Donatella Ricci
Acordei antes mesmo do despertador. O céu ainda estava cinza do lado de fora da janela, mas meu corpo já pulsava em antecipação. Era o dia do evento da Carbone. E não apenas um evento, era o evento. O momento em que todas as famílias influentes apareciam com seus sorrisos envernizados, vestidos que custavam o preço de carros, e olhares afiados prontos para medir poder, beleza e influência.
Me espreguicei lentamente, sentindo os lençóis de cetim deslizarem pela minha pele. O ar do meu quarto estava levemente frio, perfumado com o aroma do meu difusor favorito: sândalo com baunilha. Me levantei, vesti o robe preto de seda com a letra “D” bordada no peito e fui até a cozinha preparar meu café. Um ritual meu, inegociável. Antes de qualquer coisa, espresso forte, sem açúcar e com baunilha.
Dei o primeiro gole no café quando o interfone tocou.
— Senhorita Ricci? — disse a voz animada do porteiro. — O senhor Mateo já está subindo com… um batalhão.
Sorri.
— Perfeito. Pode deixar subir.
Minutos depois, Mateo entrou no meu apartamento como uma tempestade de energia e tecidos coloridos. Ele estava em sua forma mais pura: calça de alfaiataria cor de lavanda, camisa com estampa barroca dourada, um colar de pérolas e, claro, um turbante brilhante que era a cara dele.
— Mia regina! — ele exclamou, abrindo os braços. — Está preparada para se transformar em puro escândalo?
— Mais do que nunca — respondi, rindo.
Atrás dele, vieram duas maquiadoras, a cabeleireira da Mira, uma manicure, um assistente pessoal de figurino e uma mulher baixinha com um rolo de vapor portátil. Era como montar uma passarela dentro do meu apartamento, e, para ser sincera, era exatamente isso que eu queria.
— Onde está Serena? — perguntou Mateo, já abrindo a arara de vestidos com cuidado.
— Vai se arrumar com Damiano e os meninos — respondi, sentando no banco em frente ao espelho iluminado da minha penteadeira. — Dia de família.
— E Iris?
— Em casa com Domenico e Luz. Também vai se arrumar lá.
Mateo assentiu, entendendo tudo. Era nosso ritual: mesmo juntas na Mira, mesmo sendo inseparáveis, no dia do evento da Carbone, nos preparávamos separadas. Não por falta de afeto, era o contrário. Era um momento em família antes de algo grande.
— Vamos começar com o cabelo. Ondas? Preso? Meio preso? — perguntou a cabeleireira, já dividindo as mechas do meu cabelo.
— Ondas largas, com movimento. Nada muito rígido.
— Perfeito. Você vai parecer uma estrela de cinema dos anos 50. — Falou e eu sorri.
— É exatamente essa a ideia.
Enquanto o babyliss trabalhava, Mateo começou a circular com a base da maquiagem na mão, falando com a segurança de um general prestes a iniciar uma guerra.
— Pele impecável, olhos delineados, boca marcada. Você é uma Ricci, não uma donzela da Toscana. E vai usar aquele vestido preto com pedras negras que escolheu, certo?
— O próprio. Está separado desde a semana passada.
— Ainda bem. Aquele vestido é puro poder. Ele não entra em um ambiente, ele conquista. — Eu ri.
Fiquei em silêncio por um instante, observando meu reflexo no espelho. As ondas começavam a tomar forma, minha pele sendo preparada com camadas sutis de produtos caros, e meu coração acelerava com a sensação de que algo importante estava prestes a acontecer. Não era só mais um evento. Algo no ar me dizia que essa noite mudaria tudo.
— Está pensativa — comentou Mateo, estreitando os olhos enquanto aplicava o corretivo.
— Estou… alerta. Sensível ao que está por vir.
— Algum pressentimento? — Questionou.
— Talvez. Mas nada r**m. Só… intensidade. — Ele sorriu, satisfeito com a resposta.
— Intenso é o seu estado natural. Se sentisse calmaria, eu me preocuparia.
As horas passaram como um turbilhão. Depois do cabelo e da maquiagem, vieram as unhas, os ajustes finais do vestido, as provas com as joias e os sapatos. A suíte principal do meu apartamento havia se transformado em um santuário de beleza, com vozes baixas, sons de zíperes sendo fechados e o cheiro doce do meu perfume favorito preenchendo o ar: um aroma assinado exclusivamente para mim por uma perfumista francesa.
Mateo se ajoelhou para prender a pulseira no meu pulso, com um cuidado quase cerimonial.
— Esse bracelete pertenceu à sua avó, sabia? — Assenti, olhando para a peça antiga em ouro branco com pequenos diamantes incrustados.
— Mamma me deu. Disse que minha avó o usava nos eventos da máfia.
— E hoje, você honra esse legado com mais classe do que qualquer uma antes de você. — Me levantei, e Mateo me ajudou a vestir o vestido preto.
Ele era como uma segunda pele. De tecido espesso, estruturado, com um decote profundo nas costas e pedras negras bordadas uma a uma em todo o b***o. A saia descia em camadas suaves, esvoaçantes, como sombra e mistério encarnados.
— Donatella Ricci… — sussurrou Mateo, me olhando de cima a baixo. — Se você fosse minha inimiga, eu fugiria agora. Sorri com um canto da boca.
— Se eu fosse sua inimiga, você já estaria morta, amore. — Ele gargalhou, e o ambiente se encheu de leveza mais uma vez.
Quando os ponteiros do relógio marcaram seis e meia da noite, os carros começaram a se organizar no térreo do meu prédio. O motorista me avisou pelo interfone, e a equipe se movimentou rapidamente para os retoques finais.
Enquanto todos falavam ao mesmo tempo sobre spray de cabelo, brilho nos lábios e verificar a barra do vestido, me peguei em silêncio, olhando meu reflexo mais uma vez.
Ali estava ela.
A filha caçula da família Ricci.
A hacker mais discreta da máfia Carbone.
Uma das fundadoras da Mira.
E, mais importante, uma mulher que sabia exatamente quem era.
Respirei fundo.
A noite começaria em breve.
E eu estava pronta para dominá-la.
— Está linda — disse Mateo, segurando minha mão. — Mas mais do que isso, está… poderosa.
— É exatamente como me sinto — respondi.
Peguei minha clutch preta, onde estavam apenas o necessário: celular, batom, documento falso e uma pequena lâmina embutida. Segurança nunca era demais.
— Vamos? — perguntei.
— Ao seu lado, sempre — respondeu Mateo, pegando sua própria bolsa prateada.
Descemos no elevador em silêncio. Eu observava meu reflexo nas paredes espelhadas. Cada movimento, cada gesto. Tudo em mim comunicava algo. E tudo estava perfeitamente calculado.
A porta do prédio se abriu, revelando o carro preto com os vidros escuros. Dois seguranças vieram até mim, verificando o ambiente. Mateo me ajudou a entrar.
Antes que a porta se fechasse, olhei para o céu que já escurecia. O ar estava morno, com um vento suave. Lá no fundo, uma sirene ecoava distante.
Sorri.
Seria uma noite interessante.