capítulo 17

1770 Palavras
O elevador começou a subir, e Marina se viu encarando o próprio reflexo no espelho — bochechas quentes, expressão confusa, respiração curta. — O que o papai quer com ele? — murmurou por dentro, apertando o botão do andar como se isso acelerasse o tempo. Não fazia sentido. Patrício não era de pedir favores. Não era de confiar em estranhos. Não era, definitivamente, de confiar sua filha a um homem que ele m*l conhecia. Será que queria interrogar Erick? Agradecer? Avaliar? Ou… pior: adverti-lo? Seja lá o que fosse, não parecia pequeno. E então, só depois dessas perguntas, o pensamento mais perigoso escorregou por baixo dos outros — lento, inevitável: Eu vou ver o Erick. Logo cedo. Depois do quase beijo de ontem. E o estômago dela revirou. Os números iluminados subiam devagar demais. 20… 21… 22… Ela podia simplesmente pedir a um funcionário para chamá-lo. Podia ligar do saguão. Podia evitar se aproximar dele tão cedo, quando m*l tinha conseguido se olhar no espelho sem lembrar da noite anterior. Mas não. Você teve que se oferecer para subir, né, Marina? Genial. Parabéns. 23… 24… Ela respirou fundo, tentando segurar o caos que se agitava dentro dela. Quando o 25 acendeu, seu coração deu um salto. As portas se abriram. O corredor estava silencioso, acarpetado, quase solene. Marina caminhou até a porta 404, cada passo mais barulhento dentro dela do que no carpete. Parou diante da porta. Inspirou fundo. E bateu. Toc. Toc. Toc. Nada. Bateu de novo. Toc. Toc— Lá dentro, Erick estava no banho. O vapor ainda preenchia o box quando ele ouviu o som insistente na porta. — Tô no banho! — ele gritou. Mas a batida continuou. Mais firme. Mais impaciente. Ele revirou os olhos, puxou a toalha e a amarrou na cintura — ainda pingando — enquanto murmurava: — Mas que diabos… é cedo demais pra ser a camareira. Isso só pode ser o Edward. Abriu a porta com irritação evidente no maxilar. E congelou. Não era Edward. Não era a camareira. Era Marina. Os dois ficaram imóveis por um segundo que pareceu durar inteiro. O rosto dela ficou corado na mesma hora — e não só o rosto: o pescoço, as orelhas, até a respiração entregava o estrago. Ele estava ali, quase nu, a água ainda escorrendo do cabelo penteado para trás, gotículas traçando caminhos lentos pelo peitoral firme até desaparecerem abaixo da toalha. Marina não queria olhar. Não deveria olhar. Mas olhou. E Erick viu. Os olhos dela descerem. E prenderem. Ela sugou o ar, sem perceber. E Erick sentiu o corpo responder de um jeito rápido demais, como se a lembrança do quase-beijo tivesse ficado dormindo sob a pele… e acordado com um choque. Ele engoliu em seco, tentando recuperar o controle. Marina percebeu o movimento da toalha… e virou o rosto tão rápido que o cabelo quase bateu no ombro. — Meu Deus. — murmurou baixinho, sem ar. Erick deu um passo — apenas um — e Marina sentiu a respiração dele tocar o topo da sua cabeça. O corpo dela reagiu por conta própria, com arrepios que subiram pela coluna inteira. A voz dele saiu baixa, rouca, perigosa: — A que devo a honra…? Marina fechou os olhos por meio segundo. Foco. Você precisa de foco. — M-meu pai… — começou, falhando na primeira tentativa. — Meu pai precisa falar com você. A voz dela saiu fraca, mas firme o bastante para existir. Ela não ousou virar. Não enquanto o coração insistia em bater no ritmo errado. — Vista-se. — completou, tentando juntar as migalhas de dignidade. — Vou te esperar na recepção. E saiu. Ou tentou sair com elegância. No fim, tropeçou no tapete do corredor — mas conseguiu se recompor antes que ele visse. Acredita ela. Quando chegou perto do elevador, apertou o botão com força. O visor mostrava: 10 → 12 → 13… — Mas não é possível… — ela quase gemeu, impaciente. Por instinto — ou pura curiosidade masoquista — olhou por cima do ombro. Erick ainda estava lá. Parado na porta. Apenas a toalha no corpo. O olhar… preso nela. Marina arregalou os olhos e virou de volta tão rápido que até o pescoço doeu. — Ele não tem noção… ou quer me m***r de vez. — pensou, desesperada. O elevador finalmente chegou com um ding misericordioso. Ela praticamente mergulhou lá dentro. As portas se fecharam. E, do outro lado, Erick sorriu. Um sorriso curto, satisfeito, irresistível — como se aquela manhã tivesse começado muito melhor do que ele imaginava. Ele passou a mão no cabelo molhado, fechou a porta do quarto com calma… E foi se vestir. Porque Patrício a estava esperando. E ele… estava mais do que pronto. O elevador desceu enquanto Marina tentava, inutilmente, recuperar o controle da própria respiração. Cada andar que diminuía parecia não levar apenas o elevador consigo… mas também a compostura dela. Quando finalmente chegou à recepção, avistou os pais já sentados no sofá curvo, conversando baixo. Ela se aproximou, tentando parecer normal. Falhou miseravelmente — de novo. Sentou-se entre eles, cruzou as pernas, descruzou, apoiou as mãos no colo, largou… tudo parecia errado. O sofá era confortável, mas ela não conseguia relaxar. O vidro da mesa à frente refletia suas bochechas absurdamente coradas. E, claro, a mente dela não colaborava. Porque cada piscada trazia de volta a imagem proibida: Erick com a toalha baixa, a água escorrendo