Donatella Ricci
Eu tinha prometido pra mim mesma que hoje seria um dia de descanso. Prometido de verdade, com direito a voto de silêncio para o grupo da Mira e dedo nervoso longe do e-mail da máfia. Só que, mesmo assim, às oito e vinte da manhã, meus olhos estavam abertos. E minha cabeça já corria mais que as motos do meu irmão.
Me virei na cama, praguejei contra a luz que escapava pelas cortinas, e então abracei o travesseiro com força. Uma parte de mim queria levantar e revisar uns croquis que Mateo deixou no drive. Outra parte queria só existir. Respirar. Ser uma garota normal por um dia.
Me levantei com preguiça teatral, de camisola preta de seda e cabelo preso de qualquer jeito. Fui direto para cozinha, ainda descalça, e coloquei a água para ferver. Café era meu ritual. Forte, sem açúcar, com um toque de baunilha que eu sempre fingia que era acidental.
Enquanto o aroma invadia o apartamento, coloquei Billie Holiday no som. Jazz de manhã me deixava estranhamente romântica, mesmo quando não havia romance nenhum no horizonte. Só eu, minha casa e meu reflexo no espelho da sala.
— Você está muito bonita pra quem não vai sair nem pra levar o lixo. — Falei para mim mesma e sorri. Daqueles sorrisos irônicos, com a sobrancelha arqueada e tudo.
Meu apartamento era exatamente como eu: cheio de pequenos excessos. Almofadas estampadas, livros empilhados até no chão, quadros que eu pintei em fases aleatórias, e um vaso com tulipas roxas que insisto em comprar toda semana, mesmo sabendo que morrem rápido.
Fiquei horas lendo uma revista de moda japonesa, anotando referências que talvez nunca use. Depois mudei de ideia e sentei no chão da varanda pra pintar. Não sou boa, mas adoro a bagunça. Dedos manchados, pincel torto, tinta escorrendo no papel… um caos adorável.
No almoço, fiz uma salada linda só para postar nos stories e depois comer um pedaço generoso de lasanha congelada. Serena ia me matar se soubesse, mas eu juro que coloquei manjericão fresco por cima, o que tecnicamente transforma tudo num prato gourmet.
Durante a tarde, decidi não decidir nada. Vesti uma saia longa de linho, um top branco e passei perfume. Mesmo sozinha. Mesmo em casa. Me deitei no sofá, li meio capítulo de um romance erótico que Iris me indicou, que definitivamente era quente demais pro meu nível de autocontrole, e cochilei no meio de um parágrafo.
Sonhei com algo que não lembro mas acordei com o coração batendo rápido. Uma sensação estranha. Como se o ar estivesse pesado, mesmo com as janelas abertas. Como se alguém estivesse me observando ainda que eu estivesse só. Muito só.
Fiquei em silêncio. O tipo de silêncio que incomoda. Que pressiona o peito.
E, por um instante, pensei que esse vazio todo é só falta de barulho… ou falta de alguém? Balancei a cabeça, como se pudesse sacudir essa ideia pra fora.
— Você não tem tempo pra sentir falta de nada, Donatella.
Mas a verdade é que eu sentia.