A Verdade no Olhar de uma Criança

1214 Palavras
Bruno — “Pai… é ela.” — As palavras da Maria ainda ecoavam na minha cabeça,mesmo depois de horas, mesmo depois de deixá-la na casa da Flavia, mesmo depois de ficar sozinho em casa escuro,elas estavam ali cravadas. — “Ela quem, filha?” — “A moça. Aquela moça no carro preto,ela é a mamãe.” Meu coração travou naquela hora,senti o estômago revirar,o mundo girar devagar como em pesadelo,porque eu vi também, vi o carro, vi o vulto, e por um instante… eu juro por tudo que ainda me resta era ela Milena, ou o fantasma mais c***l que minha saudade poderia ter criado,sentei no sofá com as mãos no rosto, a luz da rua batia pela janela e projetava a sombra das árvores balançando contra a parede, o vento fazia a persiana chacoalhar como se o tempo estivesse tentando me chamar pra realidade, mas tudo que eu via era aquele rosto, rápido, assustado,mas intensamente vivo e aqueles olhos, aqueles olhos eram dela, liguei para a escola, conversei com a coordenadora, perguntei se alguém diferente apareceu nas imediações,nada,voltei lá, à noite. Estacionei no mesmo lugar, esperei e nada ,mas a lembrança da Maria apontando…da voz dela dizendo “mamãe”…isso não saía da minha cabeça. Fui até a caixa onde guardo as cartas da Milena,coisas antigas, do tempo em que ela escrevia bilhetes e me xingava com poesia,lembrei de cada palavra que ela deixou pra trás antes de sumir de vez, lembrei do sangue, do tiro,do corpo nos meus braços. Ela morreu,eu senti ela morrer,senti o coração dela parar, então…por que agora parece que ela nunca se foi? Peguei a foto da Maria pequena,os olhos cor de mel,antes de ficarem definitivamente verdes iguais os de Fabio, o sorriso aberto, e pela primeira vez…eu tive medo,medo de esperança,porque se for verdade…se Milena estiver viva…significa que me esconderam tudo de novo,Maria entrou no quarto enquanto eu ainda estava com a foto nas mãos. — “Pai, você tá bravo comigo?” — “Claro que não, minha princesa. Por quê?” — “Porque eu falei da moça.” — “Não, filha… é que o papai ficou um pouco assustado. Só isso.” — “Ela parecia com as fotos da mamãe,só que com cabelo mais curto,e ela me olhou,tipo… igualzinho você me olha.” — “Igual como, Maria?” — “Como quem ama, mas tá com medo.” Ajoelhei no chão e abracei ela forte,demais pra uma criança tão pequena entender,mas o suficiente pra que me partisse ao meio. — “Filha, escuta,se algum dia você ver essa moça de novo…não corre até ela,não grita,não aponta,só… só me chama. Tá bem?” Ela assentiu,me olhou confusa, mas compreensiva. — “Ela é um segredo?” — “Talvez seja um segredo que o mundo ainda não tá pronto pra ouvir.” Quando ela dormiu, eu saí,voltei à escola,de novo,mas dessa vez, eu fiquei do outro lado da rua,esperando o carro,esperando qualquer sinal, e ali, no silêncio da noite, estacionou um sedã escuro,vidros fumês e por dentro…eu soube, meu coração, meu instinto, meu sangue — tudo gritou ao mesmo tempo é ela,mesmo que o mundo inteiro dissesse que não mesmo que minha mente me chamasse de louco, eu sabia, saí do carro,atravessei a rua mas o sedã arrancou antes que eu pudesse ver direito,corri, gritei,mas já era tarde,voltei pro carro sem fôlego,as mãos tremiam no volante e por dentro…algo queimava,uma certeza ,Milena está viva, e está perto, mas está escondida,de mim, da filha, do passado, talvez até dela mesma,e então…o caçador que um dia enterrou a mulher que amava…decidiu que iria atrás dela outra vez,dessa vez…nem o inferno vai impedir. Tem gente que acredita que