pelo peito, a voz rouca dizendo “a que devo a honra?”, o jeito como ele a olhou — como se a noite anterior estivesse estampada na pele dos dois. Marina apertou as coxas juntas sem nem perceber. Um calor subiu direto para o baixo ventre. — Meu Deus… — murmurou por dentro, desesperada. Foi nesse exato segundo que o elevador fez um ding atrás dela. E Marina soube. Antes mesmo de olhar, soube. Ela virou — por puro instinto suicida — e lá estava ele. Erick saiu do elevador com passos calmos, o cabelo ainda úmido, barba impecável, roupas escuras moldando um corpo que certamente não tinha se recuperado da visão que Marina tivera minutos antes. Os olhos dele encontraram os dela imediatamente. E Marina engoliu seco. Literalmente. A saliva parecia descer devagar demais pela garganta, denunciando cada milímetro da tensão. — Bom dia. — disse Erick, com um sorriso educado por fora… e absolutamente devastador por dentro. — Doutor Vegas! — exclamou Miranda, levantando-se para abraçá-lo. Patrício ofereceu um aperto de mão firme, sólido, quase cerimonial. Marina apenas sustentou um meio sorriso tímido, o olhar fugindo e voltando como se tivesse vontade própria. — Por favor, sente-se — pediu Miranda. Erick obedeceu, acomodando-se ao lado de Marina. Perto demais. Ela sentiu. Ele também. O cheiro suave dela mexeu com ele — como se cada respiração reacendesse o que ele achou que tinha domado no banho. Patrício pigarreou, assumindo postura de quem está prestes a abrir uma reunião estratégica. Costas eretas, braço apoiado na perna, um olhar que avaliava Erick como se revisse um relatório confidencial. — Doutor Vegas — começou ele, deixando o título pairar no ar — não conversamos adequadamente depois do que aconteceu. Vamos acertar isso agora. O tom não era agressivo. Era autoridade pura. Miranda pousou a mão no joelho do marido, suavizando sem realmente pará-lo. — Queremos agradecer — disse ela. — Você salvou nossa filha. Erick manteve a compostura, embora sentisse a tensão crescer. — Fiz apenas o que qualquer pessoa faria… — Não — cortou Patrício, com a precisão de quem sabe exatamente onde atingir. — Qualquer pessoa hesita. Qualquer pessoa evita se meter. — Ele inclinou a cabeça, estudando Erick. — Você não hesitou. Havia um teste ali. E Erick percebeu. — Quando alguém está em perigo, eu não hesito mesmo. Patrício soltou um “hm” satisfeito, quase inaudível. Miranda sorriu, emocionada. O olhar de Erick buscou Marina. Ele não queria, mas procurou. E ela desviou… tarde demais. Patrício viu. E anotou mentalmente. — Isso nos deixa mais tranquilos — disse ele, cruzando as pernas. — Porque, a partir de agora, deixo minha filha sob seus cuidados. O sangue subiu ao rosto de Marina numa onda quente e imediata. Ela piscou, incrédula — não pelo que ouviu, mas pela naturalidade com que o pai falara… como se ela não estivesse ali. Como se fosse um problema a ser transferido, um pacote frágil demais para carregar sozinho. O maxilar dela travou. Os dedos apertaram o tecido da própria roupa com força silenciosa. — O quê?! — o tom saiu mais alto do que pretendia, carregado de irritação crua. — Pai, eu sei me cuidar! Ela lançou um olhar rápido para Erick — não de cumplicidade, mas de puro constrangimento. Como se pedisse desculpas por algo que nem deveria existir. — Eu não sou responsabilidade de ninguém — acrescentou, mais baixo, porém mais cortante. — Muito menos… um caso clínico para ser supervisionado. — Ninguém disse o contrário, Marina — retrucou Patrício, ainda sem olhar para ela. — Mas se cuidar não te protege de certos riscos. — E finalmente virou o rosto. — Especialmente quando certas pessoas insistem em aparecer de novo. Phillipe. O nome não dito caiu entre os quatro como uma sombra. A mandíbula de Erick tensionou. Miranda interveio, tentando aliviar. — Amor, talvez você esteja sendo muito direto… — Estou sendo honesto — corrigiu Patrício. Depois, encarou Erick novamente. — Minha família é prioridade. Imagino que você compreenda. Erick respirou fundo. — Compreendo perfeitamente. — Ótimo. — Patrício sorriu, polido e calculado. — Não confio minha filha a qualquer um. — Inclinou-se para frente. — Mas você parece alguém que leva responsabilidade a sério. Não era elogio. Era uma avaliação final. Marina queria sumir dali. — Vocês vão perder o voo — murmurou ela. Patrício ignorou. Erick falou, firme, intenso demais: — Senhor Patrício… senhora Miranda… eu asseguro que cuidarei dela. Do que for necessário. Marina sentiu a espinha eletrificar. Miranda sorriu, satisfeita. Patrício manteve o olhar preso nele por mais um segundo — quase um aviso silencioso. Então se levantou. — Muito bem. Estamos claros. Erick e Marina também se levantaram. Antes de partir, Patrício apertou a mão de Erick com força controlada — boas-vindas e aviso ao mesmo tempo. — Espero que conversemos melhor em outra ocasião. — disse, firme. — Gosto de conhecer a fundo quem se torna… significativo… na vida da minha filha. Marina perdeu o ar. Erick ficou imóvel por um instante — não intimidado, mas marcado. Miranda puxou o marido. E os dois finalmente se foram. Marina acompanhou a saída com o coração acelerado — metade alívio, metade caos.
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