capítulo 18

1535 Palavras
Assim que os pais desapareceram no corredor, Erick soltou o ar que não sabia que estava prendendo. Marina virou para ele na mesma hora — rápida demais, tensa demais. — Me desculpe por isso. — disse, passando a mão pela testa, claramente exausta. — Não os leve tão a sério. Ela não estava apenas constrangida. Estava irritada. Humilhada. E, pior… consciente demais da forma como o pai a colocara sob a p******o dele — justamente dele. Erick arqueou uma sobrancelha, com aquele meio-sorriso impossível de decifrar. — Seria um problema… se eu cuidasse de você? A pergunta não soou como brincadeira. Soou como provocação calculada. Marina cruzou os braços — defesa automática — enquanto um sorriso quase irritado surgia no canto da boca. — Talvez. Depende do ponto de vista. Eu não gosto que invadam meu espaço. Nem que percebam quando eu fico vulnerável, pensou… mas não disse. Ele deu um passo lento na direção dela. Perigoso. Deliberado. Consciente demais do efeito que causava. — Não gosta… ou tem medo? — perguntou ele, baixo demais para alguém mais ouvir. O ar falhou por um segundo nos pulmões dela. Não pela pergunta — mas porque ele estava perto demais… e atento demais. Ainda assim, Marina ergueu o queixo. — Medo? — repetiu, tentando soar inabalável. — Do quê, exatamente? Erick parou diante dela. Não tocou. Nem precisou. O espaço entre eles parecia carregado de algo que nenhum dos dois nomeava. — De alguém chegar perto demais. — disse, simples. Cru. Honesto demais. O coração dela errou o compasso — e ela odiou o quanto aquilo era visível para si mesma. — Erick… — tentou, mas a voz falhou no meio. Ele percebeu. Claro que percebeu. — Você me evitou na casa dos Hastings depois daquilo… — murmurou, deixando a memória pairar entre os dois — …e está me evitando de novo. Isso costuma acontecer quando alguém fica desconfortavelmente consciente da outra pessoa. Não era acusação. Era leitura. Marina quis negar. Quis rir. Quis virar o jogo. Mas nada veio. Ele sorriu de canto. Devagar. Não arrogante — seguro. — Ou estou errado? Ela respirou fundo, tentando recuperar o controle que parecia escorrer pelos dedos. — Você está sendo arrogante. — disse… mas o sussurro traiu a firmeza que tentava sustentar. — Não. — Ele deu mais um passo. Agora era impossível ignorar a tensão entre eles. — Estou sendo sincero. Coisa que você evita quando envolve você mesma. Os olhos dela se estreitaram. — Eu evito? — Evita. — Ele inclinou a cabeça, observando cada microexpressão. — Você não gosta de admitir quando algo mexe com você. Muito menos… quando alguém mexe. Silêncio. Não vazio. Denso. Quente. Cheio de coisas que nenhum dos dois estava pronto para dizer em voz alta. Marina sentiu o impulso urgente de sair dali. Não porque estivesse com raiva… mas porque estava perto demais de ceder — e isso era inaceitável para alguém que lutara tanto para manter o controle da própria vida. Endireitou a postura. Colocou o sorriso profissional no rosto como uma armadura. — Até mais, Erick. Virou para ir embora. — Não precisa fugir de mim toda vez. — a voz dele veio atrás, calma… certeira. Ela fechou os olhos por meio segundo. Droga. Virou apenas o suficiente para olhá-lo por cima do ombro. — Eu não fujo de você. — respondeu, controlada demais para alguém tão afetada. — Eu só sei quando parar. Erick manteve os olhos presos aos dela. — E essa é a parte em que você para? A espinha dela se acendeu inteira. Mesmo assim, manteve a postura impecável. — Essa é a parte em que eu vou trabalhar. — disse, firme. E entrou no elevador. Firme por fora. Em combustão por dentro. Erick ficou alguns segundos observando as portas se fecharem. Viu o brilho profissional voltar aos olhos dela… mas também viu o tremor que ela tentara esconder. E aquilo mexeu com ele mais do que deveria. Respirou fundo. Ajustou a camisa. Ignorou os olhares curiosos no saguão. E saiu para a rua — não para fugir dela… mas para fugir do quanto queria voltar atrás e puxá-la de volta. Precisava de ar. Porque, desde que Marina surgira na vida dele, a própria cabeça parecia viver em combustão constante. O resto do dia passou rápido demais. Talvez porque ele estivesse tentando, a todo custo, não pensar nela. Fez uma caminhada longa cedo, almoçou com Eduardo, até foi ao clube com ele — uma manhã produtiva para alguém que normalmente levava a vida no piloto automático. À tarde, tentou retomar sua rotina, manter a mente ocupada. Funcionou… por algumas horas. Quando se deu conta do tempo, já passava da meia-noite. Ainda estava sentado diante do