garantidos. — Eu sei — respondi, sem desviar os olhos do mapa. — Por isso a passagem pela Alcateia da Lâmina n***a é estratégica. Eles controlam o desfiladeiro. Kael se encostou na estante de livros, cruzando os braços. — E é por isso que você não pode ignorar o convite para o Baile do Equinócio. Falta uma semana, Roran. O Alfa deles está esperando uma resposta. Se você não aparecer, ele vai interpretar como um insulto, e o comércio vai travar antes da primeira neve. Eu soltei um suspiro pesado, recostando-me na cadeira de couro. — Bailes. Perfumes baratos, conversas vazias e Alfas tentando me vender suas filhas como se fossem uma mercadoria. Você sabe o quanto eu detesto isso, Kael. Odeio perfumes, aquelas risadas acabam com o meu cerebro. — Eu sei que você detesta a ideia de encontrar uma companheira — Kael foi direto ao ponto, como sempre. — Mas o Conselho está pressionando. Eles querem um herdeiro. Eles querem uma Luna no trono. — O Conselho quer uma coleira para mim — rosnei, e o som vibrou no meu peito de forma selvagem. — Eu vi o que o laço de companheirismo fez com o meu pai. Ele era o lobo mais forte que este reino já viu até o dia em que minha mãe morreu naquele ataque. Ele não foi morto por uma espada, Kael. Ele morreu porque não conseguia respirar sem ela. O coração dele simplesmente parou porque o dela parou. Eu me levantei e caminhei até a janela, observando os picos nevados. — Eu desisti de procurar minha companheira há anos. Eu não quero esse tipo de fraqueza. Não quero que minha vida ou o meu governo dependam da existência de outra pessoa. Eu sou o Alfa do Cume de Gelo. O gelo não precisa de fogo para ser forte. Kael ficou em silêncio por um momento, respeitando o fantasma que ainda assombrava aquela sala. — Eu entendo, Roran. Mas a obrigação política não se importa com seus sentimentos. Vá ao baile. Assine o tratado de livre passagem. Dance com uma ou duas nobres para manter as aparências e volte para casa. Uma semana de sacrifício por um inverno de paz. Vale a pena. Eu encarei meu reflexo no vidro escuro. Meus olhos azuis pareciam mais frios do que o normal. Nas últimas noites, algo vinha me incomodando. Uma inquietação estranha, uma pontada no peito que eu julgava ser o cansaço ou ao estresse das colheitas. Era como se um fio invisível estivesse sendo puxado lá no fundo da minha alma, causando um desespero que eu não conseguia localizar. — Há algo de errado naquelas terras do sul — murmurei, mais para mim mesmo do que para ele. — O que quer dizer? — Kael se aproximou, o tom agora profissional. — Não sei. Um instinto. O ar parece pesado quando penso na Lâmina n***a. Aquele Alfa é um carniceiro e o filho dele, Gunnar, é um sádico que não sabe o que é honra. E o outro, Grimm, é tão r**m quanto o primeiro. — Mais um motivo para irmos pessoalmente — Kael deu de ombros. — Se eles estiverem tramando algo contra a coroa, vamos descobrir. Eu me virei para ele, a decisão tomada. Minha voz saiu firme, sem espaço para discussões. — Prepare a guarda de elite. Sairemos em dois dias para chegar a tempo do baile. Mas deixe claro para o Alfa da Lâmina n***a: eu vou para tratar de negócios. Se alguma "pretendente" chegar a menos de dois metros de mim sem permissão, eu não responderei pelas consequências do meu lobo. — Vou redigir a resposta oficial agora mesmo — Kael assentiu, já se dirigindo à porta. — E Roran? — O que foi? — Tente não assustar os convidados na primeira meia hora. Precisamos daqueles contratos assinados. Eu não respondi. Voltei minha atenção para as chamas da lareira. Eu achava que estava indo para o sul por dever. Achava que era apenas um Alfa cumprindo uma agenda burocrática para garantir a sobrevivência do meu povo, mas não sabia que, a centenas de quilômetros dali, o motivo da minha inquietação estava sangrando no chão de um porão úmido. Eu não sabia que a garota que eu chamaria de "Minha" estava pedindo à Deusa para morrer enquanto eu me preparava para a viagem. Eu era Roran, o Alfa que não acreditava no destino. E o destino estava prestes a me mostrar que ele não pede licença para destruir as muralhas de um Rei.
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