Erik Nyström
A sede da Carbone era silenciosa demais para um lugar que comandava o submundo. Discreta por fora, mas com corredores revestidos de mármore, câmeras invisíveis e o tipo de segurança que nunca deixava de observar. Eu conhecia cada detalhe. Nunca esquecia os caminhos que me levavam até os Ricci.
O corredor principal exalava madeira encerada e tensão contida. Meus passos ecoavam secos sobre o piso, o sobretudo escuro acompanhando o ritmo do meu andar preciso. Não havia pressa — eu chegava sempre no tempo exato. Nem antes, nem depois.
Domenico estava encostado à janela quando entrei. Damiano, sentado à cabeceira da longa mesa de reuniões, não levantou os olhos de imediato. Giorgio não estava presente, o que indicava que aquela missão era nova, mas não tradicional. Uma decisão da geração atual. A máfia Carbone em movimento.
— Erik. — Domenico me cumprimentou com um leve aceno de cabeça.
— Ricci. — respondi, com o mesmo tom neutro.
Sentei-me na cadeira ao lado da ponta. Nenhuma formalidade a mais. Nenhuma saudação desnecessária. Os outros membros da mesa apenas assentiram em silêncio. Eu não precisava saber os nomes. Só os rostos e suas ordens.
Damiano finalmente fechou o arquivo à sua frente.
— Temos um alvo — disse, direto. — Um empresário ligado à Camorra. Cobre negócios em Milão, mas movimenta dinheiro da antiga família Bianchi.
Ergui os olhos para ele. Camorra. Sempre eles.
— Nome? — perguntei.
— Fabrizio Pacco. Cinquenta e dois anos. Usa uma construtora como fachada para lavagem de dinheiro. É próximo do novo braço da organização na Bélgica. Se o derrubarmos agora, cortamos o elo que eles ainda têm com o norte da Itália.
Domenico cruzou os braços, o olhar tão afiado quanto o meu.
— Ele viaja com seguranças, mas tem uma rotina previsível. Estamos rastreando há três semanas. Você entra, faz o necessário, e desaparece.
Assenti. Nenhuma pergunta a mais era necessária. Eles sabiam disso. Eu não aceitava missões pela metade, nem lidava com falhas.
Damiano passou uma pasta até mim. Abri. Fotos, horários, esquemas. Mapeamento completo. Organização era o que os Ricci faziam de melhor. Por isso eu ainda trabalhava para eles.
— Há uma possibilidade de ele comparecer ao leilão beneficente do Palazzo Ferretti na sexta — acrescentou Domenico. — Se for, pode ser a oportunidade ideal.
Fiquei em silêncio enquanto analisava o conteúdo. Um padrão de movimentação. A segurança trocando turnos a cada quatro horas. Um carro blindado, mas previsível. Ele era vaidoso, e homens vaidosos se tornam descuidados com o tempo.
— Considera feito. — fechei a pasta, levantando-me.
— Erik. — a voz de Damiano me chamou antes que eu cruzasse a porta.
Virei-me com calma.
Ele estendeu um pequeno envelope preto.
— O convite para o evento anual da Carbone. É daqui a duas semanas. Na Villa Ricci.
Olhei para o convite sem mover uma expressão sequer.
— Você sabe que eu não vou. — Damiano deu de ombros, o traço de um sorriso contido nos lábios.
— Sei. Mas caso mude de ideia… ficaremos felizes em vê-lo lá.
Peguei o convite com dois dedos e o guardei no bolso interno do casaco. Sem promessas. Sem recusas. Apenas silêncio.
E então, saí.
Não olhei para trás. Não precisava. As palavras de Damiano ainda estavam pairando no ar, leves demais para o mundo em que vivíamos.
Eu tinha um alvo. Uma missão.
E qualquer coisa fora disso… era ruído.