Ana Flor
Almoçamos juntos, os funcionários servem a comida dele e logo vão comer também.
Ele já está se arrumando pra sair pra algum lugar, eu estou perdida nessa casa.
- Vai ficar com esse quarto mesmo? - pergunta enquanto eu já decidi qual meu quarto aqui.
- Sim, da pra ver bem a piscina daqui
- Você sabe que todos dão né? - me olha com uma cara desconfiada.
- Eu sei, mas gostei desse mesmo.
- E outra coisa que tenho que perguntar a você
- Pode perguntar
- Você já pagou suas contas esse mês? luz, internet essas coisas?
- Já pagamos algumas
- As que não estiverem pagas, eu vou te mandar um numero que é da Wanessa, do meu financeiro... você encaminha pra ela, que já vão ser pagas junto com as minhas, e faça isso todos os meses.
- Tá certo então - falo apenas, ele vai pagar mesmo?
- Agora eu preciso ir, fica a vontade aí - fala já saindo do quarto.
- Você vai demorar? - questiono e vejo ele sorrindo.
- Não, chego antes do jantar
- Tá bom - falo e ele sai, encosto a porta e me jogo na cama.
Gente onde foi que eu me meti, esse homem não parece o mesmo soberbo que estava naquele dia do restaurante, não é possível.
(...)
* Oi vó
* Oi minha filha
* Só te liguei pra dizer que está tudo bem
* Graças a Deus, estava orando pra isso, você já comeu?
* Já sim vó, e comida de rico viu
* Agora tá chique, já espalhei pra todo mundo
* Vó pelo amor de Deus, não fica fazendo isso não, vai que dá tudo errado?
* Não vai dar nada errado - minha vó espalhando que estou trabalhando e eu aqui agora deitada na cama.
* Mesmo assim, não precisa ficar colocando assunto na boca das fofoqueiras.
* São minhas amigas filha
* Fofoqueira igual - falo rindo e ela rir também.
* Ta bom, vou fofocar menos
* Tá certo vo, você está bem né?
* Estou sim, estou em casa sem fazer nada... não tem como está r**m.
* A vida que pediu a Deus né
* Com certeza, mas com o corpo coçando pra fazer alguma coisa.
* Mas vai se acostumando, essa é sua nova vida
* Acho que consigo me acostumar - damos
risada - não quero atrapalhar você não minha filha.
* Você não atrapalha não
* Você trabalhando e eu aqui sem fazer nada puxando conversa.
* Pode conversar vó, tem problema não
* Seu primeiro dia, tem que passar boa impressão.
* Tá certo então, quando eu puder eu te ligo de novo.
* Tá bom minha filha, bom trabalho... e vigie dormindo aí.
* Pode deixar, te amo
* Te amo minha menina
Desligo o telefone e fico olhando pro teto, mas logo decido explorar a casa.
Desço as escadas, e a casa está silenciosa, como uma casa com tanta gente está esse silêncio absoluto.
- Precisa de ajuda senhora? - eu tomo um susto e não consigo disfarçar a Berna surge do completo nada - perdão senhora, não queria lhe assustar.
- Não tem problema, eu só não estava esperando ninguém aparecer, estava um completo
silêncio - falo sorrindo.
- Eu vi a senhora e imaginei que queria algo
- Não Berna, estava só sem fazer nada, aí vim olhar um pouco a casa.
- A tudo bem, vou deixar a senhora a vontade.
- Não precisa me chamar de senhora
- É norma
- Pode me chamar de Ana, ou flor se preferir... eu que deveria chamar lá de senhora - já que ela é bem mais velha que eu, minha vó me ensinou que isso é sinônimo de respeito - não me importo com essas coisas.
- Tudo bem senh... Ana, vou me policiar - diz
- Você está ocupada?
- Ia tomar um café da tarde, mas se precisar de alguma coisa.
- Posso ir com você? - pergunto e vejo sua feição surpresa - se não puder tudo bem, não tem problema.
- A senhora quer tomar café com os empregados?
- Tem problema?
- Não, não... vamos - vou indo atrás dele - é na casa de serviço.
- Tudo bem, tava curiosa pra conhecer lá
Chegamos na casa e a cozinha que tem lá é enorme, vejo que todos os funcionários estão juntos e assim que eles me veem mudam a postura, e os seguranças levantam.
- Tudo bem, pode sentar - todos olham como se eu fosse um bicho, ou como se fosse dar a maior bronca possível.
- A Ana veio tomar café com a gente - A Berna diz e vejo a cara de estranhamento deles.
- Se não puder tudo bem - falo
- Pode ficar a vontade - a Leila diz - eu fiz bolo de laranja, coisa simples - diz e vem me servir
- Não precisa, eu me sirvo, vocês estão no momento de café ... a intrusa sou eu - levanto e sirvo meu pedaço de bolo.
Todo mundo se serve e pego um café com leite pra acompanhar o bolo.
- Vocês trabalham muito tempo
aqui? - questiono.
- Eu trabalho a 8 anos aqui - a Leila diz
- Muito tempo.
- A Berna e o João são os funcionários mais antigos, um tem 15 e outro 12 anos - a Leila é a mais comunicativa.
- 15 anos é uma vida, nunca teve vontade de jogar tudo pro ar não? - pergunto rindo pra Berna.
- Eu gosto de trabalhar aqui - eu sinto que ela tem um pé atrás comigo, não sei se é apenas uma impressão.
- Vocês são bem novas né? - pergunto as meninas da cozinha.
- Sim, temos 25 e 26 - um só responde e a outra nem na minha cara olha.
- A Filipa é minha filha - A Leila diz - ela veio me ajudar aqui.
- Entendi
- E minha vó me trouxe, porque eu estava precisando, sabe como é né - a mesma que me respondeu ante diz - quer dizer não deve saber
- Sei - falo rindo - eu bem sei
- Você nasceu onde? - um dos seguranças pergunta
- Eu sou do Vale Sereno - vejo a cara de surpresa deles.
- Você morava naquela favela? - ele pergunta realmente surpreso, acho que todos.
- Não só morava, como moro até hoje - todo mundo me olha chocado e eu acho engraçado e acabo rindo.
- Realmente estou surpreso, eu tenho um tio que mora por lá.
- Sério? - falo sorrindo - lá apesar de tudo é um bairro bom de morar.
- Sim, eu ia bastante a uns 25 anos atrás, quando era criança... que claramente você não era nascida ainda.
- Não mesmo, tenho 21 só - comento rindo.