Quatro

1295 Palavras
Júlia narrando Eu comprei minha passagem em silêncio. Não falei nada pra ninguém, não fiz escândalo, nem chorei. Mandei uma mensagem simples no grupo com meus irmãos, só avisando que ia embora. Foi o suficiente pra meu irmão mais velho perguntar. Júnior: "Vai pra onde, Júlia?" A resposta saiu seca, sem rodeios, como eu já tava me sentindo por dentro. Júlia: "Vou cuidar da minha própria vida". E foi isso, Não me despedi de ninguém. Arrumei minha mala com calma, como quem termina um ciclo e segue em frente, ninguém veio se despedir de mim também. Mas, sinceramente? Tanto faz como tanto fez, Eu já sofri demais tentando entender porque a gente tem que implorar por carinho até dentro de casa. Hoje, eu sei me virar sozinha. Cresci, Amadureci. Não preciso de plateia pra mudar minha vida. Falei apenas com a dona da casa, desde que a minha mãe morreu, que eu me mudei da casa dos meus pais. Meus irmãos colocaram uma placa de venda, tenho certeza que não vou ver r$ 1 desse dinheiro, mas para mim tá tudo certo, não vou fazer questão. Quando o avião decolou, Fechei os olhos, eu não queria nem olhar, apenas sentindo um coração que minha vida vai mudar, dessa vez eu vou escrever a minha história no Rio de janeiro, do jeito que eu sonhei quando era criança. Menos com o meu amor. Quando o avião pousou no Rio de Janeiro, meu coração bateu mais forte. Meus pés m@l tocaram o chão do aeroporto e lá estava ele. João, meu primo. Aquele abraço apertado, depois de tanto tempo, me trouxe um conforto que eu nem lembrava que existia, a gente se olhou com os olhos cheios d’água, mas seguramos a emoção. João tinha saído do Rio Grande do Sul, depois morado um tempo em São Paulo, até decidir se estabelecer no Rio. Durante o trajeto até o Vidigal, tanta coisa passou pela minha cabeça. Eu, adolescente, boba, apaixonada, cheia de sonhos e ilusões… Foi impossível não lembrar de tudo isso. Tive que respirar fundo e segurar as lágrimas, Nlnão queria chorar agora. Agora é só foco. Foco no futuro. João: E aí, prima? Formou mesmo em pedagogia, né? - ele perguntou, me olhando de lado. Júlia: Formei, sou professora infantil, Amo dar aula pros pequenos. João: Aqui é um pouco mais difícil, mas a gente vai correr atrás. Pelo menos nas escolas particulares. Escola pública é mais enrolado, tem que fazer concurso. Júlia: Eu trabalho no que aparecer, João. Comigo não tem tempo r**m, trabalho na minha área, vendedora, faxineira, confeiteira. O que aparecer estou aceitando. Ele deu uma risada leve, daquela que esquenta o peito. João: Isso é m@l de família, Eu também sou assim. Sorri, a gente era assim mesmo, duro na queda, mas de cabeça erguida sempre. Conforme a gente subia o morro, eu olhava tudo ao redor, Como tudo tinha mudado, as casas, o comércio evoluiu, até o movimento das ruas. Nada era como antes, era o mesmo lugar, mas ao mesmo tempo, completamente diferente, O morro tinha crescido, e eu também. Júlia: Quem é o dono do morro agora? - perguntei, curiosa. João deu uma olhada rápida pra mim antes de responder. João: O Mestre. Júlia: Mestre? Não conheço, Esse não é da minha época. Ele sorriu, quase como se soubesse o que ia acontecer em seguida. João: É o filho do antigo dono, O pai morreu, e o filho assumiu. Na mesma hora, meu corpo congelou, O coração bateu mais forte, como se o tempo tivesse parado, Leonardo. Fechei os olhos por alguns segundos. Meu peito apertou. A respiração ficou pesada. “O Mestre é o Leonardo”, pensei, E, sem conseguir controlar, sussurrei pra mim mesma. Júlia: Ele agora é o dono do morro… O meu primeiro e único amor, Aquele que fez meu coração disparar, que me fez sonhar. A vida