Erik Nyström
O apartamento estava em silêncio. Como sempre. Era assim que eu gostava.
Sem ruídos, sem vozes. Apenas o som leve do vento batendo contra a janela e o estalar eventual das estruturas de concreto que compunham meu refúgio. O mundo lá fora era barulhento demais. Aqui dentro, eu podia ouvir meus próprios pensamentos, e ignorá-los quando bem entendesse.
Estava sentado no sofá com as pernas esticadas e os braços cruzados, encarando o convite preto que repousava sobre a mesa de vidro. O papel era espesso, elegante. O nome da família Carbone em letras prateadas brilhava sob a luz difusa da luminária. Era o tipo de coisa feita para impressionar. Mas a mim… não causava absolutamente nada.
Já fazia horas que eu o encarava.
Como se estivesse esperando que ele desaparecesse sozinho.
A ideia de ir ao evento me parecia absurda. Uma sala cheia de vozes, de risos forçados, de roupas caras e egos inflados. Mas também era uma oportunidade prática. Uma chance de cruzar com Damiano, entregar o relatório verbal do plano executado, e sumir dali antes que o champanhe esfriasse. Sem mensagens, sem rastros.
Depois disso, talvez eu parasse em algum bar qualquer. Um canto escuro, música baixa, nada que exigisse conversa. E, quem sabe, uma caminhada noturna pelas ruas de Milão. Eu gostava da cidade quando dormia. Quando os rostos desapareciam e o asfalto ganhava silêncio.
Perto das sete, levantei.
Escolhi a roupa mais formal que tinha, que não era exatamente difícil, considerando meu guarda-roupa limitado. Uma calça de alfaiataria escura, uma camisa branca perfeitamente passada, o colete preto por cima e uma gravata borboleta que me fez franzir a testa ao colocar.
Olhei meu reflexo no espelho do corredor.
— Patético — murmurei.
Mas funcionaria.
Coloquei os sapatos com precisão e peguei a mochila que estava sempre pronta no armário. Nela, joguei uma troca de roupa: jeans, camiseta preta e jaqueta de couro. Roupas que pertenciam a mim. Roupas que me deixavam respirar. Não tinha necessidade de carregar armas. Apenas um canivete discreto que eu sabia usar bem.
Minha conta bancária poderia pagar ternos sob medida e sapatos italianos feitos à mão. Mas para quê? Pra agradar olhos que eu não me importava em olhar de volta?
A ostentação era só mais um tipo de fraqueza disfarçada de poder.
Fechei o zíper da mochila, peguei o convite e segui até a garagem.
A moto estava lá, como sempre. Fiel, discreta, veloz.
Coloquei o capacete, ajustei as luvas e subi no banco de couro.
A noite ainda não havia começado.
Mas eu sentia no ar… ela seria interessante.
E eu não estava ali para socializar.
Estava ali por um motivo. E quando ele fosse cumprido… desapareceria. Como sempre.