Mestre narrando
Hoje o bagulho tava mais tranquilo no morro, então decidi aproveitar pra almoçar na casa da coroa. Peguei a Melzinha, botei ela no tanque da moto e descemos, Ela ama ir pra lá, fica toda animada quando vê a vó, já chega gritando, correndo pra dentro, derrubando tudo. A véia se derrete inteira.
Enquanto a Mel tava lá brincando com os potinhos da cozinha, sentei com minha mãe na mesa. Ela colocou o prato na minha frente, aquele feijão grossão do jeito que eu gosto, arroz soltinho, carne acebolada, Só de sentir o cheiro, já deu vontade de largar tudo e morar ali mesmo.
Mestre: Tá gostoso, hein, mãe - falei de boca cheia.
Salete: Tá do jeito que você gosta.
Dei um sorriso de canto, ela sabe como me pegar pelo estômago. Com um prato de feijão desse aqui, ela pode me pedir a lua, que eu mando buscar.
Ela deu uma risadinha e ficou mexendo na comida, só que vi que ela tava com alguma coisa atravessada.
Mestre: Que foi, mãe? Pode falar.
Salete: Eu fui no posto semana passada, aquele cansaço que eu vinha sentindo, o médico pediu uns exames.
Mestre: E aí? Deu r**m?
Salete: Nada grave, mas pode ser que eu precise fazer uma cirurgia, coisinha simples, mas vou ter que ir mais vezes pro médico. E a Keila entrou na fase final do TCC, tá atolada na faculdade, quase não vai parar em casa.
Na hora eu já saquei onde ela queria chegar.
Mestre: Olha aí, já sei o que a senhora vai dizer - levantei da cadeira, encostei na pia, cruzando os braços.
Mestre: Vai querer meter alguém lá em casa pra ficar com a Mel, né?
Salete: Ué, e você acha que ela vai ficar sozinha? Você acha que a gente vai dá conta de tudo?
Mestre: Mãe, eu já falei, ninguém, nenhum estranho vai entrar na minha casa, Muito menos ficar sozinho com minha filha. Tá maluca?
Ela respirou fundo, limpou a mão no pano de prato e me olhou séria.
Salete: A babá pode ficar aqui em casa durante o dia, cuidando da Melissa, não tem problema nenhum. À noite a gente reveza, como sempre fizemos. Mas você precisa se abrir mais, meu filho. Você acha que dá conta de tudo sozinho, mas não dá.
Mestre: Eu não tô gostando nada dessa fita - falei, mordendo o canto da boca, irritado.
Salete: E quem disse que você precisa gostar? Quando a gente precisa de ajuda, a gente abre a boca e fala. Entendeu? Você precisa contratar alguém que tenha disponibilidade pra cuidar dessa menina. Não seja tão cabeça dura, Leonardo.
Fiquei em silêncio por uns segundos. Meu sangue ferve nessas horas, mas a coroa tem razão. Ela sempre tem. Eu só queria proteger minha filha, não deixar qualquer pessoa se aproximar, Mas a vida tava apertando, e eu não podia ser burro a esse ponto.
Respirei fundo, caminhei até a sala, peguei a Melzinha no colo. Ela tava rindo, com o nariz todo sujo de chocolate.
Mestre: Papai vai dar um jeito, tá, princesa? - falei, beijando a cabecinha dela.
Olhei pra minha mãe e acenei com a cabeça.
Mestre: Eu vou ver isso. Confia.
Saí da casa dela com o coração meio pesado, mas sabendo que era hora de fazer o que tinha que ser feito. Não era só chefe do morro, Era pai. E pai de verdade faz o corre pela cria.
Cheguei na boca e fui direto pra minha sala, Nem cumprimentei ninguém, só fiz um aceno com a cabeça pra um dos moleque que tavam de plantão e entrei. A sala é simples, mas é meu canto. Peguei uma cerveja na geladeira velha que fica no canto, abri no dente mesmo, sentei na cadeira que range toda vez que me jogo nela e acendi um cigarro.
Fiquei ali, calado, só ouvindo o barulho da rua entrando pela janela entreaberta.
Minha cabeça rodando, tentando puxar alguém que eu confiasse pra cuidar da minha filha.
Mas não vinha ninguém.
Essas marmitas do morro? Nem f0dendo. Essas gonorréi@ que ficam se jogando em cima dos cara só pra ganhar pratocinio, Tô fora. Minha princesinha não merece isso, Não quero essas p*****a passando energia podre pra Melissa.
Eu já tava viajando na maionese, pensando até se não era melhor eu mesmo me virar com ela e largar o resto nas costas dos outros, quando a porta abriu devagar. Era o TH.
Thiago: Fala, chefe.
Olhei pra ele, dei um trago no cigarro e soltei a fumaça devagar.
Mestre: Tu sabe alguém de responsa que possa ficar lá na casa da minha mãe? Alguém pra ajudar nos trampo com a Melissa, só por um tempo, até minha coroa resolver umas paradas.
TH coçou a cabeça, entrou mais pra dentro e fechou a porta atrás dele. Ele não tá no movimento há muito tempo, mas é desenrolado, sangue frio, sabe se portar e, o mais importante, sabe calar a porr@ da boca.
Thiago: Minha prima acabou de chegar do Sul, chefe. Tá aqui tem uns três dias só, Tá na casa do meu irmão.
Mestre: E daí?
Thiago: Ela tá desempregada. É Formada nesses bagulho de educação infantil, essas parada de professora de criança, tá ligado?
Dei uma risada curta.
Mestre: Porr@, TH, Por que uma mulher formada vai querer virar babá?
Thiago: Porque ela tá na merd@, chefe. Perdeu os pais, Os irmão virou as costa pra ela. Veio pra cá pra tentar a vida, disse que tá aceitando o que aparecer. E, sinceramente, ela é desenrolada. Gente boa mesmo.
Fiquei olhando pra ele um tempo.
Mestre: Ela é direita, TH?
Thiago: Mais que as mina daqui, com certeza chefe. A mina tem postura. Fala bem, sabe lidar com criança, não é dessas que se deslumbra fácil.
Bebi mais um gole da cerveja, Fiquei uns segundos pensando.
Mestre: Então faz assim, amanhã cedo tu traz ela aqui. Quero trocar uma ideia com ela, olhar no olho. Se me passar confiança, o trampo é dela.
TH só concordou com a cabeça.
Thiago: Pode deixar, chefe, Vou lá agora mesmo falar com ela.
Ele meteu o pé, e eu fiquei ali.
Não custa tentar, né? Se essa mina for tudo isso mesmo que ele falou, talvez, só talvez, eu tenha encontrado alguém que trate minha filha com o cuidado que ela merece. Porque uma coisa é certa, a Melissa não vai ser criada por qualquer uma. Aqui, quem cuida da minha filha tem que ter mais que currículo. Tem que ter alma limpa.
E eu vou saber se ela tem, Amanhã.
Vamos ver.