Quando Maria tinha 2 anos, me mordeu no braço porque não queria sair da água da banheira, não choro fácil, mas naquela noite,sentado no chão do banheiro, segurando o braço e rindo com dor…eu chorei, era a Milena ali, na ferocidade, na impulsividade, na mania de vencer qualquer coisa que tentasse dominá-la até a toalha, aos 3, ela começou a fazer perguntas, muitas.
—“Cadê minha mãe?”
—“Por que você chora quando fala o nome dela?”
—“O que quer dizer quando a vovó diz que minha mãe era perigosa?”
Eu menti pouco,mas omiti muito,disse que a mãe dela era valente, que enfrentava monstros, e que um dia, talvez, voltasse, Maria não aceitou a resposta, aos 3 anos e meio, ela disse com toda a certeza do mundo:
—“Se ela não vem, eu vou.”— E eu soube,eu estava criando outra Milena, mais nova, mais pura, mais imprevisível.
Ela gosta de ameixa,coincidência? talvez, mas às vezes, o quarto dela fica com o mesmo cheiro que o corpo da Milena deixava no meu, forte, doce, marcante, como se o tempo não tivesse levado tudo, como se Milena estivesse ali, observando das sombras, ou… soprando memória pelos fios de cabelo da filha, com 4 anos completos, Maria já aprendeu a abrir a porta do cofre, sozinha, ela disse que queria ver “as balas da mamãe”, me tremi por dentro, não mostrei, não expliquei, mas tirei as armas todas da casa no dia seguinte, porque ela ainda é criança, mas tem instinto de leoa faminta, ela odeia ordens, morde se for contrariada, mas ama música, ama dançar na sala até cair de sono, as vezes, canta baixinho, inventa letras, outro dia, soltou...
—“Mamãe mora no vento, mas dorme no meu travesseiro.” —Eu deixei ela cantar, e fui chorar escondido no banheiro, ser pai dela não é fácil, nunca foi, ela exige presença, verdade, dureza, mas quando me abraça com aqueles bracinhos magros… eu entendo o que Milena sentia quando me olhava no meio do caos e dizia:
—“Não importa o mundo, eu escolho você.”
Tenho medo todos os dias,de alguém tentar levá-la, de Solange estar esperando, de Gustavo aparecer do nada, mas meu maior medo?
É ela descobrir tudo, quem foi a mãe, quem foi o pai biológico, o que foi aquele mundo, e o pior, que ela queira voltar pra ele.
Hoje, ela me perguntou:
—“Você acha que a mamãe tá vendo a gente?” — E eu respondi com a única certeza que me sobrou
—“Se estiver, ela tá rindo, rindo porque você é mais teimosa do que ela.” —Maria sorriu, e pela primeira vez em semanas,eu consegui sorrir também, as vezes, acho que a Milena deixou um pedaço dela aqui, não só no DNA, mas… no jeito, na fúria, no silêncio, no carinho que vem disfarçado de t**a, Maria não diz “eu te amo” com palavras, mas me traz café de mentirinha na xícara de plástico, cobre minhas costas quando durmo no sofá, e de vez em quando, coloca uma ameixa no meu travesseiro, sem explicar, sem perguntar, como quem diz:
“Você ainda sente falta dela, né?”
E sim, eu sinto, sinto todos os dias, em tudo, mas Maria está aqui, e talvez… seja a forma do universo de me dizer:
“Você perdeu uma rainha, mas ainda tem uma princesa.”
Final do dia, ela dorme, respiração leve, cabelo bagunçado, um ursinho encostado na boca, me sento ao lado da cama, e sussurro:
—“Prometo que vou proteger você, mesmo que o mundo venha, mesmo que eu caia.”
Porque eu sei, se Milena estiver viva…ela vai voltar, e se não voltar? eu vou criar Maria como ela queria, forte, livre, incontrolável, e se o mundo quiser sangue de novo... vai ter que passar por mim, e por ela.
Narrado em terceira pessoa
Litoral Central do Chile – aproximadamente 120 km de Santiago
O sol da tarde tingia de dourado as fachadas desgastadas, O mar sussurrava ondas leves, e as gaivotas riscavam o céu como notas livres de uma canção esquecida, dentro do restaurante de madeira pintado de laranja e azul, o aroma de peixe grelhado, pão fresco e chá de limão com hortelã se misturava à brisa salgada que entrava pelas janelas abertas. Era um lugar simples, mas aquecido por uma beleza silenciosa e por ela.
Julieta, morena clara, cabelos ondulados caindo até os ombros, olhos cor de mel que carregavam o brilho de alguém que observa tudo…mas não se lembra de nada,faz três anos que ela acordou em uma cama de hospital, nenhum documento,nenhuma lembrança, nem mesmo uma voz interna., somente a sensação estranha de que ela era alguém que havia sumido de si mesma, a enfermeira que cuidou dela, uma senhora chamada Beatriz, foi quem deu o nome.
— “Você me lembra uma Julieta de um conto antigo… forte, bonita e com o olhar triste de quem viveu mais do que devia.”
Julieta aceitou o nome, aceitou a vida que lhe ofereceram ali, mas jamais aceitou o vazio que sentia ao olhar o próprio reflexo, ela trabalha no restaurante do senhor Joaquín, um homem calado que a acolheu como se sempre a conhecesse, atende mesas, anota pedidos, sorri com gentileza, mas no fundo, Julieta está sempre observando, o mar, as pessoas, o céu, os próprios sonhos, sonhos que são como fragmentos de filme queimado, vozes que não têm rosto, sangue na areia,um beijo sob chuva pesada,uma arma sendo jogada no mar, um nome, sempre o mesmo, sussurrado no vento, Milena, ela nunca contou isso a ninguém, nem mesmo a Beatriz, que a visita com chá e palavras doces, nem a Joaquín, que certa vez viu Julieta chorar dormindo e apenas deixou um cobertor extra.
Ela guarda tudo dentro de si, porque teme, e porque sente que, se puxar o fio errado… o passado pode vir correndo atrás, mas naquela manhã de primavera, algo muda, um homem entra no restaurante, veste camisa preta, calça escura, e tem o rosto marcado por cicatrizes leves, como se o tempo e a violência tivessem se revezado para moldá-lo, ele olha para Julieta, longo, demorado, doloroso, e quando ela se aproxima para atender a mesa, ele não diz "bom dia", não pergunta pelo cardápio, não pede café, ele apenas solta, com voz baixa, trincada:
— “Você?”
Julieta paralisa, o prato quase escorrega da mão, ela o encara, e pela primeira vez em três anos, sente a respiração travar no peito.
— “Desculpa?” — ela pergunta, com voz cortada, ele sorri de um jeito triste, e murmura, como se falasse com um fantasma:
— “Você não é Julieta ?” — A voz dele arde em sua mente, como um farol aceso em noite sem lua, será que o passado finalmente a encontrou? ou será que ela foi… deixada ali, para ser esquecida? ela sabe que o mundo como ela conhece está prestes a mudar.