quando alguém morre… o que resta é só o luto mas não,o que fica é fome,fome de respostas de sentido de alguma lógica que dê paz,por quatro anos, eu caminhei por esse deserto,tentando me convencer que Milena morreu nos meus braços,tentando seguir em frente,por ela,por mim,pela nossa filha,mas a verdade? a verdade é que uma parte de mim nunca acreditou,agora sei por quê;Acordei antes do sol nascer,não dormi, na verdade,passei a madrugada revendo câmeras da escola,ligando pra conhecidos antigos, tentando conseguir acessos que nem devia ter, o instinto que um dia me manteve vivo em confrontos com o crime… voltou,mas dessa vez, não era por vingança,nem por justiça,era por Milena,fiz uma lista,pessoas que poderiam ter ajudado ela a sumir,locais onde alguém como ela poderia se esconder,os nomes antigos, dos tempos em que a gente viveu no fio da navalha. "Se ela tá viva... alguém ajudou." e quem ajuda, sabe,voltei à escola da Maria no dia seguinte, no horário do intervalo,fiquei no carro, dessa vez mais atento, observando sem piscar,vi os movimentos, a direção dos olhares,crianças,professores. Pais, e vi de novo, um carro,mais discreto,mas com a mesma presença… estranhamente familiar, a postura de quem dirige…o cuidado com que os olhos se escondem atrás dos óculos escuros…era ela, ou alguém tentando parecer com ela, eisso me bastava. Anotei a placa,liguei pra um antigo contato no Detran,uma dívida antiga paga com um favor ainda mais sujo. — “Preciso saber o dono desse carro. E quero agora.” —Minutos depois, o nome apareceu na tela: Thiago Y. Souza Thiago… o irmão, outro que virou fantasma,que também sumiu do mapa, agora reaparece assim… como se nada tivesse acontecido? , não, tem coisa errada muito errada, voltei pra casa com o cérebro girando, Maria me esperava com um desenho na mão, era ela Milena,feita com lápis de cor, cabelos dourados, olhos cor de mel. — “Papai… ela me sorriu hoje.” —Engoli em seco. — “Você falou com ela, filha?” — “Não,mas ela tava lá, do outro lado da grade, igual ontem.” Ela me olhava,sabia que aquilo era importante,mais do que um simples desenho de criança. — “Filha, escuta,tem uma coisa que eu preciso te perguntar… e você precisa ser bem sincera com o papai, tá bem?” Ela assentiu, séria. — “Essa moça que você vê… ela já te chamou? Já tentou falar com você?” — “Não,ela só… me observa,mas não parece r**m,ela parece… triste.” Aquelas palavras me cortaram,triste,essa era a Milena que eu reencontrei,apos os 5 anos que fiquei morando no rio,a Milena que reencontrei na sua adolescencia, que sorria sem mostrar os dentes,a que guardava segredos atrás de cada gesto,a que tinha medo de amar de novo, agora estava de volta, assombrando minha filha com esse mesmo olhar,naquela noite, separei o que restava da minha antiga vida,documentos,cartas,a foto que tirei dela dormindo na nossa primeiro dia juntos quando ela me deixou entrar em sua vida novamente,peguei a arma,carreguei,não era pra m***r,era pra proteger,dessa vez… eu não vou deixar que tirem ela de mim,abri o notebook,criei uma pasta Soberana, dentro, coloquei tudo,fotos antigas,roteiros de fuga possíveis,perfis falsos,e um plano, deguir Thiago, se ele está em Curitiba, é porque ela está aqui também, se ela está aqui…então ainda há tempo,mas o que eu não esperava…era que nesse exato momento…Milena também me observava, do outro lado da rua,escondida atrás do reflexo de um carro, com os olhos que sempre me disseram tudo e agora não dizem mais nada.
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