notebook, ajustando a agenda médica para o retorno ao trabalho. Faltava menos de um mês para voltar à rotina em Houston. Poderia, se quisesse, estender as férias — depois de dois anos seguidos praticamente morando no hospital, ele merecia. Mas, estranhamente, tudo dentro dele pedia o contrário: ir embora. Aquele lugar, aquelas semanas, tudo o deslocava. O surpreendia. O assustava. Inseguranças. Incertezas. Medo. E Marina… Marina era o centro de tudo isso. Ele estava apaixonado. A constatação vinha clara demais para ser ignorada. Não era só desejo, nem carência, nem a ilusão confortável de um intervalo da vida real. Era sentimento. Profundo. Incômodo. Real. Ela bagunçava seu eixo, desmontava defesas antigas. Com Marina, o peito ficava leve — leve demais para alguém acostumado a sobreviver no peso. E isso o apavorava. Porque aquela leveza vinha acompanhada de uma necessidade silenciosa: a de querer ficar, de querer mais, de querer ela. Mas até quando? E se aquela atração quase devastadora, aquela vontade constante de puxá-la para perto toda vez que ela se afastava, não fosse passageira? E se fosse amor? Amor. A palavra agora não soava absurda. Soava perigosa. Com Eliza fora assim. Levou meses para reconhecer o que sentia — e, quando finalmente admitiu, ela foi embora. Sem explicações. Sem despedidas. Um abandono silencioso que ainda ecoava no peito dele. E agora, com Marina… o risco parecia maior. Ele sabia que estava envolvido, sabia que estava caindo — e justamente por isso o medo era tão grande. Não tinha certeza se suportaria outra queda. Não tinha estrutura emocional para outra perda. Por isso tentava se enganar. É só desejo, repetia para si mesmo. Ela é desejável. Isso é normal. Mas a verdade já estava clara demais para ser negada. Ele estava apaixonado. E isso o assustava mais do que qualquer plantão, qualquer emergência, qualquer cirurgia. Estava exatamente nesse turbilhão quando uma notificação surgiu no canto da tela. Há quanto tempo, Erick. O corpo dele congelou. Erick piscou devagar, encarando a foto de perfil como se fosse um fantasma. Porque era. Porque ela era. Erick, você está aí? O ar saiu do peito dele como um soco. Ele fechou o notebook de maneira brusca e se levantou, passando as mãos pelo cabelo, andando pelo quarto como se o chão tivesse perdido estabilidade. O estômago revirou. Um nó quente subiu pela garganta. Assustado. Sim — dessa vez, assustado. Nunca considerou a possibilidade de Eliza voltar. Depois que ela o deixou, ele tentou contato por quase um ano — mensagens, ligações, silêncio total. E agora… agora ela estava ali. Digitando. Querendo resposta. Ele deveria responder? Deveria exigir explicações? Ou mandar ela ir para o inferno? Qualquer escolha parecia errada. Respirou fundo, recolheu o notebook e se sentou no sofá. Com receio — e talvez curiosidade demais — abriu a tela novamente. Duas novas mensagens. senti sua falta. espero que algum dia me perdoe. O golpe foi direto, seco, certeiro. Doía. Porque alguma parte dele ainda sangrava quando pensava nela. — Mas que m***a eu tô pensando? — rosnou, irritado consigo mesmo. — Ela nunca me amou. Só me fez de trouxa. Puxou os cabelos com força, tentando arrancar as lembranças pela raiz. Ele não podia… não podia se permitir cair naquilo outra vez. Depois de longos minutos, mais calmo — ou apenas exausto demais para sentir — Erick tomou uma decisão simples e brutal: Ignorou. Fechou o notebook devagar, o peito ainda apertado — não por Marina, não exatamente… mas pelo fantasma de Eliza ressurgindo justo quando suas defesas já estavam frágeis demais. Precisava sair dali antes que a mente começasse a girar em círculos. Pegou o cartão do quarto e saiu para o corredor silencioso do hotel. Desceu dois andares… parou. Mudou de direção. Subiu para a cobertura. Não era exatamente um impulso aleatório. Nas últimas semanas, perceberá um padrão discreto: em noites mais longas, quando as luzes da cidade já estavam rareando, Marina costumava desaparecer dali de baixo. E uma vez — só uma — ele a vira sentada à beira da piscina, pés na água, olhando o horizonte como se estivesse tentando organizar o próprio mundo. Dissera a si mesmo que era coincidência. Dissera que não estava prestando atenção. Mas estava. E agora… precisava de ar. Precisava de silêncio. Precisava de qualquer coisa que não fosse o eco das mensagens de Eliza na cabeça. Quando empurrou a porta de vidro da cobertura, o vento da madrugada bateu no rosto — frio, limpo, quase reconfortante. E então ele a viu.
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