Júlia narrando
Faz três dias que cheguei e já estou querendo arrumar um trabalho, Esses dias tenho ajudado a Camila nas coisas da casa, fui com ela buscar as meninas na escola e também tenho me envolvido nas tarefas dela. Camila faz crochê e bordado pra vender, e eu tô ajudando como posso. Sou muito boa no crochê, diga-se de passagem. Mas eu queria mesmo era conseguir um trabalho, algo que ocupasse a minha mente, em tempo integral, que me distraísse.
Toda vez que a gente sai na rua, eu olho pro lado e penso, como será que está o Leonardo? Será que se eu visse ele na rua, eu reconheceria? Só por curiosidade, perguntei pra Camila, mostrando desinteresse total.
Júlia: E o dono do morro? É casado?
Ela me lançou um olhar desconfiado, meio divertido, e perguntou:
Camila: Tu gosta de homem de fuzil, é?
Sorri, tentando disfarçar o aperto no peito.
Júlia: Não tenho nada contra não, Mas era só uma pergunta. Sem interesse.
Camila riu, como quem sabia mais do que dizia, e respondeu.
Camila: Ele é viúvo.
Na mesma hora, meu coração disparou, Viúvo. A palavra ecoou dentro de mim como um trovão.
Júlia: Viúvo? - repeti, quase num sussurro.
Camila: É - ela continuou, agora com um tom mais sério.
Camila: A mulher dele morreu de aneurisma, Foi logo depois da filha deles nascer, a menina tinha só meses.
Engoli seco, lutando pra não chorar na frente dela. A dor no peito voltou com força, aquela que nunca foi embora de verdade. Fiquei em silêncio, fingindo que prestava atenção nas roupas, mas a cabeça já estava longe.
E eu ali, tentando manter a compostura. Não podia demonstrar. Não podia dizer nada. Não depois de tanto tempo. Não depois de ter ido embora daquele jeito.
E também ninguém sabe sobre nós, lá no sul nunca foi falado o Real motivo de termos voltado pra lá, a família nem sonha que eu tive um namorado e perdi um filho dele.
Eu nunca mais deixei nenhum homem se aproximar de mim, Nunca esqueci aquele sorriso torto dele, nem a forma que me chamava de “minha Julinha”. Mas eu não posso cobrar nada. Não posso falar nada.
Só sentir. E agora, cada passo que dou nessa favela me aproxima de algo que eu não sei se tenho coragem de encarar.
O mesmo Leonardo que um dia eu amei com tudo o que tinha. O mesmo que talvez nem lembra mais que eu existo.
Terminamos de almoçar, eu, Camila e as meninas. Depois que todo mundo comeu, fui direto pra pia lavar a louça. Lavei tudo com capricho e deixei no escorredor, enquanto Camila ia arrumando o resto da cozinha. As meninas, como sempre, foram brincar. Elas correm o dia todo, parece que têm uma bateria infinita.
Camila avisou que ia deitar um pouco, descansar, e eu fui também. Me joguei no colchão, tentando aproveitar uns minutinhos de silêncio, mas não durou muito. Eu estava quase pegando no sono quando ouvi a voz do Thiago me chamando lá da sala.
Levantei na hora e corri pra ver o que era, Vai que tinha acontecido alguma coisa.
Júlia: Tá tudo bem? Aconteceu alguma coisa? - perguntei, ainda ofegante.
Thiago: Tá tudo certo, prima. Só vim te dar um papo, arrumei um trampo pra tu, se quiser - ele falou, com aquele jeito dele, sempre direto.
Camila apareceu na porta do quarto dela, rindo.
Camila: Tu falando essas gírias de carioca é muito engraçado, Thiago - ela disse, balançando a cabeça.
Nós três rimos juntos por um instante, mais é engraçado mesmo, ele tem nosso sotaque muito forte, aí mistura com o carioquês, mas eu voltei logo ao assunto.
Camila: Que trabalho é esse?
Thiago: Ju, o Mestre tá precisando de uma babá. É bem difícil conseguir chegar perto da filha dele, mas não custa tentar.
Nessa hora, meu coração acelera. Será que vou conseguir ver ele de perto? Será que ele lembra de mim?
Camila ficou surpresa também e falou.
Camila: Dizem que ele não deixa qualquer um chegar perto da menina - comentou, séria.
Thiago confirmou.
Thiago: A menina tem que ser tratada como um verdadeiro cristal, tá ligado? Ele não confia em ninguém, se ele mandou te chamar, ele tá confiando na minha palavra de que tu é responsa.
Eu respirei fundo, Era a chance de ficar perto dele. De mostrar que eu sou essa pessoa de confiança, de talvez, sei lá, ser vista de um jeito diferente.
Júlia: Eu aceito - falei, firme.
Júlia: Pode confirmar com o seu chefe que eu topo.
Thiago sorriu, satisfeito, ele sabia que eu não ia correr.
Thiago: Então amanhã cedo eu vou piar aqui. Bota uma roupa no estilo, e veste a tua coragem, prima. Porque amanhã tu vai ficar de frente com o homem.
Nessa hora, meu coração acelerou. Senti até um frio na barriga. Não sei se foi medo, ansiedade ou os dois misturados. Mas eu sabia, lá no fundo, que era a hora. A hora de me mostrar, de encarar meu destino de frente.
Júlia: Eu tô pronta - respondi, encarando ele de volta.
Camila ficou me olhando, meio preocupada, meio animada.
Camila: Tu tem certeza, Júlia?
Júlia: Tenho. Eu tô pronta, Camila, eu adoro trabalhar com criança.
Ela veio até mim, me deu um abraço apertado.
Camila: Então vai com fé, e boa sorte.
Assenti com a cabeça, a cabeça ainda girando com tudo o que podia acontecer, mas o coração já estava lá na frente, pronto pra bater mais forte quando os olhos dele encontrassem os meus.
Depois que o Thiago saiu, fui direto pro quarto. Abri o guarda-roupa das meninas, onde ficam as roupas delas e as minhas também, e escolhi uma calça jeans e uma blusa bem comportada. Vou com meu tênis de guerra, aquele que serve pra tudo, e fiquei um tempo parada, olhando pro nada.
Minha cabeça não parava. Pensava em tudo e em nada ao mesmo tempo, Um nó no peito e aquela ansiedade queimando o estômago. À noite, quando o João chegou, contei tudo pra ele, Ele nem pestanejou.
João: Vai dar certo, Júlia - ele disse, firme.
João: É só fazer o teu, ficar na tua. Faz o que tem que fazer e pronto, tá tudo certo.
Me apeguei a isso: tá tudo certo. Repeti mentalmente várias vezes, como se fosse uma oração. Tá tudo certo.