Pré-visualização gratuita Capítulo 01
Pânico.
Os dias na casa de detenção pareciam intermináveis, mas eu já sei que o fim está próximo, faltam poucos dias para eu meter o pé e completar 18 anos. Enquanto eu observava as sombras na parede da cela, senti novamente o peso das minhas escolhas, Tulio, que havia sido preso a dois dias, estava deitado em sua cama e eu quase dormindo quando ele me chamou.
— GG, ta dormindo? — Ele sussurrou, mesmo sabendo que eu ainda estava acordado.
— Mais ou menos, fala ai. — Respondi me virando para ele.
— Eu tava pensando, será que minha mãe vai me perdoar? Eu só queria proteger ela e meus irmãos. — Me sentei na cama e fiquei olhando para ele, o menor era novo, e já com a mente toda perturbada por cauda de filho de Jack.
— Ai menor, vou te contar como eu fui preso, e meus pais mesmo assim estão me esperando. — O menor se sentou também e ficou me olhando, já estava tudo escuro, apenas a luz de fora refletia a parede deixando um pouco iluminado.
— Eu e meus amigos saímos da escola com aquele plano na cabeça. A adrenalina corria solta, como se a gente fosse invencível. Era só uma farmácia no centro, coisa rápida. Só que não foi bem assim... — Parei por um momento, revivendo cada detalhe.
— A gente entrou na farmácia como se fosse mais um dia normal. Tudo tava indo do jeito que a gente tinha planejado, até que aquele desgraçado do caixa percebeu. As sirenes começaram a soar antes mesmo que a gente pudesse se dar conta. Meu primeiro instinto foi correr, e eu corri como nunca. Mas não era a Maré, né? Não tinha aquelas vielas pra desaparecer.
Virei o rosto para o corredor onde estava um dos guardas nos olhando e então voltei a falar com o menor, olhei para ele com um sorriso.
— Eu tentei fugir, cara. Sério, tentei mesmo. Mas aí... aí eu vi a Thamires. — O menor assentiu e então continuei. — Ela estava lá, do outro lado da rua, só olhando. E, cara, na hora que nossos olhos se encontraram, eu senti um negócio estranho. Como se o mundo todo tivesse parado por um segundo. Ela sempre foi diferente, sabe? Gostava de mim, eu sei que gostava, mas tinha medo. E eu entendia... A família dela não queria ela perto de mim. Respeitavam meu pai, mas sabiam o que a gente fazia.
Esfreguei o rosto tentando apagar o arrependimento que começava a surgir.
— Eu hesitei, e foi isso que me ferrou. Os policiais me alcançaram, me jogaram no chão, e eu sabia que tinha acabado. Eles me algemaram ali mesmo, na frente de todo mundo. Mas tudo que eu conseguia pensar era nela, na Thamires. O jeito que ela me olhou, cara... como se estivesse desapontada, triste... talvez até com pena.
Respirei fundo fazendo uma pausa, o guarda do lado de fora pigarreou e voltei a olhar para ele que me encarava, ri dele e voltei ao menor que estava todo concentrado em mim.
— Eles me levaram, me jogaram naquela viatura, e eu sabia que minha vida tinha mudado pra sempre. Fim da linha, GG, fim da linha. E agora tô aqui, prestes a sair desse lugar... mas aquelas memórias ainda me seguem. — O menor respirou fundo e então falou.
— E quando você sair, o que vai fazer? — Me deitei colocando as mãos de baixo da cabeça e olhei para o teto.
— Não sei, meno. Talvez tentar fazer diferente... ou talvez só continuar, mas com mais cuidado. Só sei que vou ter que enfrentar isso de frente, e não vou mais poder fugir. — O menor se deitou então virei o rosto para ele. — Ai menor, se tudo der errado quando você sair, me procura lá na Maré, não deixa o medo te consumir não, você só quis salvar sua mãe, e eu no seu lugar faria o mesmo.
— Eu só, não queria ver minha mãe chorando, como ela estava quando me prenderam. — Ele disse com a voz de choro. — Ele tava abusando da minha irmã aquele filho da p**a.
— Qual foi menor, tu fez o certo, eu teria feito pior, meu pai matou meu avô, por que ele tava abusando da minha tia, foi preso por isso, e ele não se arrepende. — Falei lembrando do meu pai me contando. — Se liga, quando tu sair, tu me procura, vou te deixar forte la fora, pra tu cuidar da tua mãe e tua irmã como elas merecem.
Ele balançou a cabeça e se virou, eu fechei os olhos e a imagem da Thamires na minha cabeça não saia, será que ela já tem alguém, será que ela ainda mora lá na favela, c*****o, que louco, essa mina não sai da minha mente, mesmo depois de tanto tempo.
...
A luz forte do sol entrando na cela me despertou, então levantei já indo fazer minhas necessidades, hoje é o dia, minha liberdade, vou ver pessoas, vou ver a rua, vou beber pra c*****o, vou ver meus pais, p***a, como eu esperei por esse dia. O guarda passou pela cela abrindo ela e me chamando, olhei para ele enquanto mijava e continuei ali parado, terminei e me virei.
— Ta achando que é quem aqui Gabriel? — José falou e ficou me encarando.
— Você já vai se livrar de mim Zé, fica na paz. — Peguei minhas fotos, uma Bíblia que minha vó me mandou e as cartas que recebi. — Foi bom ter te conhecido, vê se passa lá no Morro pra gente matar a saudade.
— Só se for pra te tirar de lá e te levar pra uma penitenciaria de verdade. — Comecei a rir e ele me empurrou. — Vai logo.
Fui andando e dando o toque com os menor, alguns ali tinham medo de mim, mais por saberem que com 15 anos eu matei o primeiro cara, e meu apelido aqui virou Pânico, os menor amavam ouvir quando eu contava como foi.
Passei por mais alguns guardas que foram abrindo as portas e me liberando, até que eu estava do lado de fora, um carro estava parado na frente e quando a porta se abriu, Isa saiu de lá e veio correndo, a abracei com força, p***a como minha irmã está grande, já é uma mulher.
— Meu Deus Gabriel, você já é um homem. — Ela falou me olhando e fomos para o carro, Isa passou o caminho todo contando tudo da sua nova vida fora do morro, e como estavam nossos pais, ela entrou com o carro no morro sem nenhum problema e me levou para casa, aqui ainda estava como eu me lembro, com algumas pessoas diferentes, mas ainda era o mesmo lugar.