O Inimigo Invisível

1199 Palavras
Bruno A caixa de correio estava aberta quando cheguei em casa,nada incomum , Maria às vezes esquecia fechada quando pegava panfletos da escola,mas naquele dia… havia um envelope branco,sem nome,sem selo,pesado o suficiente para carregar veneno,abri ainda no portão, e o mundo desabou em silêncio,a primeira foto era um soco no estômago,Milena sorrindo,em uma varanda de madeira, de frente pro mar,nos braços de Gustavo,aquele desgraçado que ela jurou m***r,que se fez cumplice da Solange para roubar Maria,por isso não fizeram nada,Milena estava com ele esse tempo todo,aquele desgraçado,que ajudou a destruiu por dentro, que a afastou da filha, e que agora… a abraçava como se fosse dele, minhas mãos tremiam,as fotos seguintes eram ainda piores,eles caminhando de mãos dadas numa feira,ela rindo enquanto ele colocava flores no cabelo dela,um beijo na esquina de uma rua velha o mesmo beijo que ela me deu um dia, com os olhos fechados e o corpo entregue, a última foto era a mais c***l,Milena,sentada no colo dele em banco de praça,seus braços entrelacados no pescoço de Gustavo,ele com um mão em sua cintura e outra em seu rosto,ela com um vestido leve e uma expressão de paz, como se o mundo estivesse certo ali;Eu gritei, gritei como um bicho ferido,joguei tudo no chão,chutei a porta da sala,virei a mesa da cozinha. — “Ela tava viva… esse tempo todo… com ELE.” — A cabeça latejava, o sangue batia nas têmporas, a única coisa que conseguia ouvir era meu próprio coração quebrando em pedaços, liguei pra todos os contatos que ainda tinha,mas ninguém sabia, ou não queria falar,voltei à pasta no computador,pasta que agora parecia uma piada "Soberana "… — Eu devia ter chamado de " Cego do c*****o " —Abri o armário,peguei a arma,tirei o carregador,limpei,montei de novo,milimetricamente,como nos velhos tempos,mas essa raiva não era a de um criminoso,era a de um pai,um homem,um i****a apaixonado, a campainha tocou,Maria estava na escola, então abri a porta com o dedo no gatilho mental,mas não era ninguém, só uma segunda carta,colocada no tapete,dentro, só uma frase escrita à mão "Você não conhece a Milena. Nunca conheceu." sem assinatura, sem mais nada,larguei tudo,corri pro quarto,peguei o álbum antigo,aquele que guardava as poucas fotos felizes, olhei bem nos olhos dela,Milena, a mulher que disse que me amava, que prometeu um recomeço, que morreu nos meus braços… e depois apareceu viva nos braços de outro,ou será que era tudo mentira? sentei no chão, encostei as costas na parede,segurei a foto dela como quem segura uma arma sem balas, e pensei "Se ela tá com ele… é porque escolheu estar." mas lá no fundo, uma voz sussurrava ou será que ela tá sendo forçada a fingir? porque aquele olhar na última foto… tinha algo estranho, tinha um vazio que não combina com Milena, então veio outra lembrança, Maria, me dizendo “Ela parece… triste.” Respirei fundo. “Se ela tá jogando, eu vou entrar nesse jogo.” destravei o telefone, mandei uma mensagem pra Rodrigo "A gente precisa conversar. Urgente." ele demorou pra responder, mas quando respondeu… foi direto, "Você não vai gostar do que tenho pra te contar." Perfeito,eu também não gostei das fotos, agora…é a hora de descobrir quem está manipulando quem, porque se Milena está viva…então o jogo ainda não acabou. E eu vou entrar pra vencer. Milena Algumas pessoas acham que esquecer é uma bênção,mas esquecer… é uma prisão,acordar todos os dias com uma vida nova, mas com ecos de algo que não sei nomear, fragmentos,pesadelos,cheiros que me fazem tremer,olhos cor de mel que voltam toda noite, o som de uma voz infantil, mesmo que eu nunca tenha me olhado no espelho e me reconhecido como mãe,mas agora eu sei,Maria,ela é minha filha,não há mais dúvida, o jeito como ela segura o lápis, a forma como morde o lábio quando está nervosa,os mesmos olhos do homem que um dia me confiou sua vida e eu destruí, os meus gestos, o meu sangue,eu não me aproximo,só observo, na porta da escola, entre vitrines, atrás de carros, as vezes escondida sob um lenço qualquer, Bruno não me viu ainda, ou finge não ver,mas Maria…ah, ela sente, outro dia, ela me olhou de longe, sorriu, sem saber por quê, e algo dentro de mim estremeceu, mas algo está errado, não é só Bruno, alguém mais está me seguindo, não são passos pesados…são sombras frias, olhares que somem quando viro, uma presença constante, quase como um toque gelado na nuca, no começo achei que fosse paranoia, mas ontem… uma foto chegou até mim, colada na porta do meu quarto, eu e Gustavo,deitados na cama, dormindo,ele estava de olhos abertos. "Ele voltou", pensei, mas a verdade é que ele nunca foi embora,Mateo,Gustavo, o homem que me salvou da morte,e me empurrou pra um abismo novo; Mas eu lembro também do jeito que Gustavo me olhava…do cheiro do sangue quando ele matava por ciúmes,do som da madeira rachando na casa onde morávamos, quando ele me prendia com palavras doces e ameaças veladas, ele está perto demais de novo, e agora, próximo da minha filha, vi ele no portão da escola,com um boné simples., com flores na mão, conversando com uma funcionária, sorrindo, como se fosse só mais um pai preocupado,como se fosse um anjo,mas eu conheço aquele sorriso,ele é a faca por trás do beijo,tentei fugir dele,mas ele me achou,entrou no meu quarto,sem ruído,acordei com ele me observando. — “Você tá linda como nunca esteve, Milena.” — “Não me chama assim.” — sussurrei, com medo de acordar os pesadelos. — “Você é minha. E vai continuar sendo, até o fim.” Tentei correr,ele me segurou, o cheiro dele ainda me causava vertigem,uma mistura de passado e pólvora. — “Você vai fugir de novo? Vai sumir e levar minha filha também? Ou prefere que eu leve a nossa história pro Bruno?” — “Você está doente.” — “E você está confusa. Mas eu posso te curar. Com amor. Com a nossa filha. Com sangue, se for preciso.” Foi ali que vi,nos olhos dele, ele não estava blefando,se eu não aceitasse... ele mataria Bruno ou Maria ou ambos, fugi,pela janela, com a alma rasgada,corri pela rua, como se o inferno me engolisse a cada passo, e foi quando ouvi, um carro, um tiro, e uma mão me puxando com força do meio da rua,Bruno, ele me viu,ele me salvou,por um segundo…nossos olhos se encontraram,meus pés sangravam,meus olhos ardiam, e o nome dele escapou da minha garganta como um soluço: — “Bruno…” Mas ele apenas me encarou, com os olhos mais frios que já vi, olhou para mim como se eu fosse uma estranha, como se fosse inimiga e então ... — “Cinco anos, Milena. Cinco malditos anos.” E virou as costas, fiquei ali, caída no chão, ofegante,sozinha, o sangue nas mãos, e o coração quebrado outra vez,mas não vou parar agora, se Gustavo quer guerra…ele vai ter, e se Bruno acha que me perdeu…vai descobrir que eu nunca estive tão perto, a guerra começou e eu estou no meio dela,mas dessa vez…sou eu quem vai sobreviver.
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