Capítulo 3

954 Palavras
Donatella Ricci Vestidos demais, tempo de menos. Era sempre assim quando se aproximava o evento anual da Carbone. Mas, por mais que tudo fosse sempre corrido, tinha algo de mágico naqueles dias no ateliê. Como se cada tecido tivesse uma história sussurrando antes mesmo de ser cortado. Estava em pé sobre a plataforma giratória do espelho triplo, enquanto Serena observava com olhar técnico cada centímetro do vestido que eu acabara de vestir. — Gosto do caimento, mas acho que esse tom de vinho te apaga um pouco — ela comentou, ajustando a alça com um alfinete. — Você é intensidade, Doni. Precisa de algo que grite sem perder elegância. — “Grite sem perder elegância”… isso daria um ótimo nome de perfume — respondi, rindo. — Mas concordo. Este aqui está pedindo desculpas por existir. Quero algo que entre no salão com a mesma confiança que eu entro em qualquer sala da Mira. — Dramática. — ela sorriu, e pegou outro modelo do cabide. — Experimenta este. Corte sereia, f***a lateral, ombro único com aplicação de cristal. É ousado, mas tem classe. — Do jeitinho que eu gosto. Entrei no provador e troquei de vestido. A seda escura deslizou sobre minha pele como um segredo bem guardado. Quando saí, Serena soltou um assovio baixo. — Perfeito. Esse é o vestido. — Concordo. Vai fazer os fotógrafos esquecerem de todas as outras convidadas. Eu ri, mas antes que pudesse responder, o celular de Serena vibrou. Ela atendeu rapidamente, e seu semblante mudou em segundos. — Oi, Iris. Está tudo bem? — fez uma pausa curta e olhou para mim com seriedade. — Claro. Não se preocupe com isso. A gente cuida daqui. Fica com a Luz, tá? Fiquei imóvel, atenta. — Ela teve crises de novo? — perguntei assim que Serena desligou. — Teve uma noite difícil. Iris disse que ela dormiu muito pouco, estava agitada. Domenico também não foi trabalhar, os dois estão tentando manter tudo calmo em casa. Suspirei, tirando os sapatos de salto e me sentando na ponta da plataforma. Serena sentou ao meu lado. Por um instante, o brilho dos vestidos pareceu distante. — Dói ver a Luz assim, sabe? — murmurei. — Ela é tão… especial. Tão cheia de luz, irônico ou não. Ver ela sofrer mexe comigo. — Comigo também. Mas Iris e Domenico são incríveis. Eles têm uma força que inspira. Mesmo nos dias difíceis. Assenti. Serena tinha razão. Nossa família era feita de aço envolto em carinho. Ninguém lutava sozinho. — Vamos resolver isso aqui e depois mandamos uma mensagem dizendo que deu tudo certo — falei, levantando-me. — Pelo menos tiramos esse peso das costas dela hoje. Descemos para o andar de baixo, onde os jornalistas já nos aguardavam na sala de imprensa da Mira. A equipe tinha preparado o ambiente com flores frescas, revistas organizadas em prateleiras, garrafas de água com rótulos personalizados e luz suave nas janelas. O fotógrafo estava ajustando a lente quando entramos. Uma mulher de cabelos castanhos presos em coque apertado nos cumprimentou com um sorriso profissional. — Serena Ricci, Donatella Ricci. Um prazer imenso. Sou Eleonora, da Moda Italiana. Vamos começar com algumas fotos? — Claro. Mas só do meu lado bom, por favor — brinquei, sentando com a postura impecável. As perguntas começaram leves, como sempre. — Como surgiu a ideia para a nova coleção? — Quais foram as principais referências de estilo? — É verdade que abriram uma filial em Nova York? — Como é trabalhar em família? Respondemos tudo com naturalidade. Eu falava com entusiasmo sobre os tecidos indianos, sobre os croquis de Mateo, sobre a força da Mira como símbolo feminino dentro da indústria da moda. Serena complementava com dados, planos e aquela elegância contida que só ela tinha. Até que veio uma pergunta mais pessoal. — Vocês se consideram ícones de estilo ou veem a Mira como algo maior do que moda? — A Mira é sobre identidade. Sobre liberdade. — respondi, com firmeza. — A moda é só a forma que encontramos de traduzir quem somos e o que sentimos. Então, se isso inspira alguém… bom, é só uma consequência bonita. Serena sorriu ao meu lado. — E ícones de estilo? — a jornalista insistiu. — Só nos domingos, quando estamos com tempo e de bom humor. — respondi, fazendo todos rirem. A entrevista terminou entre elogios e agradecimentos. O fotógrafo tirou as últimas fotos enquanto assinávamos algumas revistas para distribuição interna. Assim que a equipe saiu, Serena pegou o celular e mandou uma mensagem para Iris. “Tudo correu perfeitamente. A Mira arrasou. Fica tranquila. Beijos nossos para você e para a Luz.” — Vou buscar os meninos na escola — disse, levantando-se. — Dante deve estar coberto de tinta e Nicolas com alguma história nova para contar. Você vai ficar? — Um pouco. Preciso respirar este lugar mais um instante. Serena me lançou um olhar carinhoso. — Você ama essa casa, não é? — Amo. Aqui é onde tudo começou. Onde fui mais eu do que em qualquer outro lugar. — olhei ao redor, sentindo o peito aquecer. — É como se cada parede aqui soubesse exatamente quem eu sou. E ainda assim, me acolhesse sempre que eu mudo. Ela assentiu. E foi embora. Fiquei sozinha na sala, o silêncio preenchido pelo som suave do tecido balançando nos cabides. Me levantei, caminhando lentamente até o manequim central do showroom. Nele, um vestido inacabado ainda esperava a finalização de Mateo. Toquei a barra com delicadeza. — É aqui que eu pertenço. E naquele instante, entre linhas, agulhas, memórias e promessas, tive certeza: nada era mais meu do que a Mira. E nada me preparava para o que viria a seguir.
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