Continuando...
Kian
Olhei ao redor. Não havia bagagem. Nenhuma mala, nenhuma mochila, nenhum pertence. Apenas ela, o bebê e as roupas do corpo. Nada mais.
Algo apertou meu peito. Eu me senti como se eu estivesse vivendo tudo de novo, quando conheci Dalton eu não tinha nada nem o meu nome.
Virei-me para o cão, que estava deitado perto da lareira, observando tudo com olhos atentos.
— Cuida deles — ordenei, apontando com o queixo para a cama.
Cão ergueu a cabeça, bateu o r**o uma vez no chão e se levantou. Andou até a cama e se deitou ao lado, o corpo enorme fazendo a madeira ranger sob o peso.
Eu acendi as luminárias de querosene, espalhando uma luz amarelada e quente pelo cômodo. Depois, peguei as chaves da caminhonete penduradas no gancho e saí.
Precisava de coisas. Coisas que ela não tinha. Coisas que eu nunca precisei comprar para ninguém.
Dirigi por vinte minutos pela estrada de terra, a caminhonete pulando nas pedras e buracos. A floresta passava como um borrão verde e marrom pelas janelas. Cheguei ao entreposto o único lugar num raio de 500 quilômetros que vendia suprimentos para os poucos moradores da região. Era um armazém grande, meio bar, meio loja, onde se vendia de tudo e se comprava de tudo. Troca, escambo, dinheiro qualquer coisa servia.
Empurrei a porta de madeira e uma campainha rangeu. O cheiro de café velho e madeira úmida me envolveu. Logan, o dono, estava atrás do balcão, com sua barriga generosa apoiada na madeira polida pelo uso. Ele levantou os olhos e um sorriso largo abriu seu rosto enrugado.
— Kian! Há quanto tempo, rapaz! — Ele estendeu a mão e eu apertei, firme. — O que te traz aqui? Não é todo dia que você aparece.
Emma, sua esposa, saiu dos fundos com um pano no ombro. Cabelos grisalhos presos em um coque, olhos azuis e vivos.
— Kian, querido! — Ela veio me abraçar e eu deixei, porque Emma era uma das poucas pessoas que eu tolerava tocando em mim. — Estava com saudades. O que você precisa?
Eu não rodei.
— Preciso de suprimentos. Comida. Frutas. — Pausei. — E alguns vestidos prontos. Roupa para mulher. E coisas para um bebê. E alguns metros de tecido.
Logan ergueu uma sobrancelha. O silêncio se estendeu por um segundo. Dois.
— Rapaz... — Logan inclinou a cabeça, um sorriso malicioso começando a se formar. — Você se casou?
Eu olhei para ele e disse que me daria menos dor de cabeça ja que todos ali sabiam que eu não tinha familia.
— Sim.
Emma soltou uma exclamação abafada. Logan deu uma gargalhada baixa.
— Nunca soube que você estava noivo. E nunca vi você namorando ninguém. Onde você arrumou uma mulher?
— Não namorei — respondi, seco.
Emma colocou a mão no peito, os olhos brilhando.
— Ah! Pode ser uma namorada por correspondência! Eu ouvi falar disso. Você escreve cartas ou emails essas modernidades, conhece alguém de longe... Mas quando ela chegou que não passou por aqui?
Pensei em responder: De uma instalação do projeto Quimera e antes de uma seita religiosa... Ela acha que meu pa.u e magico, mas mordi a língua e respondi —Eu fui buscar.
Eu encarei Emma. Depois Logan. Depois o teto de madeira.
Logan riu alto, batendo a mão no balcão.
— As moças de Donovan vão sentir sua falta, hein? Você era o homem mais cobiçado do lugar. E agora está casado com uma mulher que nunca viu.
Fechei a cara. Não queria responder mais nada para eles. As mulheres de Donovan eram moças que vinham para o lugar alegrar os homens. Minha mandíbula travou, e Logan, que me conhecia há anos, entendeu o recado. Parou de rir.
— Tá bem, tá bem — ele levantou as mãos. — Vamos pegar suas coisas.
Enquanto Emma separava vestidos de algodão. ela perguntou.
— Qual o tamanho da sua noiva?
— Não sei pequena — Eu tentei mostrar com as mãos e a mulher fez um semblante que não entendeu
— E a cor que ela gosta
— Qual quer uma
— E o estilo
— Comprido.
— Você não sabe muito de coisas femininas não é?
— Não, e não quero saber
As roupinhas de bebê pequenas, tão pequenas que quase cabiam na palma da minha mão eu carregava sacos de farinha, latas de enlatados, frutas secas e frescas. Quando terminei, paguei em dinheiro. Sempre em dinheiro.
Voltei pela estrada de terra, o sol já baixo no horizonte pintando o céu de laranja e roxo. A caminhonete sacudia, os sacos de compras batendo uns nos outros no banco de trás. O ar gelado entrava pela janela entreaberta.
Cheguei na cabana quando o crepúsculo já se instalava. Estacionei, peguei as sacolas e fui em direção à porta. Ao abri-la, algo me parou.
A porta do banheiro estava aberta. Do canto onde eu estava, podia ver através da pequena a******a.
E então eu ouvi.
Uma voz. Suave. Doce. Cantando.
Hannah estava na banheira de madeira que eu mesmo construí. A água estava quente, eu tinha desviado um veio de uma fonte termal para o meu banheiro. Seus cabelos escuros estavam molhados, grudados no rosto e no pescoço. Ela segurava o bebê contra o peito, a água cobrindo até os ombros, e cantava.
Uma canção de ninar. Baixa, trêmula, mas cheia de amor.
O bebê estava acordado, os olhos claros fixos no rosto da mãe, ouvindo. A luz das luminárias de querosene dançava sobre eles, criando sombras douradas na pele úmida de Hannah.
Fiquei de p.au duro... Merda, se eu não me segurasse teria que me amarrar em uma arvore