Capítulo 4

651 Palavras
Erik Nyström O ar em Turim estava mais quente do que o habitual para abril. A cidade pulsava como um organismo frenético, carros buzinando, passos apressados, conversas jogadas ao vento. Mas ali, naquele telhado, tudo era silêncio. Deitei no concreto frio, ajustando a luneta com calma. Nada me distraía. Nem o vento cortante, nem o som distante de uma sirene, nem a vibração fraca do celular no bolso interno. Quando estou em missão, o mundo deixa de existir. Só o alvo importa. Fabrizio Pacco saía do prédio da construtora todos os dias às 18h22. Precisão suíça. Um i****a vaidoso de cabelos engomados, terno azul-marinho e perfume forte demais. Protegido por dois seguranças que andavam um passo atrás: um mais alto, barba cheia; o outro mais jovem, distraído. Ambos armados, mas previsíveis. Era terça-feira. A rua estava parcialmente fechada para reformas, o que reduzia a movimentação de civis. Um detalhe providenciado com antecedência pelos Ricci. Eles sabiam jogar e eu… só precisava finalizar. 18h19. A porta giratória girou uma vez. Duas. Na terceira, lá estava ele. Com um sorriso i****a no rosto, falando ao telefone. Inclinei o rifle. Respiração controlada. Um, dois. Visada limpa. Mas não atirei. Ainda não. Não teria graça. Esperei ele entrar no carro. Vi o motorista abrir a porta traseira. Ele odiava sentar do lado esquerdo. Sempre ia do lado oposto ao trânsito. Mania de controle, disseram os dossiês. Ótimo. Eu contava com isso. Enquanto os seguranças davam a volta pelo carro, eu já havia descido do telhado do outro lado do quarteirão. Um trajeto cronometrado, sem pressa, mas sem margem para erro. A arma desmontada no estojo preto, preso às minhas costas como se fosse equipamento de som. Dois quarteirões abaixo, montei a moto. Elétrica. Sem ruído. Capacete escuro, roupa preta, luvas. Anônimo. Invisível. Interceptei o carro no cruzamento da Via Ancona com a Luigi Galvani. Um semáforo com falha técnica. Programado para travar às 18h31. Eu mesmo alterei o sistema naquela madrugada. Parei ao lado do vidro fumê. Bati três vezes com os nós dos dedos. Calmo. O segurança da frente desceu. i****a. Dois passos em minha direção e um corte limpo na jugular, faca curta, cerâmica pura. Não teve nem tempo de gritar. O outro tentou reagir rápido, até. Mas o botão da bomba de fumaça já estava acionado. Confusão. O carro ainda parado. O vidro da frente baixou por reflexo. E foi o bastante. Disparei duas vezes. Uma no ombro, outra na garganta de Fabrizio. Sem chance de sobreviver. O motorista acelerou no susto, batendo no carro à frente. Já não importava. Eu estava longe. Dois minutos depois, na Via Torino, entrei no prédio abandonado onde deixei a moto reserva. Troquei de roupa. Queimei as luvas. A arma já estava em pedaços, jogada dentro de um dreno industrial. O estojo, deixado no metrô central dentro de uma lixeira que seria recolhida em sete minutos. Saí caminhando como um homem comum. Jeans, camiseta cinza, jaqueta de couro surrada. Um rosto comum entre muitos. Cheguei ao meu apartamento temporário antes das 19h. Abri a garrafa de bourbon dando um gole generoso. Anotei mentalmente os erros mínimos cometidos pelos seguranças. E então, silêncio. Nada dentro de mim se movia. Nenhuma culpa. Nenhuma euforia. Era só mais um nome riscado da lista. E ao contrário dos outros, esse… me deu prazer concluir. Pacco não era só um elo da Camorra. Ele financiava casas de fachada para tráfico humano no leste europeu. Eu vi as fotos. Meninas de quatorze, quinze anos. Drogadas. Vendidas. Eu não me importava com justiça. Nunca me importei. Mas às vezes, quando o sangue toca o chão, o mundo parece… um pouco menos sujo. Naquela noite, sentei no sofá velho, com os olhos fixos no convite preto deixado sobre a mesa. O convite para o evento da Carbone. Damiano sabia que eu não iria. Mas uma parte de mim… estranhamente, ainda não havia jogado fora.
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