Apesar dos medos…eu sou feliz, quando ele segura minha mão,quando dança comigo na cozinha com a música do rádio antiga, quando canta desafinado só pra me ver rir, ele me conhece de um jeito que ninguém jamais conheceu, me faz sentir mulher, desejada, intensa, selvagem,viva, mas às vezes, também me sinto pequena, cercada, engolida.
Ontem à noite, enquanto me deitava sobre ele, com as costas arranhadas pelas unhas dele e o coração disparado, ouvi a frase que nunca tinha sido dita:
— “Se um dia tentar me deixar… eu te trago de volta. Nem que seja em pedaços.”
Fiquei em silêncio, acariciei o peito dele, sorri ,mas dentro de mim, uma parte se trincou, e não sei se algum dia…vai parar de sangrar.Mateo apareceu com um gato., preto, de olhos dourados, com a orelha esquerda cortada.
— “Ele me lembra você. Arisco. lindo, machucado.”
Dei risada,mas quando peguei o gato no colo e ele ronronou no meu peito, senti o peso do presente, era como se Mateo dissesse:
“Cuida disso. Como você cuida de mim.”— Chamei o gato de Sombra, e ele passou a dormir entre nós, Mateo odiou, disse que não gostava de dividir espaço,nem comigo… nem com outro ser vivo, no mesmo dia, ele apareceu com flores, sempre flores,como se quisesse enterrar cada falha sob perfume.
— “Você sabe que eu faria qualquer coisa por você, né?”
— “Sei.” — E eu disse isso com medo de descobrir até onde ele realmente iria, as vezes, ele me acorda com beijos lentos na coxa, me devora com os olhos, desenha meu corpo com a língua, me leva ao céu e me arrasta de volta ao chão nua, ofegante, desorientada, e depois, me beija a testa,me embala, diz que nunca vai me deixar, eu acredito, mesmo quando o amor vem com mãos que apertam demais, mesmo quando o carinho vem carregado de posse,Mateo começou a me buscar no restaurante, todos os dias, mesmo quando eu dizia que podia ir sozinha.
— “Não gosto da forma como o Joaquín te olha.”
— “Ele é como um pai pra mim…”
— “E mesmo assim, te olha. Homens são todos iguais.” — Tentei rir, mas vi nos olhos dele que não era piada, era sentença, na semana passada, deixei meu celular no balcão, quando voltei, ele estava apagado.
— “Você colocou senha nova?”
— “Não.”
— “Então foi algum bug…” — Mentira, Mateo sabia minha senha, e olhou tudo, mensagens com Beatriz, fotos antigas, minhas anotações no bloco de notas, até o rascunho de uma carta que eu nunca enviei pra mim mesma:
“Julieta, será que você é mesmo livre?”
Mas então ele me trouxe uma caixa de som nova, minha música preferida, e um jantar à luz de velas, feito por ele, com o gato dormindo ao nosso lado, com vinho, com riso, com promessas, e aquela sensação de que eu nunca amei ninguém assim, hoje, ele me deixou um bilhete colado na geladeira:
"Te amo até a morte, e depois dela também."
– M
Suspirei, guardei o bilhete na caixinha de madeira onde escondo as coisas que não sei explicar, e fui dormir com a cabeça no peito dele, ouvindo o coração bater acelerado… como se estivesse fugindo de algo, ou de si mesmo, as vezes, me pergunto:
Será que amor pode virar medo? e se virar… ainda é amor?
Mateo diz que sou tudo pra ele, e eu quero acreditar, mas… e se for verdade? e se eu for o único motivo dele respirar? e se, por isso mesmo, ele não aceitar me perder? nem que pra isso… precise me quebrar, pedaço por pedaço, o quarto estava escuro, exceto pela luz da lua entrando pela janela, o gato dormia enrolado na poltrona, e o som do mar era uma batida lenta, como o coração de alguém à beira da loucura, Mateo entrou em silêncio, não bateu a porta, não disse nada, só me olhou, parado, respirando fundo, seus olhos estavam diferentes, mais fundos, mais… famintos, como se eu fosse algo que ele não apenas desejava, mas precisava possuir por completo, eu estava de camisola, as alças finas, os cabelos soltos, os pés descalços no chão frio, ele veio até mim devagar, colocou uma flor na minha mão, orquídea vermelha.
— “Você tem ideia do que causa em mim?” — ele sussurrou, encostando a boca na minha orelha.
— “Tem ideia de como eu sonho em te prender aqui pra sempre?”
Não respondi, a flor caiu da minha mão, e ele me empurrou contra a parede, sem força bruta — mas com intenção, beijou minha boca como se quisesse tirar de mim o que eu nem sabia que tinha, mordeu meu lábio até arder, sua mão subiu por baixo da minha camisola, quente, trêmula, quase desesperada.
— “Eu fico louco com a ideia de outro homem sequer imaginando você assim…”
— “Não tem outro.”
— “Eu sei. Mas e se um dia tiver?”
E então ele me virou de costas, me jogou na cama, e subiu em cima de mim como um predador que saboreia o momento antes do ataque, eu queria lutar, não contra ele, mas contra o que sentia, porque era errado, era doentio,mas meu corpo ardia por ele, cada beijo violento, cada puxão de cabelo, cada palavra dita entre dentes:
— “Você é minha só minha.”
— “Diz que é.”
— “Diz que vai ficar comigo pra sempre.”
— “Pra sempre.” — eu sussurrei.
E não sabia se estava mentindo ou suplicando, ele me despiu como quem arranca a pele, me lambeu as coxas, mordeu meu seio, me segurou pelo pescoço com uma mão enquanto a outra descia devagar, c***l, firme, gemi, de prazer e de medo, e ele sorriu.
— “Não foge. Eu sinto quando você quer fugir.”
— “Eu tô aqui.”
— “Pra mim.”
— “Pra você.”
Fizemos amorou talvez tenhamos explodido um no outro, gemidos, unhas, mordidas, suor, choro, no fim, ele deitou ao meu lado, ofegante, molhado do meu corpo, os olhos vermelhos como se tivesse visto um fantasma.
— “Se você for embora…Eu me mato.”
— “Eu nunca vou embora.”
— “Promete?”
— “Prometo.”
E no escuro, senti que talvez eu tivesse selado o próprio destino, Mateo dormiu, mas eu não consegui fechar os olhos,meu corpo doía em todos os lugares certos, mas minha mente… gritava, o amor pode ser isso? tão bom e tão errado ao mesmo tempo? de manhã, ele me faria café, me beijaria a testa, faria piadas ruins e me daria flores, mas à noite... noite, eu não sou Julieta, sou dele, e só dele.e