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Herdeiro da Maré

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Sinopse

No agitado Morro da Maré, no coração do Rio de Janeiro, Bruna enfrentou um passado marcado pelo terror imposto por um ex-namorado abusivo. Determinada a escapar da escuridão de seu passado, ela encontrou refúgio nas redes sociais, onde se tornou uma influenciadora digital, compartilhando sua jornada de superação como bloqueirinha do Instagram.Enquanto Bruna reconstrói sua vida, ela cruza o caminho de Kaio, um homem cujo nome ecoa nas vielas do Morro. Kaio, o temido Dono da Maré, acaba de ser libertado após uma temporada na prisão. Seus caminhos se cruzam em circunstâncias menos do que ideais, criando uma faísca de desconfiança entre eles.À medida que o tempo passa e compartilham suas histórias e sonhos, Bruna e Kaio descobrem que têm mais em comum do que imaginavam. Juntos, enfrentam os desafios da vida nas ruas do Rio, superando preconceitos e desafios de seu entorno.Em meio a uma teia de amizades leais e perigosas rivalidades, Bruna e Kaio encontram o amor e a força para confrontar os demônios de seus passados.

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Capítulo 01
Pânico. Os dias na casa de detenção pareciam intermináveis, mas eu já sei que o fim está próximo, faltam poucos dias para eu meter o pé e completar 18 anos. Enquanto eu observava as sombras na parede da cela, senti novamente o peso das minhas escolhas, Tulio, que havia sido preso a dois dias, estava deitado em sua cama e eu quase dormindo quando ele me chamou. — GG, ta dormindo? — Ele sussurrou, mesmo sabendo que eu ainda estava acordado. — Mais ou menos, fala ai. — Respondi me virando para ele. — Eu tava pensando, será que minha mãe vai me perdoar? Eu só queria proteger ela e meus irmãos. — Me sentei na cama e fiquei olhando para ele, o menor era novo, e já com a mente toda perturbada por cauda de filho de Jack. — Ai menor, vou te contar como eu fui preso, e meus pais mesmo assim estão me esperando. — O menor se sentou também e ficou me olhando, já estava tudo escuro, apenas a luz de fora refletia a parede deixando um pouco iluminado. — Eu e meus amigos saímos da escola com aquele plano na cabeça. A adrenalina corria solta, como se a gente fosse invencível. Era só uma farmácia no centro, coisa rápida. Só que não foi bem assim... — Parei por um momento, revivendo cada detalhe. — A gente entrou na farmácia como se fosse mais um dia normal. Tudo tava indo do jeito que a gente tinha planejado, até que aquele desgraçado do caixa percebeu. As sirenes começaram a soar antes mesmo que a gente pudesse se dar conta. Meu primeiro instinto foi correr, e eu corri como nunca. Mas não era a Maré, né? Não tinha aquelas vielas pra desaparecer. Virei o rosto para o corredor onde estava um dos guardas nos olhando e então voltei a falar com o menor, olhei para ele com um sorriso. — Eu tentei fugir, cara. Sério, tentei mesmo. Mas aí... aí eu vi a Thamires. — O menor assentiu e então continuei. — Ela estava lá, do outro lado da rua, só olhando. E, cara, na hora que nossos olhos se encontraram, eu senti um negócio estranho. Como se o mundo todo tivesse parado por um segundo. Ela sempre foi diferente, sabe? Gostava de mim, eu sei que gostava, mas tinha medo. E eu entendia... A família dela não queria ela perto de mim. Respeitavam meu pai, mas sabiam o que a gente fazia. Esfreguei o rosto tentando apagar o arrependimento que começava a surgir. — Eu hesitei, e foi isso que me ferrou. Os policiais me alcançaram, me jogaram no chão, e eu sabia que tinha acabado. Eles me algemaram ali mesmo, na frente de todo mundo. Mas tudo que eu conseguia pensar era nela, na Thamires. O jeito que ela me olhou, cara... como se estivesse desapontada, triste... talvez até com pena. Respirei fundo fazendo uma pausa, o guarda do lado de fora pigarreou e voltei a olhar para ele que me encarava, ri dele e voltei ao menor que estava todo concentrado em mim. — Eles me levaram, me jogaram naquela viatura, e eu sabia que minha vida tinha mudado pra sempre. Fim da linha, GG, fim da linha. E agora tô aqui, prestes a sair desse lugar... mas aquelas memórias ainda me seguem. — O menor respirou fundo e então falou. — E quando você sair, o que vai fazer? — Me deitei colocando as mãos de baixo da cabeça e olhei para o teto. — Não sei, meno. Talvez tentar fazer diferente... ou talvez só continuar, mas com mais cuidado. Só sei que vou ter que enfrentar isso de frente, e não vou mais poder fugir. — O menor se deitou então virei o rosto para ele. — Ai menor, se tudo der errado quando você sair, me procura lá na Maré, não deixa o medo te consumir não, você só quis salvar sua mãe, e eu no seu lugar faria o mesmo. — Eu só, não queria ver minha mãe chorando, como ela estava quando me prenderam. — Ele disse com a voz de choro. — Ele tava abusando da minha irmã aquele filho da p**a. — Qual foi menor, tu fez o certo, eu teria feito pior, meu pai matou meu avô, por que ele tava abusando da minha tia, foi preso por isso, e ele não se arrepende. — Falei lembrando do meu pai me contando. — Se liga, quando tu sair, tu me procura, vou te deixar forte la fora, pra tu cuidar da tua mãe e tua irmã como elas merecem. Ele balançou a cabeça e se virou, eu fechei os olhos e a imagem da Thamires na minha cabeça não saia, será que ela já tem alguém, será que ela ainda mora lá na favela, c*****o, que louco, essa mina não sai da minha mente, mesmo depois de tanto tempo. ... A luz forte do sol entrando na cela me despertou, então levantei já indo fazer minhas necessidades, hoje é o dia, minha liberdade, vou ver pessoas, vou ver a rua, vou beber pra c*****o, vou ver meus pais, p***a, como eu esperei por esse dia. O guarda passou pela cela abrindo ela e me chamando, olhei para ele enquanto mijava e continuei ali parado, terminei e me virei. — Ta achando que é quem aqui Gabriel? — José falou e ficou me encarando. — Você já vai se livrar de mim Zé, fica na paz. — Peguei minhas fotos, uma Bíblia que minha vó me mandou e as cartas que recebi. — Foi bom ter te conhecido, vê se passa lá no Morro pra gente matar a saudade. — Só se for pra te tirar de lá e te levar pra uma penitenciaria de verdade. — Comecei a rir e ele me empurrou. — Vai logo. Fui andando e dando o toque com os menor, alguns ali tinham medo de mim, mais por saberem que com 15 anos eu matei o primeiro cara, e meu apelido aqui virou Pânico, os menor amavam ouvir quando eu contava como foi. Passei por mais alguns guardas que foram abrindo as portas e me liberando, até que eu estava do lado de fora, um carro estava parado na frente e quando a porta se abriu, Isa saiu de lá e veio correndo, a abracei com força, p***a como minha irmã está grande, já é uma mulher. — Meu Deus Gabriel, você já é um homem. — Ela falou me olhando e fomos para o carro, Isa passou o caminho todo contando tudo da sua nova vida fora do morro, e como estavam nossos pais, ela entrou com o carro no morro sem nenhum problema e me levou para casa, aqui ainda estava como eu me lembro, com algumas pessoas diferentes, mas ainda era o mesmo lugar.

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