nos afastou, e eu nunca soube como ele seguiu em frente, Mas agora eu sei, ele virou o dono do Vidigal. O silêncio tomou conta do carro por alguns instantes, João percebeu meu choque, mas respeitou meu silêncio. Eu precisava processar. Meu peito tava uma bagunça, como se cada lembrança tivesse voltado com força total. O olhar dele, o jeito que ele sorria torto, aquela voz grave, Será que ele ainda era o mesmo, Só que mais velho? Mas eu não sou mais a mesma garota, aquela Júlia ficou no passado. A Júlia de agora sabe o que quer, E veio buscar exatamente isso: uma nova chance, Uma vida nova. Ainda assim, não dava pra negar que o nome dele tinha mexido comigo. Muito mais do que eu queria admitir. João: Chegamos - ele avisou, estacionando. Respirei fundo, olhei ao redor e desci do carro com o coração acelerado, era hora de encarar meu passado, mas com os olhos de quem só quer saber do futuro. E, se o destino quiser brincar comigo de novo, dessa vez, quem vai ditar as regras sou eu. Fui muito bem recebida pela esposa do meu primo João, a Camila. Ela me recebeu com um sorriso caloroso, me deu um abraço apertado e disse que a casa era simples, mas estava de portas abertas pra mim. As filhas deles, duas menininhas lindas, também foram super carinhosas e educadas. Como eu já sabia que o João tinha duas filhas, comprei uma boneca pra cada uma, só pra agradar. Quando entreguei os presentes, os olhos das meninas brilharam. Meninas: Obrigada, tia Júlia! - disseram em coro, me abraçando com força. Logo em seguida, já estavam rasgando o plástico das caixas pra brincar. João pegou minhas malas e me guiou até o quarto. João: Prima, a casa só tem dois quartos, Você não se importa de dividir com as meninas, né? Júlia: Imagina, João! Tá ótimo. Sem problema nenhum - respondi com sinceridade. O colchão já estava forrado, lençóis limpinhos e cheirosos. Tudo arrumado com muito carinho. Aquilo me emocionou, Agradeci pela hospitalidade, tanto a ele quanto à Camila. Júlia: Assim que eu conseguir um trabalho, eu alugo um cantinho pra mim - avisei. João: Não tem pressa, Júlia. Fique o tempo que precisar - ele respondeu, com um sorriso tranquilo. Fui tomar um banho antes do jantar. A água quente parecia lavar não só meu corpo, mas também um pouco da ansiedade e do cansaço dos últimos dias. Quando me juntei a eles na mesa, a comida já estava servida e o cheiro era maravilhoso. A gente estava rindo de alguma bobagem que a Camila contou quando a porta da frente se abriu com um estrondo. Meu outro primo, Thiago, entrou com uma arma quase do tamanho dele nas costas. João: Poxa, Thiago! Quantas vezes eu já falei pra não entrar aqui armado, porr@? Tem criança nessa casa! - João gritou, levantando da cadeira. Thiago só riu, como se fosse a coisa mais normal do mundo. Thiago: Relaxa, João. Tá tudo certo - Ele veio até mim, me deu um abraço apertado e disse. Thiago: Bem-vinda, prima! Júlia: Obrigada - falei, um pouco sem saber como reagir àquela cena toda. Thiago: Tô de ressaca ainda do baile de ontem. Cachaça foi de litro! - ele comentou, se jogando no sofá. Sorri, meio sem graça, mas a leveza da conversa logo voltou. Conversamos mais um pouco depois do jantar, e ele saiu dando tchau e disse que volta qualquer hora, Perguntei pro João. Júlia: Ele mora aqui? João: Não, Ele mora numa casa que só tem macho. Camila riu alto e completou. Camila: Parece mais um puteir0 do que uma casa! A gente caiu na gargalhada. Nesse momento, percebi que, apesar dos pesares, minha estadia ali tinha tudo pra ser boa. Recado! Oi meninas, a partir de segunda teremos mais capítulos diários 😘
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